31 de outubro de 2015

Montanha-russa

Entrou no primeiro vagão da montanha-russa sozinha. E esperava que a adrenalina fosse mais forte que o medo de cair de lá de cima. Por um tempo foi. Mas depois da primeira curva, do primeiro trecho de cabeça para baixo, foram apenas repetições sucessivas. Mais do mesmo. Um looping eterno. O coração ainda bate acelerado e a respiração até que fica ofegante, mas o incômodo físico é maior que a diversão. Mal sabia que depois que entra na montanha-russa não tem volta. Só dá para descer depois que parar. E infelizmente ela não tem opção a não ser esperar. Pensa toda vez que dá aquele frio na barriga: vai ser a última queda. Mas nunca é. Já não ouve os gritos desesperados, já não consegue mais aproveitar a volta no brinquedo. É como se toda diversão e toda a alegria fossem simplesmente anuladas porque nunca acaba. Sente náuseas, medo, frustração. É como se a vida estivesse passando depressa demais, conduzindo o vagão sempre para o mesmo nada. O eterno vazio de não saber quando vai parar, onde vai chegar e se vai ter alguém lá esperando. Provavelmente, vai descer cansada, enjoada e mais cética do que era quando aceitou entrar na montanha-russa sem saber quando seria a última volta. Mas vai logo comprar outro ticket e subir de novo. Porque ela ama o passado, o postergar a dor. Ama ficar de cabeça pra baixo e não saber quando vai parar novamente. Excesso de esperança e sonhos nunca fizeram mal a ninguém.

16 de junho de 2015

Autumn leaves. Love stays.

Como uma daquelas folhas meio secas de outono você foi chegando. Caiu da árvore e veio suave, lentamente, sutilmente caiu bem pertinho de mim. No início foi aquela excitação que coisas novas provocam, borboletinhas no estômago e um sentimento de efemeridade. Achei que você era como o outono, aconchegante, bonito, mas que passaria e, de repente, seria inverno. Parecia aquela Lua que não é cheia nem minguante, que ninguém repara mas que continua lá. E que de repente passa, mas não deixa de ser Lua. Mas você foi ficando. As luas foram passando, as estações, os medos, o tempo, e algo continuou lá. Aquela sensação de ver a folha cair permaneceu. Latente. E foi então que eu percebi que você não era estação, você era permanente. E eu já não sei como explicar o que aquela voz provoca em mim, o quão profundo aqueles olhos me levam a sonhar, o tanto de alma e de amor que eu consigo enxergar lá no fundo daquela lagoa verde. E foi nessa lagoa que eu mergulhei. Até o fundo, sem colete salva-vidas, sem tubos de oxigênio. Eu mergulhei sem saber se consigo submergir depois. Eu me joguei do penhasco sem saber se vai doer. Se vai ter volta. Mas eu nunca senti tanta vontade de continuar caindo, afundando, mergulhando até encontrar um lugar onde a gente possa descansar, em paz. Onde não haja nada além de amor e serenidade.

"Mas há um encanto mais poderoso ainda
Nos olhos voltados para o chão
No momento de um beijo apaixonado
Quando brilha por entre as pálpebras baixas
A sombria, obscura chama do desejo."


