24 de dezembro de 2009

Natal


"Aquele homem que não era sequer perfeito e por isso mesmo belo, porque a amava e ela a ele, e isso era para sempre apesar do fugaz. Passaram-se meses, ela não o esquecia. "

E tem gente tentando comprar felicidade, só porque é Natal...

20 de dezembro de 2009

Ela é frágil o tempo todo, só tenta não transparecer. As máscaras de supermulher ainda vendem bastante por aí...

18 de dezembro de 2009

You can find me, if you ever want again

You can't build a house of leaves
And live like it's an evergreen
It's just a season thing
It's just this thing that seasons do

And that's the way this wheel keeps working now
That's the way this wheel keeps working now
And you won't be the first
No you won't be the first
To love me

http://www.youtube.com/watch?v=eBd2_baNwMw

14 de dezembro de 2009

Sobre qualquer coisa, sobre tudo...


É bem verdade que nunca aprendi o que era certo e errado e que minha impulsividade abala qualquer tentativa de aproximação maior que um simples "até logo". Entendo que sou difícil de compreender e que às vezes faço tudo o que não queria e sinto um prazer imenso por isso. Sim, sou uma pessoa que não abre mão de certos valores por nada nesse mundo, mas que comete crimes muito piores. Eu realmente nunca entendi de onde vem tanta doçura e estupidez. Devo ser duas pessoas no mesmo corpo, o sim e o não, o pra sempre e o nunca mais. Desse jeito eu mantenho ao meu lado poucos e bons seres humanos. Eles me bastam, e acho que de alguma maneira também sou o suficiente a eles. Será por que de mim não se pode esperar nada? Ou por que se espera que eu seja capaz de tudo? Aí vem o passado que sempre se apresenta, dá o ar de sua graça. Vem assim, de repente, carregado por uma brisa, ou arrebatador, unido a maior tempestade. O que importa aqui é que ele sempre volta, e eu faço questão que seja assim. Pareço adorar fantasmas. Gosto de sustos e do que não posso mais estragar. É que já passou e mesmo com essa minha capacidade de arruinar tudo, sobre o que já foi eu só posso guardar lembranças e contar histórias. Devo ser uma daquelas pessoas que sentem prazer na dor, na perda. Aqueles estranhos que conseguem amar e odiar a cada 23 segundos, que dizem estar tudo acabado, mas no fundo, sabem que apenas começou. Não sei por que escrevo... Deve ser porque estou vazia, ou cheia demais. Talvez seja o amor tão grande que não cabe mais em mim. Talvez seja só tristeza e decepção mesmo. Não tenho porquês, geralmente o que faço não faz sentido. Eu simplesmente vou apertando os botões e escolhendo os caminhos conforme o que sou naquele instante. Mudo. Mutaciono e me transformo sempre, mas no fim, fica tudo igual. Eu fico aqui, você lá. Eu fico sozinha e você se completa com minha ausência. Devo ser daqueles vinhos muito fortes que precisam ser consumidos com moderação... O problema é que nunca fui conhecida pelo equilíbrio. Acabamos embriagados de nós mesmos. Aí vem a ressaca, a repulsa, a abstinência. Às vezes, o vício. E do vício, o fim.

12 de dezembro de 2009

Simples como um café das 6


Vontade de ficar aqui, para o resto da vida, até que a morte me separe. É engraçado como meu quarto continua sendo a melhor festa, o melhor sonho e meu maior pesadelo.. Eu sinto asco só de imaginar toda aquela gente, interpretando, com sorrisos falsos e quase petrificados, tentando de qualquer maneira demonstrar uma felicidade imensurável e inexistente. Parece haver tanta gente feliz e satisfeita com a vida que leva. Mas eu não acredito e nem pretendo aceitar. Sorrir com a alma sendo corroída dói mais que chorar até ficar vazio. Vazio de tristeza, vazio de felicidade. Repleto de mágoas e decepções. E o mundo vai girando, e as pessoas continuam mentindo. Incrivelmente acham que isso faz sentido. Pensar que fingir sorrir é melhor que sentir sofrer só me deixa mais desacreditada da pureza e inteligência do ser humano. A questão não é se entregar de corpo e alma, atirar-se do precipício. É muito mais simples e menos doloroso que isso. Sabe aquele verbo conjugado toda vez que você abre o olho e respira? Viver! Viva. É tão complicado? Qual o sentido de jogar, inventar, manipular, ou qualquer "ar" que não seja digno de ser encenado? Não nessa situação, não quando há vidas que dependem e giram em torno de si. Mas quem se importa, né?! Até que o sentido gramatical de verbo passa de palavra variável que exprime ação, estado, qualidade ou existência, para realidade. E dói. Entra na sua vida como um sonho e a torna o pior pesadelo. Então você grita, ninguém ouve. Você chora? Sofre? Ninguém sente... Só sente muito. Bingo! Finalmente você pára pra pensar em todas as palavras ali em cima e percebe que poetas são verdadeiros aproveitadores e vítimas da vida. E a vida a qual me refiro é a que mantém aqueles mesmos seres capazes de fingir sorrisos de plástico, vivos. E todo esse teatro jamais morrerá. É dissipado como um verme; E corrói, e machuca, e destrói, e mata.

11 de dezembro de 2009

A tristeza permitida

"Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos."

Martha Medeiros

É igual ao que já era...

"Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.

O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um objetivo na vida. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.

E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada um amor idealizado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego. Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia solicitado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que não lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

Aquele amor corretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém que despreza amores corretos, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns! Agradeça e aproveite o que lhe foi entregue por sorteio."

Devaneios, devaneios...


E lá estava ela. Mais uma vez presa ao passado, cansada do presente, temendo o futuro. A mesma história se repetindo como há três anos... Sensível demais para o mundo, apegada à solidão, querendo estar cada vez mais sozinha, cada vez mais sem ninguém. Tentando consertar tudo e insistindo mais uma vez nos velhos erros, nas gastas, repetidas e exaustas palavras. É egoísmo demais, é se importar demais, é demais pra ela. Peças que não se encaixam, o novelo de lã que desenrola até virar nó, daqueles bem apertados que ninguém consegue desatar se não cortar pela metade. Chegou ao ponto de precisar talhar o fio, de machucar-se e aos outros para seguir em frente. E como seguir em frente se ela morre de medo do que vem? Do que não sabe? Do que não pode controlar? Como jogar se ela já esqueceu as regras do jogo? E se já o descartou e o embaralhou tantas vezes que esqueceu as cartas? Ela perdeu a si mesma. Ela se perdeu, e junto com a perda, a essência se foi, a vida foi sendo. Ela? Ela também partiu. Ao meio.

8 de dezembro de 2009

CFA

" Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos… Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura."

1 de dezembro de 2009

7

"Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... se calhar ... Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar ... experimente me amar!"

29 de novembro de 2009

27 de outubro de 2009

Éramos sós

Hoje tirei o dia para observar. Prestar atenção na peculiaridade das pessoas que passavam por mim. Certo. Não fui tão feliz na empreitada quanto achei que seria. A cada pessoa que eu decidia observar, eu esquecia de outra. Eu queria enxergar tudo de todas ao mesmo tempo. Queria entender por que elas eram assim naquele instante. Por que eu era o que era? Achava que através dos outros eu poderia me enxergar melhor. Não encontrei nada. Havia uma mulher que cambaleava, esquerda-direita, já sem forças, não sei se era a cachaça ou a velhice. Não senti pena. Continuando pela mesma rua encontrei uma criança. Minto. Ela me encontrou. Veio correndo em minha direção (imagino que tenha sido) e abraçou minhas pernas, como se precisasse de segurança, como se fosse do meu tamanho. Mas eu não vi se correu, se estava com medo ou simplesmente quis fazer gracinha. Nesse instante eu observava um pombo comendo restos de um calzone deixado pela metade. Pensei no porquê aquele calzone estava ali, nem inteiro, nem metade. Era resto. E a criança me olhou como quem se decepciona e seguiu seu caminho. Eu esqueci de esboçar um sorriso. Fiquei pensando em como pombos são nojentos, em como calzones são nojentos. Fiquei lembrando dos restos que deixei por aí. Restos de vida, restos de sonho, restos de lembrança. Cansada de andar, parei. Sentei em um degrauzinho qualquer, em uma esquina qualquer. Eu era qualquer uma, mais uma, outra. Decidi não observar mais nada. Foi então que me deparei com um velhinho, uns setenta anos com cara de cem. Mão no queixo, olhos aflitos. Ele chorava. Meu dia acabou ali. Ele chorava por sentir-se só. Chorava porque não sentei ao lado dele, esqueci de enxergá-lo. Ele não era nada, eu era só mais uma. No meio de toda aquela gente, indo, voltanto, correndo, gente desesperada, gente apaixonada, gente esquecida, éramos sós. Estávamos em companhia da solidão. Éramos companheiros, éramos só dois.

25 de outubro de 2009

Mais uma vez

Hoje talvez eu tenha encontrado algumas respostas bem importantes, mas que não vão mudar a minha vida, porque eu sei que não irei mudar. A minha dificuldade em seguir em frente se baseia principalmente na dificuldade em desatar os nós.

Primeiro: eu não consigo odiar ninguém.
Segundo: não odiando ninguém eu também não consigo esquecer.
Terceiro: se não esqueço de alguém, renego-me a deixar outra pessoa entrar.

No fim é sempre igual. Os seres humanos consideram isso fraqueza, e como tal, é geralmente utilizada pra fazer mal. É uma arma certeira. E dói. Pensei então em alguma solução para ao menos amenizar, deixar o ferimento menor. O segredo é fingir que não perdoei. Sim, porque eu sou capaz de perdoar atos que condenariam qualquer ser humano ao limbo das relações sociais e sentimentais. Não, eu não sou tão boa assim, nem tão santa. Eu simplesmente tenho facilidade em conjugar o verbo perdoar, ou sou masoquista. De qualquer forma, perdoar não significa ter de esquecer e me submeter a tudo outra vez. Vou seguir tentando, e talvez assim, minha tendência ao erro diminua um pouco e minha vida possa finalmente fluir. Quero um dia poder estar livre de fantasmas do passado.

"O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."


21 de outubro de 2009

Algum devaneio


Ela quer que ele esteja lá, quer sua presença.
Quer passar e fingir indiferença, quer ausência.
Ela exala ódio, mas morre de amor.


11 de outubro de 2009

Mesmo sem

Continuo respirando mesmo sem. Sem esperança, sem tua presença aqui. Toda essa dor que tua ausência provoca é o que me faz te amar cada dia mais. Teu olhar de desprezo e culpa ferem minha alma como ácido forte. Cada instante que passa, te tenho passando em minha mente, passando e me deixando pra trás da tua vida. Eu sou o que se foi, passado, sou cena gravada em uma película qualquer e esquecida. Sou um filme que saiu de cartaz, cena repetida que o mundo cansou de assistir. Pra ti, talvez eu não seja mais que um sorriso qualquer, uma piada sem graça, uma foto em preto e branco. Mas saiba, ainda és o que me faz forte, mesmo que me enfraqueças. Suportar a solidão de não ter me dá o suporte que preciso pra resistir a tua indiferença quando estás perto. És o que me faz feliz, mesmo que arranques tantas lágrimas de mim, como se fossem nada. Elas se acumularam e viraram antídoto, remédio contra o teu riso falso e forçado, contra tua arrogância e mania de me subestimar. “És parte ainda do que me faz forte, e, pra ser honesto, só um pouquinho infeliz”.