1 de maio de 2015

Ensaio do conto “O menino rico”, de S. Fitzgerald

2012

          Francis Scott Fitzgerald é lembrado hoje, principalmente, como o autor de “O Grande Gatsby”, embora tenha construído sua fama com o conto. Publicando em revistas de grande circulação de sua época, ele ganhou o dinheiro de que necessitava para sustentar-se enquanto escrevia os romances, que considerava a sua legítima produção literária. Destinadas a um público mais amplo, as histórias curtas coletadas em “24 Contos de F. Scott Fitzgerald” revelam um intérprete sensível da sociedade americana. Não um intérprete engajado, mas um escritor dos frenéticos anos 1920, que ele mesmo batizou de "a Era do Jazz".
            Filho de um antigo aristocrata e de uma rica herdeira nasceu em 24 de setembro de 1896, em Minnesota, nos Estados Unidos, em um lar irlandês de formação católica. Ele chegou a estudar durante algum tempo na Universidade de Princeton, mas não se formou. Este período, porém, o levou a se unir aos afortunados, a uma elite pela qual se apaixonaria irremediavelmente. Em 1920, casou-se com Zelda Fitzgerald. Ele e a esposa mergulham em um vertiginoso universo de prazeres, regado a muitas festas e viagens sem fim. Dedicou-se durante muito tempo às crônicas e ensaios, pois não tinha mais tempo de criar suas novelas, mas tornou-se famoso, na verdade, por seus romances e pelos contos curtos em que retrata o culto ao luxo e às excentricidades de uma geração perdida na era do Jazz nos EUA, os dourados anos 20.
            Foi ainda na década de 1920, que o autor publicou O Grande Gatsby, última grande obra antes do mergulho do escritor nos excessos e extravagâncias de sua nova vida, escrita na França, onde o casal residiu por algum tempo. Este estilo de vida, muito semelhante ao dos personagens do autor, tem um fim drástico em 1930, com a internação de Zelda em um hospício.
            Fitzgerald era ao mesmo tempo célebre por seu modo de vida, e ardente crítico deste culto às ilusões e às aparências. Este era o universo retratado em suas obras, das quais ele era simultaneamente o artífice e o protagonista implícito.
            Em seus últimos anos de existência, produzia roteiros para Hollywood, quase todos mutilados ou recusados. Doente, bebendo muito e cheio de dívidas, o escritor morreu aos 44 anos, de um ataque cardíaco, em Hollywood, berço dos sonhos norte-americanos, os quais ele representou como ninguém em sua obra e vivenciou amplamente em sua vida. Zelda morreu oito anos depois, em 1948, quando o hospital psiquiátrico em que estava internada se incendiou.
            O conto “O Menino Rico” (1926) utiliza um narrador externo à história para contar a história de um jovem nascido em berço de ouro e como ele responde ao amor, os relacionamentos e às questões financeiras e de status dentro de sua classe social. Passível de ser confundido com o próprio Fitzgerald, esse narrador estaria diante do seguinte dilema: como transformar uma pessoa em personagem, sem fazer dela uma caricatura grotesca? Daí as suas auto advertências, que acabam por levá-lo a um alvo ambicioso. Desconstruir as falsas imagens que os pobres têm dos ricos e estes de si mesmos. “A única maneira que tenho para descrever o jovem Anson Hunter é abordá-lo como se fosse um estrangeiro e teimar até alcançar meu ponto de vista. Se aceitar o ponto de vista dele, mesmo que por um segundo, estarei perdido – e nada terei a mostrar a não ser um filme grotesco”.
            Fitzgerald começa por descrever os ricos quase como se fossem uma raça separada - "eles são diferentes", explica o narrador: “No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós”. Fitzgerald faz a arte de caracterização parecer fácil. Ele molda seus personagens rapidamente, seus gestos, linguagem corporal e processos de pensamentos fluem suavemente. A maneira do escritor de inserir o narrador como um personagem atuando em vários pontos é impressionante. A história de Anson Hunter é contada a partir de um ponto de vista externo, onisciente, com a voz ao fundo de F. Scott Fitzgerald contando sua própria história sobre os amores e as perdas que ele experimentou em sua própria vida dramática. Como quando Anson se apaixona, onde há a nítida sensação de que Fitzgerald está contando sua vida íntima, com suas próprias fraquezas no amor e no alcoolismo que aconteceram em seu casamento com Zelda.
            Aqui, o protagonista é Anson Hunter, um bem-sucedido jovem nova-iorquino, que parece ter o mundo inteiro pela frente e pelas ruas pavimentadas de ouro. Anson Hunter cresce sabendo que as pessoas ao seu redor acham ele superior: Eles sabem que ele é rico apenas olhando para ele.
            A tensão da história começa imediatamente com o seu amor intermitente por Paula e o alcoolismo, que se encarregara de estragar tudo sempre. Anson é um homem que vive em mundos separados durante a brilhante e glamorosa década de 1920, quando tudo parece incrivelmente acessível: Casas grandes, carros vistosos, noites extravagantes na cidade. No entanto, suas histórias tomam um rumo, assim como o mercado acionário na crise de 29.


            Sua real paixão, em meio as romances que viveu durante sua vida, foi Legendre Paula. Se é que podemos chamar o sentimento e o modo como Anson agia de paixão. Superficialmente, Paula não parece ser o tipo de menina por quem Anson sofreria tamanha dualidade de pensamentos entre o que é frágil e o que é sólido. Fitzgerald descreve Paula como uma garota "conservadora e bastante adequada." Anson é inteligente, gosta de aproveitar a vida: é um cínico – como ele mesmo afirma que a vida o tornou. No entanto, obcecado por Paula, não porque ela representa o dinheiro que ele quer, mas porque ela representa o sistema social que justifica sua existência. 
            Em seu mundo, ​​homens mais velhos (assim como seu tio Robert) detêm as rédeas do governo e de negócios, as mulheres castas e adequadas (como Paula e sua mãe) devem manter as regras de decoro e etiqueta. Até que tenha idade suficiente para assumir a máscara de masculinidade de mais velho responsável, playboys, como Anson só querem diversão. Isso é tudo que Anson pensa estar fazendo. Assim como ele vê em si mesmo a semente não desenvolvida de um futuro líder, ele vê em Paula o núcleo de uma futura mulher de sociedade. Definitivamente, considera que seriam um bom par.
            O que ele não percebe, porém, é que a sua riqueza tem dentro de si o poder de corrompê-lo, e que já começou o trabalho. Seu primeiro problema é que ele se vê como superior. Ele se comporta dessa maneira; Fitzgerald diz que “Anson aceitava sem reservas o mundo das altas finanças e das grandes extravagâncias, do divórcio e do esbanjamento, do esnobismo e do privilégio. Para a maioria de nós, a vida acaba num compromisso – mas foi num compromisso que a dele começou”.
            Anson não vê nenhuma razão para que, sendo jovem e rico, ele tem que jogar de acordo com as regras de qualquer outra pessoa. Se ele quer encher a cara debaixo da mesa, por que ele não teria o direito de fazer isso? E, independentemente de onde esteja ou com quem, quando ele está bêbado e age grosseiramente, por que ele deveria se desculpar por seu comportamento? Ele é rico, e os ricos fazem as regras. As pessoas devem simplesmente aceitar sua superioridade natural, independentemente de como ele se comporta. O narrador deixa isso muito claro no início da história: "Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós”.
            Parece muito difícil simpatizar com um personagem que mantém essas crenças e defende seus atos de forma tão sincera e natural, mas é o que fazemos, porque sentimos desde o inicio que ele é dirigido para um abismo. A triste história de um menino que tinha tudo e acaba com nada. 
            Seu primeiro erro está na sua incapacidade de se comprometer com Paula. O destino deu a Anson todas as oportunidades para levar Paula ao altar. Ao fazer isso, ele estaria afirmando a sua idade adulta, tomando seu lugar ao lado dos homens feitos e bem sucedidos de Nova York. Mas, fiel ao seu estatuto como um herói trágico, ele tenta constantemente desafiar o destino. O papel ordenado para ele é ser um herdeiro rico, responsável por negócios, um senhor de alguma mansão suburbana, o benfeitor de instituições de caridade, mas ele se recusa. Anson não quer crescer. Ele consegue um emprego entrando em uma corretora e mesmo quando ele sobe alguns degraus da escada corporativa, há ainda uma parte dele que é incapaz de desistir da farra colegial, e trata com indiferença as responsabilidades que o destino impôs sobre seus ombros. Paula vê "duas personalidades" alternadas dentro de Hunter. Ele poderia impressionar com a "sua presença forte e atraente", mas por outro lado era "bruto, bem humorado, irresponsável". Mesmo assim ele ainda acredita que pode controlar Paula e que eles vão se casar um dia.
            O segundo erro está na autojustiça, condenando sua tia Edna por ter um caso fora do matrimônio. Anson, de todas as pessoas, deveria ser a última a condenar alguém por lapsos morais. Ele mesmo tinha acabado de terminar com Dolly Karger, a quem namorou durante todo o tempo sabendo que ela não significava nada para ele.  Ele não tinha o direito de ameaçar expor Edna e Cary, e torna-se diretamente responsável pelo suicídio de Cary. Anson nunca se sentiu culpado, já que pra ele a situação que provocou com suas ameaças de contar a verdade não eram capazes de levar uma pessoa a querer a morte.
            Seu terceiro erro foi acreditar que quando estivesse pronto, Paula o estaria esperando. Ele sente-se perturbado quando ouve que ela se casou com outra pessoa, mas, Anson vivia em um mundo caracterizado por "divórcio e dissipação", e parece sentir que Paula ainda fará parte de seu futuro. Basicamente, esse pensamento equivale a uma crença de que o destino está ao seu lado: Deve ser porque ele nasceu rico. 
            Mas a lição mais importante da vida de Anson é que para aqueles que muito se é dado, muito será pedido. Ele não parece perceber que o retorno é um processo ao longo da vida. Paula dá a Anson muitas oportunidades para reivindicar seu amor. Ela ainda lhe dá uma segunda chance quando se divorcia pela primeira vez. Anson - que certamente deveria ter sido maduro o suficiente para "crescer" até então - não faz nada, e Paula continua sua vida, casando-se com outra pessoa. Seu destino é selado quando ela o informa de que está feliz com sua nova vida. Ela se casou e está grávida. No fim, revela que ela nunca fora apaixonada por Hunter. Ele é ferido, mas ainda não consegue entender que tudo aconteceu devido aos seus próprios fracassos. Paula morre no parto. Ela viveu uma vida inteira no período em que Anson gastou tentando crescer, tentando passar de um menino rico a um homem. Hunter chora, e, em seguida, segue viagem a bordo de um navio, bebe seus coquetéis e já flerta uma garota atraente. 
            O narrador é capaz de ver falhas Hunter já que não é "como" ele. Quando eles estão de luto pela morte de Paula no cruzeiro, Hunter se distrai novamente por outra mulher. O narrador se resigna a ser abandonado por seu amigo, observando que Hunter precisa amar a si, mas também ser amado. “Acho que ele não era feliz a não ser que tivesse alguém apaixonado por ele, respondendo a seus sentimentos como se fosse um imã, ajudando-o a explicar a si mesmo, prometendo-lhe alguma coisa”.