19 de setembro de 2009

Sobre Mim - O excesso da falta


"Foco no lugar vazio da mesa. A pessoa que não veio. Pior ainda: a que não existe. É ali que fico, sempre, apaixonada, doendo, esperando. O lugar vazio da mesa, da cama, do planeta. Minha sorte é um bilhete desses de raspar só que o segredo não sai com nada. Meu amor é a cadeira com pé quebrado que tiraram do salão antes que alguém se machucasse. Então me recuso a sentar em outras e vivo entre o cansaço e o medo de cair de mim mesma.
Eu funciono assim, não sei se você já percebeu. Consigo não te amar, e isso significa passar ótimos dias em paz, quando te trato bem, quando te amo. O que sobra em mim, o que eu guardo no peito, é sempre o negativo do que expeli para o mundo. Por isso o e-mail, carinhoso, um jeito de te expulsar mais uma vez, porque é só isso que sei fazer quando o assunto é sentir além de mim. E quando te trato mal, são dias te amando aqui, nos espaços vazios que você jamais preencheria e que são absolutamente você. O mundo todo que não tem você é ainda mais você. E assim me relaciono. Com o risco de giz branco em torno do corpo que já foi levado do chão. Sempre me apaixono depois que acaba a paixão. Sempre namoro quando acaba o namoro. Só assim sei amar. E então te carrego no peito e em tudo, ao ir sozinha ou mal acompanhada ao cinema. E então janto com você e como bem e até bebo. E passamos sem perceber uma vida inteira. Só porque agora você se foi, é que sinto que você chegou de verdade. E assim namoramos tão bem e sou tão agradável. E é com você que vou até a esquina e o fim do mundo, porque posso tudo agora. Agora que não posso nada.
Daqui vejo milhares de pessoas e boas intenções e motivos pra ser feliz. Mas onde eu estou? Adivinhe? Estou em casa, sozinha, como se não houvesse nada. Como se tudo isso fosse cruel justamente por ser bom. O bom acaba. Mas isso aqui, o refúgio da ansiedade e da alegria, essas duas coisas do demônio, isso aqui é verdadeiro e é daqui que estou, na verdade, no meio de todas essas pessoas boas e os motivos pra ser feliz. É só daqui. Então, quero ir embora. Ir embora pra chegar logo. Porque enquanto estou é insuportável, mas depois, quieta, deitada, o mundo inteiro se encaixa aos poucos até eu pegar no sono e sentir a matéria de estar viva. Não evaporo mais pois estou me apertando até ficar quieta nessa caixinha minúscula que trago tão bem guardada apesar do desespero em ser aberta.
É sempre na falta que vivo. É sempre em cima da altura que não tenho que olho o mundo. E das coisas que eu não sei que falo melhor. E dos sentimentos que eu não poderia sentir que me abasteço pra ser alguma coisa além do que me faz mais uma. E da incapacidade de ser mais uma que me agarro, pra poder participar de algo e esquecer como é maluco tudo isso. É na alegria extremada que sinto o tamanho do sofrimento que posso aturar.
É a loucura que sai antes quando preciso rapidamente ser normal. É porrada que dou quando a mão vai rápida para um carinho urgente. É de onde não se pode estar que tenho saudades. É para o lugar do qual fugi que vou quando corro. É no lugar insuportável que fico quando descanso de algo que não aguentei. É na falta que vivo. O tempo todo sendo a mulher pra você que nem você quer. O tempo todo sendo a mulher que você não vê mais e só por isso, agora, te vejo o tempo todo. É te amando tão infinitamente que me liberto de gostar pelo menos um pouco de você.
Quando preciso de açúcar sinto ânsia só de ver doce. E na hora de ir embora, ganho o viço e a frescura de algo novo. Não lido bem com a fome, pois ela me sacia, me enche, de algo que me faz além do bicho. É do meu auge que caio feio. Na paz de fechar um arquivo que volto a pensar na página em branco e em tudo que não sou capaz. No fundo do gostosinho da alma mora o que dispara meu incômodo mais terrível. Quando tento ser homem, meu Deus, sou mais garota do que aquelas colegiais cheirando a floral com bola de basquete.
Você reclamava que eu não dizia seu nome e isso era só porque eu o estava dizendo o tempo todo. Meu cérebro martelava o som das suas referências e imprimia tanto você que eu precisava falar de mim daquele jeito pra tentar existir além do que eu me tornava. Você era tudo quando reclamava que eu andava estranha ao telefone, sem dar importância. Quando eu não parecia te ouvir, eu estava ouvindo suas milhares de vozes e tentando dar conta de gostar de tanta gente diferente que era gostar de você. Mas agora, assim, dizendo João, eu consigo continuar. Mas não uso a palavra anular porque seria dar rabisco aberto para as asas que não quero desenhar.
O tempo todo o abismo gigantesco quanto mais desço. O tempo todo a calma mais incrível nos momentos de real desespero. E o pânico do que é simples de resolver. E se não tem ninguém pra chegar é aí que verdadeiramente espero. E se não tem ninguém pra me tocar, sinto tesão em encostar no ar. Você não está e me olha como nunca. Você merecia ser amado assim, do jeito que acaba pra começar. Uma covardia só pra quem aguenta firme. Sempre no oco me preencho tanto que explodo. É no nada que está tudo aqui. E quando me perguntam de onde vem essa pressa, esse desespero, essa corrida, o sopro no coração, essa ânsia, a força, essa agressividade. De onde vem? Eu digo que vem de uma preguiça enorme. E tantas artimanhas e rezas bravas para permanecer? É só o mais completo desejo em acabar logo com tudo isso. Que tanto eu quero porque estou sempre pedindo socorro? Nada. E principalmente: nunca. E morrer de novo como faço todas as vezes que me sinto viva demais. E vai começar tudo de novo só porque acabou. Ponto final é tanta continuação que vira três pontos finais. Eu não aguento mais e nem toquei na vida ainda. Consigo ser vista de verdade só quando as pernas e todo o resto que me move imploram para eu desaparecer."

Tati Bernardi

30 de agosto de 2009

Piano Bar

Essa semana eu percebi que as pessoas não aceitam quem não sorri. Quem não está feliz é uma pessoa desagradável, é chata. Pergunta-se: o você tem? Pelo simples fato de o ser humano ser dotado de curiosidade. Quem está mal diz que não tem nada. Ele finge que não tem nada, o outro finge que acredita. E assim permance esse ciclo de insensibilidade. Estar no meio de uma multidão e não ter ninguém. Sentir-se só. Acho que a gente aprende que não deve esperar nada de ninguém quando pensa que a individualidade é a palavra que melhor define o ser humano. Somos egoístas e queremos que não o sejam conosco. Quando dói, queremos alguém ao lado pra dizer que vai ficar tudo bem... Embora não acreditemos nisso, precisamos. Somos frágeis demais pra enfrentar tudo sozinhos, embora geralmente enfrentemos. Queremos a ilusão de que alguém está ao nosso lado por tudo o que for. Mas quando deitamos, a madrugada traz a cruel realidade: estamos sozinhos, somos nós por nós. Estou aprendendo a ser forte o bastante pra não precisar de alguém ao meu lado. Confesso que é muito difícil. A gente quer alguém pra enxugar nossas lágrimas, alguém pra segurar nossa mão e dizer que não estamos sozinhos. Mas estamos. No fim, estaremos sempre sozinhos. E a solidão é uma condição a qual não nos acostumamos. Solidão lembra dor, lembra fim. Embora não seja o fim, também não é o começo. É o meio, é onde estamos, é onde sempre permaneceremos. Solidão é viver, é estar consigo, é acreditar em si.

28 de agosto de 2009

Minhas palavras já não fazem mais sentido.
Nunca quis que fizessem.
Pensando se a minha vida ainda faz...

22 de agosto de 2009

refrão de bolero

A sinceridade é uma faca de dois gumes. Pode tanto ferir quem é presenteado quanto quem porta a verdade. O peso da sinceridade assusta a maioria dos seres humanos - senão todos, com exceção das crianças, é claro. Ser sincero é se despir de todos os preconceitos e orgulho. É deixar os seus sentimentos à mostra. É estar disposto a se ferir, ou em alguns casos, a ferir alguém. E sinceridade não combina com quem tem medo da verdade. Em verdade, são eternas antíteses. Mesmo sabendo disso ainda há quem a leve consigo. Ainda existe verdade. E como qualquer verdade, machuca.

"... eu fui sincero como não se pode ser,
e um erro assim tão vulgar nos persegue a noite inteira
e quando acaba a bebedeira ele consegue nos achar num bar
com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro
e uma cara embriagada no espelho do banheiro..."


18 de agosto de 2009

"Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.
Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.
Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".
Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."
Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".
Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca."

Martha Medeiros

16 de agosto de 2009

+ -

Estou passando por momentos estranhos, confusos, cheios de medo. Um caos total. Às vezes acho que tenho pessoas ao meu lado, às vezes quero chorar em qualquer lugar para tê-las. No fim, você sempre está sozinho. Alguém pode até segurar sua mão, mas isso não faz a dor menor. O conflito é imenso. Nesse momento não consigo concluir nada. É como se eu voltasse a ser criança e não tivesse noção do perigo. Como se a dor - já que inevitável - fosse ansiosamente aguardada. Não quero ser fraca ao ponto de romper a linha entre amor e ódio. Mas também não quero sofrer não tendo nada disso. Talvez pela sensação de que minha vida está ameaçada a todo instante eu tenha vontade de falar. Falar tudo. Falar eu te amo, eu te odeio, nunca mais quero lhe ver, sinto saudades, saia de perto de mim. Falar, falar e falar. Ser sincera. Em qualquer situação, de qualquer maneira, com quem quer que seja. O problema é que as pessoas não entendem, não aceitam. Geralmente usam nossa fraqueza pra nos machucar. Acho que por orgulho próprio, por vontade de sentir superioridade. Estou parada, perdida e com medo de tomar decisões precipitadas. Mas também com medo de não agir e acabar não tendo nada por isso. Não sei. Não entendo. Não quero. Não mais...