            Fitzgerald, em um estilo todo próprio, oferece choques inesperados de sensibilidade e sabedoria, que parecem de alguma forma surpreendente.  Nessa representação trágica, mas precisa do outro lado do sonho americano, “O Menino Rico" é um dos contos mais comoventes de Fitzgerald.

17 de abril de 2015

Bússola quebrada


Eu sempre tive um plano. Eu sempre soube aonde eu queria chegar, mesmo que ainda não fizesse ideia do caminho que precisaria percorrer até lá. Hoje eu não tenho mais nada. Aos 25 anos eu pareço ter entrado em um labirinto sem saída. Eu sinto como se andasse em círculos há tempo demais e cansei de continuar tentando. Eu não quero gastar todo o tempo da minha vida para voltar sempre ao mesmo lugar, eu não quero permanecer presa a este labirinto.

Um dia me disseram que ficaria cada vez mais fácil com o tempo, que a experiência traria soluções e paz a minha alma — mas é exatamente o oposto. Quanto mais eu remo por aí, mais a maré pulsa contra. São tantos pensamentos guardados no meu travesseiro que tenho medo que um dia ele exploda de dúvidas e receios e machuque quem não tem nada com isso. Também não me avisaram que pensar dói. Pensar machuca, atormenta e enlouquece. Quanto mais eu penso menos eu quero continuar pensando. Mas o vazio, o silêncio e o escuro são combustíveis altamente inflamáveis que, à espera de qualquer pensamento que seja, explodem.

E a humanidade? Sabe aqueles cachorros que correm atrás do rabo? Às vezes penso que a humanidade faz exatamente o mesmo. E quando para e pensa no porquê de agir da mesma maneira há milênios, adoece. E ao parar, começa a notar os seres humanos em volta, a maldade, a fome, a pobreza, o preconceito, a falta de empatia e a falta de amor. Nesses momentos, a fé vira ceticismo e todos os sonhos do mundo parecem esmaecer diante de tamanho caos. Não há uma lógica que explique. Por que tem de ser assim.

Eu não quero perder a fé na humanidade. Eu não quero acordar todos os dias e pensar que vou ouvir tantos discursos vazios de amor e transbordando de ódio e indiferença. Começo a pensar que todos aqueles que um dia julguei loucos são as pessoas mais felizes que encontrei na vida. Talvez haja três destinos bem delineados para todo mundo: ignorância, ceticismo e loucura. Do primeiro eu fugi há muito tempo e não há como voltar. Resta saber qual dos outros dois me aguarda.