18 de julho de 2009

M E D O

Hora errada, pessoa errada, escolha errada, resultado errado. Alguma coisa nisso tem de dar certo.

12 de julho de 2009

Duas vezes é muito?


It's the biggest storm in years they say.
Couldn't take a plane so I hopped a train
I'd like to stay, in a stormy winters day
so I'll come back to you someday

As the states rolled by
its all so clear
I'm everywhere but never right here
It's always the same
constant change.
But I'll come back to you someday

So close so far
so long the world
spin me away

I drive all night just to see your face
The way you touch the way you taste
Even if only for a day
I'll come back to you someday

I speak the truth its all i know
As your tears fall to the snow
and we both know
That tonight that I can't stay
But I'll come back to you someday

6 de julho de 2009

yesterday

Não tenho idéia por que escrevo aqui. Foda-se. Sabe quando regras - e sejam elas quais forem - te cansam, te entediam?? PORRA! Por que eu não posso escrever frases com pronome oblíquo átono no início? INFERNO! Cansei, sabe? Cansei mesmo desses valores hipócritas, dessa gente que só pensa no próprio umbigo, desses amigos até que a primeira briga nos separe. E cansei mais ainda das tuas mentiras, da tua falsa comiseração, do teu sorriso irônico e sádico. Eu cansei de me importar contigo e ganhar esse grande presente que se chama dúvida. Deus sabe o quanto essas últimas semanas tem acabado comigo... A espera, a ansiedade, o repentino temor de ter minha vida completamente alterada. Eu só consigo ouvir Beatles e pensar em como eu fui tola e inocente ao acreditar em ti mais uma vez. As pessoas não merecem segunda chance. Pra quê? Pra estragar tudo de novo e de uma forma pior e mais dolorosa? Eu não sou qualquer uma, não sou nenhuma vadia perdida pelas ruas... Eu sou só uma otária que acredita nas pessoas e que por mais que repita todos os dias que não vou mais deixá-as falharem comigo ou me importar com o que diabos resolvem fazer, eu minto a mim mesma. É tudo mentira. Eu continuo sendo aquela garotinha boba que sonha, que chora e não dorme por acreditar que existe algo melhor, algo realmente especial esperando por nós. Não existe. É tudo falso, é pura ilusão. Desaparece como um dia entrou em minha vida: sem motivos, sem explicação. Eu cansei tanto que fiquei sem forças pra lutar contra tudo isso. Esqueci como ser feliz sem lembranças perturbando meus pensamentos. Quero que tudo de bom e de ruim por que passamos simplesmente se apague. Sabe aquela história do Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças? É aquilo que no fim todos querem... Uma segunda chance de recomeçar sem o passado atormentando o presente. Eu estou dando um tempo do meu presente pra apagar memórias. Talvez não seja possível, mas eu não consigo mais conviver com a idéia de que não conseguirei te esquecer. Eu peço, do fundo da minha alma que esse inferno acabe. Do contrário, eu sinceramente não sei o que faço. E quando não sei o que fazer, eu geralmente faço tudo errado. Que seja o errado então.

4 de julho de 2009

Afaste-se de mim.

A lágrima que não escorre; o coração que não pára; o tempo que não passa... Eu não sei o que exatamente está acontecendo comigo e com o mundo, mas de uma coisa eu tenho certeza: algo precisa mudar. Esse aperto no peito tem de parar. Posso ser forte, mas não por tanto tempo. Sinceramente eu não faço idéia de como tudo foi se encaixando, formando um quebra-cabeça gigante. Tá doendo. O fato é que eu não sei como fazer parar. Sinto que o chão fica cada vez mais longe, e que em vez de voar eu estou caindo. Não confio mais em ninguém. Eu pareço sentir ódio – e só. Isso me mata a cada dia um pouco mais. Como pode todo o amor que eu sentia pelas pessoas se tornar esse sentimento horrível que me faz sentir pior. Eu sinto nojo, é asco mesmo. Quero distância, mas também quero a tua – e quando eu digo tua, eu quero dizer tuas, nossa, dele... – presença. Quero te esquecer pelo resto da minha vida e só o que vejo é tua cara dissimulada, teu sorriso falso, tuas piadas sem graça, tua grosseria, tua indiferença. Saber que tu me odeias mais que eu a ti – eu juro por tudo nessa vida que é isso que tu faz parecer – me frustra. É amargo o gosto da indiferença, mas o que tu me faz sentir quando finge que não se importa – ou realmente não se importa - é como se eu fosse invisível, mais um número passando por ti, mais um número repetido sendo esquecido. Eu vivo meus dias esperando a nova – e tão velha - chance de poder te odiar mais um pouco. Mostro indiferença, mas tua ausência machuca e tua presença é um golpe de espada que atravessa meu corpo. Não é exagero. Meu estado é quase vegetativo. Pecado falar assim? Não. Eu não estou reclamando da minha vida – não é isso. Eu estou reclamando de como eu consegui deixar minha vida ficar assim. Alguém me diz por quê? Agora que não tenho mais a faculdade pra passar o dia inteiro e voltar pra casa só à noite, exausta e sem forças pra pensar demais, parece que tudo ficou evidente. E sabe o que me mata mais e mais? É não saber por onde começar; é não fazer idéia de como terminar. Preciso terminar e pôr pontos finais em histórias que jamais mereceram reticências. Histórias sem etcéteras, que não acrescentam, só consomem. Eu sou consumida pelas minhas dúvidas, pelas minhas respostas falsas, pelas madrugadas, pela tua voz que me perturba, por todas as lembranças que ainda me trazes. Eu quero um tempo de tudo. Quero confiar novamente, amar. Mas ao mesmo tempo sei que não posso, sei que nunca mereceste – e aqui como em tudo o que falo, és plural. Assim como não tenho a capacidade de finalizar filmes com roteiros confusos, também perdi a habilidade – e vontade – de pôr fim nas palavras. Uso todas soltas, já não ligo pra gramática. Escrevo o que é verdade nesse momento. A propósito, a única verdade em que acredito é o que sinto. Meus pensamentos podem me enganar, mas o que se passa aqui dentro, o que me ergue todos os dias e diz pra eu respirar, é fato, é absoluto. E é de coisas absolutas que eu preciso.