Não há felicidade plena sem paz de espírito. Espero que um dia encontre.


25 de fevereiro de 2015

OK Computer


É com pesar e lágrimas nos olhos que volto aqui, depois de pouco mais de um ano, para desabafar. Não que durante esse tempo não tenham acontecido mais daquelas histórias cheias de fins, de tragédia e inocência derramada por caras que nem sequer sabem disso. Mas agora aconteceu de novo o que nem o melhor roteirista de novela mexicana imaginaria: encontrei o clone de um fantasma. Ou um protótipo de um fantasma, como acharem melhor. Voltei porque meu coração está despedaçado, novamente sangrando por nada menos que um babaca. É triste saber que uma pessoa que não merece minha inocência conseguiu tirar minhas qualidades, ofuscar meu brilho e voltar meus defeitos contra mim. Uma pena que eu só tenha percebido agora, com o brilho de uma aliança na mão. Não na minha. Eu nunca vou entender essa minha vocação para "a outra". Parece um karma que me persegue, sem eu nunca ter feito nada que justifique tal fetiche da vida por me foder em qualquer tipo de relacionamento que eu tente estabelecer. Novamente, eu me apaixonei por um babaca. Dessa vez foi um pouco diferente. Eu realmente fui enganada e a culpa não foi minha. Aquela história de "abri meu coração como se fosse um motor e na hora de voltar sobravam peças pelo chão". Sem saber, cada babaca que passou pela minha vida foi criando monstrinhos dentro de mim. Quanto mais o tempo passa, maiores eles ficam. Tenho medo do dia que eles sejam tão grandes que não deixem ninguém se aproximar. Eu sou uma eterna apaixonada, que gosta de sonhar (mesmo com babacas). Eu realmente gosto de pensar que em algum lugar, seja no outro lado do mundo, seja aqui ao lado, existe um cara que me aceite como eu sou e que reserve um espacinho único para mim. Chega um momento da vida que ninguém mais quer ser "só mais uma" ou aceita ouvir um "daqui a 7 anos". De volta de mais uma batalha, perdida e tomada por feridas, eu prometo: não vou deixar me embrutecer, mas também não deixarei que qualquer babaca entre no meu mundo tão facilmente e faça o estrago que esse fez. Mas agradeço, de coração, por ter me lembrado do meu mantra: "everybody lies". De agora em diante (e que minha memória não me deixe esquecer disso tão cedo), sou eu em primeiro lugar. Não vou mudar, não vou ceder, não vou aceitar menos do que mereço. Se isso for demais para os babacas que encontro por aí, tudo bem. Eu realmente tenho apreciado muito minha companhia. Achei que você era um cara exótico, bonitinho, romântico. Mas era só mais um babaca mimado que acha que pode ter tudo. E o pior é que pode mesmo.

"Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito 
Ninguém vai conseguir quebrar"

17 de fevereiro de 2014

Aquele tempo


"Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo. Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende."

(Caio Fernando Abreu. “O destino desfolhou”, in: Os dragões não conhecem o paraíso)

15 de dezembro de 2013

Kafka en la orilla

"Un alma solitaria errando por la orilla donde rompen las olas del absurdo."

Eu continuo vagando por um mundo só meu esperando que teu barco encontre meu porto.  