1 de julho de 2009

veja, nada mudou

É incrível como histórias antigas não acabam. Passa o tempo e elas permanecem ali, com a mesma intensidade que começaram, com o mesmo amor, o mesmo ódio. Há fatos na minha vida que me orgulham de ser quem sou, outros nem tanto. Fatos e atos que me tornaram fraca, vulnerável, sensível demais pra um mundo em que bolhas de sabão não podem voar. Não é poético nem melancólico, é só a vida real. Já me senti tão boba por ter sofrido... Sentia-me como uma criança indefesa com medo do escuro. Era como se eu acreditasse que um dia eu iria voar, que as coisas impossíveis fossem só invenção de gente chata e desiludida. Pra mim, tudo o que eu quisesse se realizaria. Não é bem assim. A gente cresce e percebe que nem tudo depende de nós - e pra ser sincera, a maioria das decisões realmente não dependem. As tais impossibilidades se transformaram em realidade assim que eu alterei o modo de enxergá-las. Não espere que as coisas dêem certo se você acredita que não pode. Mas também não espere que elas tornar-se-são reais só porque você as quer assim. O mundo não é tão simples - as pessoas menos ainda. Eu tornei real, tornei possível, tornei palpável. Mas agora me pergunto: realmente valeu à pena??? Valeram as madrugadas insones, os gritos de desespero, as idas e vindas, as brigas, as fugas, o coração apertado??? Eu não consigo responder com um sim ou não. É mais complicado que isso. Eu estou em um momento da minha vida em que nada é concreto, em que não existem respostas. Aflição. Acho que é isso que aperta meu peito, é um gosto amargo.. Mas ao mesmo tempo é doce, é puro. Ainda existe pureza? Parece difícil acreditar, mas parece que sim. Os dias, os meses, os anos passam, e talvez a pureza seja tudo o que tenha restado do que sinto. Isso que resta faz com que eu tenha todos os motivos pra te deixar e não consiga, faz com que eu não consiga pronunciar mais nenhuma palavra na tua frente sem me sentir uma idiota. É um amor que por mais que eu tente esquecer, nunca teve fim. Ele permaneceu quietinho, e volta quando bem entende. Meu coração ainda dispara quando te vejo. És a única pessoa que consegue isso. Mas... Quem és? Eu nunca te conheci de verdade. Eu detesto essa máscara que insistes em usar todos os dias, essas tuas crises, essas tuas atitudes. Odeio quando sei que falas o que não sentes. Eu odeio quanto tu não és tu. Odeio mais ainda que eu não possa te ver usando essas tuas máscaras. Arrancaria todas, sem piedade. Só queria te ver como sei que és. Pra falar a verdade, eu só queria te esquecer...

22 de junho de 2009

20?

Eu tenho vinte anos e me sinto como uma criança de cinco. Às vezes como uma adolescente completamente confusa. Outras como uma velha chata e ranzinza mas com uma considerável bagagem. Eu só não consigo me sentir com vinte anos. Começo a acreditar que a gente nunca tem a idade que tem. É como se nunca estivéssemos preparados para o número de velas que sopramos. É não ter fôlego suficiente pra apagá-las. Não sei se é um refúgio, ou uma forma de nos eximirmos de responsabilidade, mas eu realmente nunca me encaixo em idade alguma. É como se minha alma fosse uma mistura da minha vida inteira, inclusive a que ainda não vivi. Soa confuso e louco, mas quem disse que a vida era pra ser objetiva e normal? Nunca achei que eu fizesse sentido, não seria agora que vinte anos me dariam uma resposta. Eu sou uma pergunta e serei sempre uma contradição. Cansei de contar os anos. Tenho a alegria de uma criança de cinco anos, a curiosidade e confusão de uma adolescente, a história de alguém com setenta anos e todas as dúvidas e incertezas dos vinte. Sou estranha. Sou todas as idades. Sou todas as pessoas do mundo. Sou eu.

24 de maio de 2009

Quem vai pintar as canções que desenho em mim?

Eu preciso falar de amor. E preciso mais ainda falar do fim do que começa tarde demais. Tenho a sutil impressão de que esse sentimento de necessidade só aparece quando não deveria haver mais nada. Quando parece que chegamos ao ponto final, vem ele alterando todo o roteiro, criando infindáveis reticências. É como se tornasse a morte das relações mais difícil. Antes era epílogo, agora é incerteza. E convenhamos: a incerteza gera medo que silencia- e permanece. A presença, antes simples acaso, agora aflige. A ausência que não sentida, agora é digna de um aperto na alma seguido de lágrimas ácidas. Gotas carregadas de raiva e de incompreensão. É a saudade chegando de forma arrebatadora. São sentimentos unidos e contrapostos a cada instante. E toda essa contradição destruindo qualquer resquício de racionalidade e bom senso. Quero mais atitudes lógicas e menos devaneios. Eu só pedi um tempo da solidão e o que ganhei foi mais tempo só. Às vezes me sinto uma peça que não se encaixa em lugar nenhum. Um quebra-cabeças sem solução. E que fica ali num canto. Jogado em um qualquer lugar com as peças se perdendo pelo tempo. Sinto que sou uma gravura em branco e preto, esmaecendo - uma imagem que simplesmente desaparece, uma imagem sem razão de existir. Não quero ser algo assim, mas eu juro, não encontro um jeito de ser. Parece que ainda não achei a maneira correta de conjugar o verbo. Eu estou, nunca pude ser. Estar cansa, estar acaba. E isso tudo por causa do amor. Aquele indigente que me acompanha há anos, que não traz paz, mas impede minhas guerras. Aquele que adia eternamente o fim das lembranças. Aquele amor que jamais termina...

15 de maio de 2009

Labirinto


Uma pausa para mais um devaneio. Um dia desses estava eu lendo um texto sobre hipermidia que parecia mais um belo texto de filosofia. Divagava sobre o labirinto e as várias formas de percorrê-lo. Havia o fio de Ariadne em que a pessoa percorria os caminhos marcando sua passagem com um novelo de lã, algo como João e Maria... Mas apesar de prático e infalível, ele impede com que se percorra o mesmo caminho mais de uma vez. É como conhecer um novo mundo e dar adeus cada vez que encontra uma barreira impedindo a passagem. É uma vida passando e não deixando nada, é um fio de morte se conectando ao fio da vida.
A dança dos gêranos me encantou. Homens e mulheres de mãos dadas, alternados e em fila - um guia em cada ponta permitindo a todos percorrerem qualquer sentido. Ao deparar-se com uma encruzilhada o grupo pode percorrer simultaneamente as duas alternativas. Caso uma delas não tenha saída, o guia grita e avisa ao outro e lá vai o grupo em busca de outra bifurcação.

É maravilhosa a idéia de um labirinto-vida se o compararmos ao nosso cérebro e à maneira como nascem e morrem nossos pensamentos. Eles vêm, voltam, somam, esmaecem... Passamos inúmeras vezes pelo mesmo lugar e paramos quando não há respostas. Ficamos estáticos em uma encruzilhada e temos medo de escolher o caminho. Ter opções pode ser mais cruel que simplesmente seguir uma linearidade eterna. Entre o óbvio e a poesia, geralmente ficamos com o vulgar, o que é banal... Há a dificuldade em aproveitar o mesmo percurso como se fosse sempre a primeira vez. Queremos o novo, repudiamos o que já foi visto e experimentado. Por medo - ou quem sabe, por preguiça - optamos pelo óbvio e perdemos a beleza que havia em cada esquina por qual dançamos, nos segundos que consumimos. Deixamos escapar por entre nossos dedos a vida.
Há infinitos fatos paralelos e simultâneos levando a um mesmo fim. Precisamos escolher o melhor roteiro durante todo o filme, apenas. Se apenas fosse fácil...

14 de maio de 2009

listas...

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

..

Músicas que merecem o meu respeito.

2 de maio de 2009

Já passou, já passou - quem sabe outro dia..