26 de junho de 2013

Uma história que não tem adeus não tem fim


Um tanto de amor que não era amor. Por medo de te perder eu te afastei cada vez mais de mim. E veja só, estou enferma. Doente de amor, se isso é possível. Pareço um daqueles cachorros de rua que quando chutados voltam abanando o rabo como se aquilo fosse o maior gesto de afeto que tivessem o direito de receber. Se não é amor, consigo entender como eles se sentem. É como saber que alguém notou sua presença, mesmo que tenha se tornado algo desagradável. Pode parecer coisa de quem não tem amor-próprio. Não tiro a razão de quem pensa que não devemos aceitar que sejam cruéis conosco e mesmo assim permanecer ali. Mas aqui estou. Lutando por algo que já morreu, clamando pelo direito de dizer adeus. E descobrindo que não há limites para doer. Porque dói. Cada vez que você diz que tanto faz, e eu sei que lá no fundo, importa sim. Não é possível que não exista nada de bom aí dentro que consiga reconhecer que ainda restou algo bom entre nós. Algo que você, com toda essa crueldade inventada pra me afastar de ti, como uma criança que corre do bicho-papão, não vai conseguir tirar de mim. As boas lembranças. As memórias que guardei de quando te conheci. Uma outra pessoa, um homem que me fez acreditar que valia a pena continuar a acreditar no amor. O homem que agora me expulsa e me descarta como se fosse papel higiênico. Fui um belo de um tapa-buracos enquanto a indecisão te consumia. Pulei do abismo sozinha. Não escolhi você. Não existe uma razão ou lógica que me faça entender o porquê você. E pra onde foi o carinho? Como você consegue simplesmente? Deu descarga? Jogou no lixo? Como se faz pra descartar uma pessoa da minha vida? Por favor, ensina pra mim o segredo. Porque no fundo, eu também não te quero mais na minha vida, nem nos meus sonhos. Parada e pateta eu não sei como fazer parar de doer. Não sei como te deixar ir. Não sei como simplesmente virar as costas e seguir por aí como se nada tivesse acontecido. Pode parecer coisa de menina boba ou que assistiu a filmes demais, mas eu não sei colocar um ponto final enquanto não vivenciar esse ponto final. E isso significa olhar nos teus olhos uma última vez na minha vida e dizer obrigada. E te ver partir. E saber que é pra sempre. E pra nunca mais.

31 de maio de 2013

Quase amor VI

Comecei uma história na semana passada e me recuso a terminá-la desse jeito. Também porque uma parte dela foi vivida só na minha cabeça e não faria sentido não contar exatamente a verdade. A história bonita acabou. Falei algumas vezes, insistentemente, sobre a mesma pessoa. Eu me alimento e me enveneno de verdade. Eu não sei lidar com mentiras ou omissões. Quero saber de tudo, por mais que algumas partes me afetem mais do que imaginara. Não é fácil conviver com a verdade depois de algum tempo fantasiando um sentimento que nunca existiu. Se a gente não consegue controlar nossos sentimentos, que dirá o dos outros.

Não vou culpá-lo por não ter sentido o quanto eu senti por ti, o que ainda sinto. Embora, agora, comece a parar de remar contra a corrente. Eu só não entendo por que a verdade ficou escondida por tanto tempo. Você me disse que era óbvio, que eu sempre soube. Desculpe, eu não sou oráculo, não leio mentes e muito menos corações. E também nunca ouvi falar em "gosto de você às vezes". Isso deve ser pior do que odiar e eu não me submeto mais a um amor "às vezes". Enfim, aquele fio de esperança que sempre se esconde dentro da gente se perdeu. É mais fácil lidar com sentimentos que faltam do que com os que transbordam. Eu me declaro livre do teu amor. Dos teus abraços e olhares que me diziam outra coisa. Ou fui cega o bastante pra entender tudo errado. Pelo jeito, a tradução falhou e quem se machucou, mais um vez fui eu. Eu conheço todos os estágios de esquecimento, e tenho experiência suficiente pra saber que começou. 

Também não entendo esse amor eterno por alguém enquanto dorme com outra. Não é bonito nem justo. A gente não pode pausar o amor e voltar pra casa como se nada tivesse acontecido. Isso se chama quebra de confiança e é muito pior do que costumam chamar de infidelidade. Não sei até que ponto sei das coisas, mas não me parece certo. Eu, que não amo ninguém, sinto-me no direito pleno de fazer o que bem entender. Enquanto houver homens como você, alguns corações solitários vão gozar de bons momentos juntos durante algum tempo. E depois voltam pra casa, sem culpa ou remorso. Eis o ser humano, nu. Demasiado humano.

24 de maio de 2013

Bolero, Tango e Bossa Nova

I

Não sei se podemos chamar essa de "uma história de amor". Houve mais desencontros que beijos ardentes em quartos escuros e vapor na janela. É a história de duas almas de mundos diferentes que um dia se esbarraram por aí e não conseguiram mais dizer adeus.

Ela, no auge de seus vinte e tantos anos e com a certeza de que deixar seu país era a única solução para todos os seus problemas. Tinha muitas equações não resolvidas por lá. Deixou amigos, o cachorro, os pais com lágrimas nos olhos e o irmão. E deixou o mar. Ela sempre amou o mar, mais até do que gente. Era parte dela. Seu nome era Mariana, assim mesmo, mar e Ana.