Quero falar sobre pessoas que de alguma forma marcaram a minha vida para sempre. Pessoas que mudaram minhas madrugadas, que modificaram meu modo de enxergar os outros, a forma como eu sentia, que consumiram meus segundos. E que depois partiram. Partiram sem me levar consigo. Partiram porque simplesmente estava na hora de ir embora, de abandonar o que é passado, estava na hora de me deixarem. Elas foram, não sei pra onde, não sei porquê. Por algum motivo necessitaram levar um pedaço de mim junto e deixar um pedacinho delas por aí. Encontrei algumas dessas partes pelo chão, senti e ainda sinto alguns resquícios de alma perto de mim. Eu deveria ficar feliz por tê-las comigo em lembranças, por ter memórias que ainda não se apagaram e que me fazem esboçar aquele sorriso bobo - como Renato Russo diria - parecido com soluço. Mas eu não fico feliz. Eu choro, lamento por não ter mais. Lamento por ser apenas passado. Ainda não domino a arte de aceitar o que acaba, o que se vai. Fico realmente em uma nostalgia eterna e dolorosa. Às vezes preferia não ter. Sei que é cruel me desfazer de lembranças e sentimentos só por egoísmo, só pra não sofrer pelo que não existe mais - ou pelo menos não como existia. No entanto, tenho esse direito. Posso sim arrancar algumas páginas e esquecer. O fato está em não ter coragem. Ainda prefiro sofrer a deixar o amor sucumbir, esvair-se no ar. Eu tenho saudade, eu tenho vontade de você de novo. Eu sei que jamais terei novamente. Em verdade, eu nunca o tive. Você está de um lado, eu de outro.. E nossos corações? Partiram... Ao meio.

22 de abril de 2009

these hard times

Por que você me faz andar sem rumo agora se não existe sentido pra nossa falta de destino?
Por que você me faz andar na contramão e ver em mim pedaços que eu nunca conheci?
O que eu preciso saber pra te ter comigo de novo?
Eu, por exemplo, tatuaria em mim todas as telas do mundo por um sorriso teu... sincero
Por que você me faz correr tanto se uma flor arrancada não sobrevive mais que alguns minutos?
Por que você me faz andar pra trás se o mundo pára e perde a graça quando te vejo assim partindo?
Nem a sede do teu corpo bebendo água em outro nem os teus desejos coloridos me fazem desistir e me calam a boca por um sorriso teu... sincero
Celebração do inútil desejo.

20 de abril de 2009

Meu desejo não mudou o fim.

O problema que alguns tem de pontuar as sentenças é terrível. Não conseguir usar ponto final, mas abusar das reticências estraga qualquer roteiro que tenha a pretensão de sucesso, mesmo que reservado. O mais fácil nem sempre é o fim premeditado. O ser humano gosta de mistérios, gosta da eterna dúvida e quando isso simplesmente esvai, sente-se vazio. O poder da interrogação é imensurável sobre a mente de quem usa a subjetividade como primeira opção. Repentinamente, o que possibilitava um milhão de questionamentos e devaneios, desaparece. Simplesmente desintegra no ar. A incerteza que afligia também confortava. E agora? Ficamos sem. É isso: ficamos sem. Mas sem o quê? Verdadeiramente eu não saberia responder. Fica sem rumo, sem direção, fica sem, sem graça. A motivação, o quebra-cabeças, o labirinto que outrora impusera dúvida não passa de mais uma figura completa e igual a todas as outras. O que era distinto e único virou só mais um número. Algumas pessoas fazem questão de ser apenas algarismos perdidos em meio a outros mais. Confesso que entristeço quando espero demais de alguém e percebo que era só mais um sete, ou um nove, ou quem sabe um zero passando, seguindo e sendo só isso em mais uma parte da minha história. Gosto do que faz diferença. Gosto do mau, do que é ácido, do que machuca mas não deixa de ser. Eu gosto de verdade, e só. Pena, a verdade é tão relativa... Ainda espero encontrar algo além de números, espero além de nomes guardar memórias de alguns momentos realmente únicos com pessoas únicas que vivem por buscarem juntas o sentido dessas verdades. Estou cansada de pessoas falsas que vivem mentiras o tempo todo. Não quero fazer parte de mais um baile de máscaras, pois a minha já perdi há algum tempo.
É tudo tão pessoal por aqui que me sinto a vontade para falar em mim, de mim e pra mim. Soa egoísta, mas eu falo a verdade e isso basta. É de verdade e eu ainda não consigo acreditar. Amanhã talvez. É, você não fica, você não marca.

Eu nunca fiz sentido.


18 de abril de 2009

ela partiu... ao meio

Depois de algum tempo sem tempo para retomar meus pensamentos e pô-los no lugar eu voltei. As semanas foram passando e eu percebi que a chave de tudo continua sendo o tempo.
E vou repetir a palavra quantas vezes mais forem necessárias para que fique evidente e óbvio que nossa vida gira em torno de um relógio. São trezentos e sessenta graus, iguais para todos. A velocidade com que são percorridos e a intensidade com que viram passado é o que define a vida que existiu. Eu tenho medo do meu relógio, os ponteiros parecem girar rápido demais. Vejo uma vida se passando, vejo os anos morrendo e meus sonhos cada vez mais distantes. É como se a maioria deles estivesse próxima aos trezentos e sessenta.. Sinto que os ponteiros não alcançarão os pontos certos enquanto ainda persistir nesses mesmos sonhos. A realidade tem esmagado meus devaneios e isso me deixa frustrada. Fico sem vontade de vida. Não é exagero, não é clichê. Simplesmente há fases em que o ponteiro avança de maneira abrupta, fases em que temos vontade de tirar as pilhas do relógio ou simplesmente quebrá-lo em pedaços.
E toda aquela racionalidade de que falava há algum tempo? Ela vai me deixando vazia... Eu sinto falta de sentir amor, de queimar de ódio, daquela agonia pertinente, daquele friozinho na barriga ao ver ou esperar alguém. Eu definitivamente tenho me sentido vazia dos outros. Talvez tenha me completado apenas de dúvidas, e por isso, não haja mais lugar para ninguém. A auto-suficiência é leviana. Não existe felicidade quando você simplesmente está só. Só de pensamentos, só nos sentimentos que lhe habitam. Preciso sentir de novo, algo que não tenha sentido - é possível ainda? - por alguém que ainda não conheça. Não suporto paixões passadas, elas já não possuem amor, nada digno, nada que eu ainda precise sentir. É tempo de esquecer os graus percorridos. Um ponteiro não volta, não retrocede. E que ótimo que seja assim. Quero saber como fazer para não tentar retornar. Eu vejo um futuro mas não consigo me desprender do que é passado. Esqueci de lhe esquecer. Esqueci de viver. Tenho esquecido quem sou. Já não me reconheço no espelho.
Eu preciso de um tempo de mim.

16 de abril de 2009

metade é amor, a outra, saudade.

(...) e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasse deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velhas trancadas em seus quartos (...) tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me tem alimentado ao longo deste tempo, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim, enquanto meus dentes penetrando nas veias da tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorado sobre isso que sou e penses quem sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, depois puxas a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste. no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui ao teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recompondo sozinho por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda (...) a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem mesmo sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminados por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que o teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter indevassáveis, até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoninhada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças,mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui ...
Caio F. Abreu

27 de março de 2009

hoje eu sei, hoje eu só

E de repente imagina a morte, e sente que não há tanto tempo assim. É o silêncio destruindo as palavras... É tudo ficando vago, é tudo em vão. Um vão imenso, um não saber extremo. Aflige, amedronta. E permanece.