Mariana deixou um semestre da faculdade por terminar. A vontade de ir pra qualquer lugar em que pudesse ser Carolina, Sofia, Clara,  era maior que tudo. E lá foi ela, sozinha, imaginando e sonhando, sonhando, sonhando. Tinha certeza de que aquele tempo seria suficiente para conseguir tudo o que queria. Mas o tempo passou rápido demais. Parece que quando ela finalmente encontrava o que a fazia feliz, os ponteiros do relógio resolviam aumentar a velocidade sem trégua. Mari - como os amigos gostavam de chamá-la - não trouxe amor consigo. Estava decidida a dar um tempo nos amores impossíveis, nos trágicos, nos platônicos, e finalmente dar um descanso para o seu coração. Tinha lido uma vez que era preciso se amar primeiro, antes de querer compartilhar sua vida. Mas até então, não conseguira tal feito.

Mas eis que em seu caminho apareceu um jovem, magricela, mas esbelto. Ela tinha medo que suas pernas quebrassem enquanto andava. Era frágil demais para o corpo de um homem, pensava enquanto ele caminha em sua direção. Mas tinha uns olhos parecidos com ameixa, bem redondos e escuros. A voz era engraçada. Era grave e alta demais pra sair daquele gurizinho. Era a alma de homem dizendo a ela que tomasse cuidado com ele. Chamava-se Arturo. Era um nome um tanto estranho pra um homem de menos de 30 anos. Não sabe se pelo idioma que falava ou se por personalidade, mas parecia o cara mais engraçado do mundo. Um cavalheiro que não economizava esforços para ajudar as donzelas em perigo. Deve ter aprendido nos filmes. Ele tinha jeito de quem via todos os clássicos, mas também perdia algumas horas com os dramas hollywoodianos. Logo descobriu que seu coração tinha ficado longe, em algum continente perdido, talvez no fundo do Atlântico. Mas enquanto fitava seus movimentos ao abrir mais uma cerveja pensava: - Ele precisa ser meu. Não era exatamente um desejo ardente de posse, embora pudesse sentir ciúmes só de pensar nele andando de mãos dadas por aí com outra.

E a dúvida de quem seria essa mulher que havia lhe sequestrado o coração consumia seus dias de tédio. Dias em que ficava deitada na cama porque era só mais uma tarde de chuva. E como chovia! Mariana nunca gostou de chuva, era do sol, do verão, do mar. Nascera em uma ilha e não havia santo que a convencesse de que dias cinzas molhados mereciam seu esforço de levantar da cama. Mari esperou tempo demais, noites demais, festas, encontros, viagens. Esperou porque pela primeira vez queria fazer as coisas certas. Sem atropelos ou atitudes que a fizessem ruborizar ao amanhecer. Nunca dera sinal algum de que o queria. De que o desejava, mais que como um conhecido. Ela queria mesmo seu corpo em cima e debaixo do dela. Tinha pensamentos estranhos quando ele se aproximava, queria abraçá-lo ali mesmo, na frente de todo mundo e sem explicação. E seria um abraço tão forte que tinha medo de quebrar seus ossinhos tão frágeis. Mas se continha.

Aos poucos, o cavalheiro foi transformando-se em só mais um cara normal. Sua boca beijou mais bocas do que ela pudera contar. E a cada noite era de um novo país. Não sabia as razões pra ter deixado sua amada pátria, mas deve ter sido para o aprendizado de novas línguas. Do jeito dele. Arrancando o pudor que restava das meninas que também deixaram sua terra natal com seus beijos aflitos de quem não sabe pra onde está indo, mas continua caminhando. E Mariana sempre ali, esperando sua vez. Sabia que conseguiria. Aprendera com o tempo que poderia ter o homem que desejasse, só precisava deixar as horas passarem. Embora não tivesse muitas doses de paciência em seu corpo, esperou. Até que uma noite, não sabe se por excesso de álcool no sangue ou se por uma combustão espontânea, puxou-o pela mão e o beijou. Sem pensar em nada. Simplesmente fez. Era geminiana, tinha dessas atitudes inexplicáveis às vezes. E dançaram, até cansar.

Mas a manhã seguinte sempre chega.

(Continua...)