20 de março de 2009

é como um verso popular ...


Cansei de ser humana, cansei do ser humano. Estou farta, exausta das mesmas histórias, dos mesmos fins, dos mesmos meios. Metades, nunca inteiros, nunca o todo. Não me contento com parcelas, não concordo que fracionem sentimentos. Ou é total ou nunca existiu. Não existe parcialidade de amor nem de ódio. A dicotomia prevalece, sempre. E a alternância entre eles também. A racionalidade é escassa. Sem ela nos tornamos tolos, ferimos os outros, tentamos em vão alterar fatos, reprisar o mesmo filme infinitas vezes. A maior frustração é saber que não temos poder algum sobre o tempo, sobre a memória, sobre o que foi e o que jamais será. O filme não nos pertence, somos meros coadjuvantes. Lutamos como cegos, amamos na escuridão. Somos sugados por um buraco negro que vai carregando tudo de real e todo o restante de racionalidade. E como um flash, repentinamente tudo se torna claro, vemos que nossas vidas estão perdidas e nossos rumos completamente alterados. É tarde demais. A razão volta com toda a força do que é verdade, e nos encobre da mais pura e cruel serenidade. Machuca, corrói, e corrompe. Ser humano já não é garantia de salvaguarda, é risco. Estar predisposto a riscos faz de nós, humanos, jogadores em potencial. Como se a vida fosse uma grande partida e estivéssemos lutando pela vitória, pela permanência... Mas ela nunca vem - ou somos derrotados precocemente ou há apenas um empate. A vitória em toda a sua plenitude é utópica, é ilusória e uma projeção irreal. Confesso: eu odeio perder. Ainda que o abandone e prometa não tentar novamente, quero oponentes distintos, quero recomeçar, apenas me recuso a desistir. E eu nunca desisti... A derrota se torna passada, e minha vontade, presente.

8 de março de 2009

algumas variações sobre um tema qualquer

Há um mundo repleto e dominado por teorias, manuais e teses variadas vezes incontestáveis racionalmente. Tudo explicado pelo excesso de exercícios mentais e sua constatação em palavras. A explicação da atitude do ser humano, ali, integralmente decifrada - e por que não codificada apenas aos capazes de compreendê-la - e exposta a quem anseie por respostas diretas e objetivas. Deixar o lado instintivo - e talvez por isso irracional -dentro de uma cápsula invisível hermeticamente encerrada e basear suas atitudes por meio de aforismos dignos de razão, raciocínio lógico e completamente libertos de subjetividade. Pode soar radical ou extremista, mas talvez encontrar respostas às perguntas as quais nunca imaginei existirem faz desse cientificismo todo um excelente caminho. As coisas se tornam mais simplórias, as crises existenciais ínfimas e a dúvida logo é mutacionada à exclamação. Confesso que sentirei falta das reticências e da interrogação - e é óbvio que não as deixarei em sua totalidade - mas começo a me sentir melhor assim, mais livre, embora presa a uma hipótese desenvolvida por um também ser humano. Jamais seremos livres de sentimento, jamais imparciais. A melhor forma de constatação do que será melhor - ou menos perturbador - é a própria vivência. Um dia eu volto para contar o caminho escolhido, ou talvez me perca em um deles e acabe esquecendo de relatar. A vida pode até tentar ser explicada, jamais totalmente compreendida. Nunca desista de questionar. Nunca.

28 de fevereiro de 2009

23 de fevereiro de 2009

a linha que fica


Uma linha cortando o meu quintal. Fina, frágil, delicada, quase imperceptível; e áspera, traiçoeira. Presa, de uma ponta à outra, balouçante e infeliz. O vento carrega folhas, retratos, histórias e o passado. Como um ciclone que passa revirando, misturando e acabando com toda vida que encontra pelo caminho. Entra em você, move as coisas de lugar, modifica o que já tinha seu cantinho pré-estabelecido e vai embora. Vai carregando os restos que ficaram pelo chão, o restos do que você era... A linha a qual costumava seguir, já tortuosa e inquieta clama pela calmaria, mas ela não vem. Agora a tempestade fica mais forte, vem enfim, a chuva. A água que purifica e lava todo o mal acoplado a sua alma. Escorre o ódio, as lamentações, caem as lágrimas. Elas voltam queimando por onde passam, derretendo o que ainda era sólido. Enfim você está só. A linha acalma-se, e mesmo caída, sem forças pra lutar contra o vento, resiste. A tal linha de conduta já não faz mais tanto sentido, já não acompanha meu destino. Simples e banal o ciclo se repete. Tão previsível, tão lamentável. O quintal sujo, repleto de resíduos indesejáveis, então, incomoda. É feio, é sem graça, é démodé. E ninguém mais olha o que não é belo. Pisam, esmagam o que é fora do padrão, destroem o que é verdade. Já não sei se sou linha ou jardim, mas os espinhos e ervas daninhas maltrataram minhas flores. Não sinto mais perfume, não vejo mais cores. Meu quintal perdeu a cor, ficou assim, branco e preto, esquecido, farto de dor.

carnaval e canalhice


Enquanto uns pulam alegres o carnaval, eu escrevo. Eu também me perdi por sorrisos e abraços vazios, plumas e tantos brilhos que ofuscaram o que realmente importa. Mas enquanto tudo continua passando eu ainda penso. Toda aquela dualidade e o que permaneceu por algum mísero tempo estável retornam tomando conta de tudo. De repente, sou mais uma vez um ser humano que pensa por viver e que já deixou - e ainda deixa, embora inconscientemente - de viver pelo simples fato de não resistir a um caos mental. É como um vício que me consome a cada dia, e ao invés de matar, fortalece. O que parece frágil pode sim partir em pedaços, mas ao que envolve e a quem se aproxima, não a si mesmo. Forma-se uma barreira contra o que se repudia, e ao mesmo tempo, faz-se o que não se deve com quem não mereceria. O certo pelo incerto. E eu realmente anseio explanar alguns resquícios do que ainda atormenta. É o primeiro passo para tornar-me livre. Livre desse excesso de pudor, livre de hipocrisia. Talvez o carnaval seja uma forma de ser o que exatamente sou, com ou sem fantasia.

O carnaval é outro, a fantasia um pouco desgastada e já sem brilho, mas a essência permanece. Inquieta, imutável, ainda inocente e sedenta por liberdade. Só aceito o julgamento próprio, o que o baile pensa e canta em alto e bom tom já não interessa, soam como ruídos desagradáveis e acabam entrando em uma frequência inaudível. Surda ao que não merece virar melodia.
E em meio a tantas máscaras eu só quero continuar dançando.

19 de fevereiro de 2009

um hiato

"É uma espécie de compulsão inconsciente. Evita ficar sozinho. Como se a proximidade dos outros pudesse desviar a atenção de si mesmo."

18 de fevereiro de 2009

m o v i m e n t o



Há não mais que algumas noites passadas eu afirmei que estamos em constante movimento. Tudo move, o mundo move, movemos o mundo. Sempre somos movidos para algum lugar, situação ou mesmo à inércia. A teoria do caos - mesmo superficialmente analisada - comprova que pequenos atos contribuem para grandes oscilações. Direta ou indiretamente qualquer decisão tomada afeta o decorrer de tudo. É como se qualquer atitude errônea fosse a condenação sem os recursos para a redenção que lhe seriam direito. Uma reação inevitável e sempre pré-estabelecida, apta como resposta às ações (im)previsíveis do ser humano . Isso costuma me trazer um sentimento de impotência e incapacidade para agir. Penso tanto antes que termino por fazer tudo da pior maneira possível. É o preço que se paga por pensar demais, por ter valores demais. Ao fim, ou me abstenho ou ajo impulsivamente. Sinceramente não sei qual a pior conclusão. Mas o que sempre fica é a culpa. A culpa que ninguém me tira, a culpa contida e atestada. A mesma culpa que amendronta e que fornece toda a coragem necessária para cometer um enorme e novo erro. Antes novo que análogo ao que já foi. Admito: eu quero errar, vaguear, errar, viver e errar de novo. Quero aprender e me despir da inocência quanto ao ser humano que ainda consta intrínseca à minha alma. Quero movimento, impulso, quero aceleração; mas quero parar quando enfim estiver exausta de tantos giros e voltas que o mundo dá. Estou tonta e nauseada, porém confesso, eu ainda não quero (nem posso) cessar.

11 de fevereiro de 2009

everybody's changing

O tempo realmente me instiga. Todo esse emaranhado de aforismos, crônicas e anedotas e nunca há um consenso ou mesmo definição que o justifique. Nesta semana assisti a um filme que ao mesmo tempo que demonstra uma fantasia acaba convergindo para uma realidade dura e cruel que sempre acaba da mesma forma: em morte. Tudo tende a um fim, não importa a ordem cronológica, é inevitável. O curioso caso de Benjamin Button trata basicamente de uma vida que começaria com a quase-morte e terminaria com a quase-vida. Exatamente: não há escapatória, mesmo com o corpo de um bebê, uma alma velha necessita partir. O que se modifica é só a forma, o corpo. O que há lá fora também, mas não faz diferença pra você. Só o que importa é o que mudou aqui dentro. Não gostaria de escrever tantas frases-clichê, todavia, é realmente complicado não falar o que já foi citado sobre relógios, retratos e histórias. Eu só queria expurgar minha decepção com relação ao imutável que nos modifica. O tempo é sempre o mesmo, nós é que passamos e somos obrigados a dizermos adeus. Era só um filme.. Não imaginei que tivesse causado tamanho impacto sobre mim. Repito, não canso de divagar sobre o mesmo tema. Há sempre uma variação, mesmo que quase imperceptível. Nossa mente é uma eterna e falsa aliteração, pois, por mais que sempre emitamos as mesmas palavras os fins sonoros e conceitos jamais permanecem os mesmos.

**
"Para o que vale a pena, nada é muito tarde, ou no meu caso muito cedo – para ser quem você quer ser. Não há tempo limite; você para quando quiser. Você pode mudar, ou ficar igual – não há regras para isso. Nós podemos tirar o melhor ou o pior disso. Eu espero que você tire o melhor. Eu espero que você veja coisas que te deixem sobressaltada. Espero que você sinta coisas que nunca sentiu antes. Eu espero que você conheça pessoas com um ponto de vista diferente do seu. Eu espero que você viva uma vida que se orgulhe. Se você acha que não está acontecendo, eu espero que você tenha a força para recomeçar tudo de novo."
O curioso caso de Benjamin Button


**
"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"
Charles Chaplin


4 de fevereiro de 2009

abismo

Quando lava não seca
É que não vira pedra o que vem de seu vulcão
Rastro que fica, apaga
O que já estava espalhado pelo chão
Seu segundo é mais longo
Cabe nos traços da palma de minha mão
Suas frases de efeito
Que não revelam a verdadeira intenção
Você me jura que não vai prometer
E promete que não vai jurar o que sabe que não pode ser
Antes de ir embora
De sair pra rua
De tirar qualquer conclusão
Mesmo que demore e ninguém nos salve
Heróis nascem em overdose na televisão
Nada perto da arrebentação
Nada perto de mim se afogando no próprio veneno
E não é que o mundo é mesmo pequeno
Passos em falso na beira do abismo que há entre nós
E a impressão que fica
É da solidão é tão menor...

27 de janeiro de 2009

não desista de quem desistiu..

Hoje eu vou falar sobre o ser incontrolável e contraditório que habita este corpo. Talvez seja um pouco redundante, talvez extremamente paradoxal, mas eu realmente não me importo. O texto de hoje é de mim para mim. De alguém que sofreu demais por algo irreal e que deixou de sofrer pelo que existia de concreto. Alguém que costuma valorizar o intocável, a brisa que sopra, o sol que se põe, os sonhos. A paixão pelos sonhos, - geralmente tão pequenos, esporadicamente gigantes, maiores que eu mesma - pelo passado, pelo que já foi vivido e pela maioria esquecido. Detalhes que simplesmente passaram despercebidos, sons que silenciaram, letras que se perderam, amores que foram e de repente voltaram rasgando, exterminando o que de bom ainda existia. Eu sou o que sobrou. Sobrei e te amei. Já amei vários alguns e alguéns. Algo sempre fica, o mais importante sempre é abandonado, atirado ao precipício, o mesmo do qual uma noite eu resolvi pular. A queda é imprevisível, o que há no final permanece uma incógnita. Eu nunca cheguei ao desfecho. De alguma forma acredito que alguns fatos, apesar de finitos, ainda precisem de tempo. Tempo pra acontecerem, tempo pra se perderem, tempo pra virarem história. O tempo que nunca me perdoou. O mesmo que me mata a cada dia, aquele que insiste em acelerar quando deveria reduzir a velocidade e que se torna infinito de repente, ilimitado de lembranças. Ah! As lembranças... Com tantas já misturei algumas, desfiz-me das que já não faziam sentido e guardo comigo as que dão significado ao agora.
Eu odeio ingratidão, odeio falsidade, odeio egocentrismo. Odeio o fato de não conseguir odiar pessoas assim. Acho que a psicologia reversa é realmente verdadeira. Porventura, eu ame o que deveria desprezar, ignore o que por lógica seria meu foco. E perdoo. Perdoo sempre mesmo sabendo que é praticamente uma droga que quanto mais distribuída, mais vicia as pessoas nos erros e no cruel ato de cometê-los. Possivelmente um dia eu desista de extender a mão. Porém, eu continuo me arriscando, permaneço tentando segurar pessoas que não poupariam me levar ao fundo do poço para se salvarem dos seus temores. É evidente, e mesmo assim, não declinaria jamais um grito de desespero. Um dia eu aprendo a ser assim comigo. Preciso ser minha pior crítica e minha maior esperança. Eu sou o único ser humano completamente sincero com meus próprios atos. Eu sei quando peco, sei o que estou fazendo e que tudo o que acontece hoje a minha volta, de certa forma, foi provocado por mim. Eu fiz o meu mundo, preciso observá-lo e cuidar para que não pare de girar. Sou a culpa e a inocência. Sou tudo o que nem sei.
Assim eu vou, divagando, decifrando enigmas, traduzindo o que sinto em frágeis e limitadas palavras. Vou me tornando. Vou existindo.