28 de fevereiro de 2009

23 de fevereiro de 2009

a linha que fica


Uma linha cortando o meu quintal. Fina, frágil, delicada, quase imperceptível; e áspera, traiçoeira. Presa, de uma ponta à outra, balouçante e infeliz. O vento carrega folhas, retratos, histórias e o passado. Como um ciclone que passa revirando, misturando e acabando com toda vida que encontra pelo caminho. Entra em você, move as coisas de lugar, modifica o que já tinha seu cantinho pré-estabelecido e vai embora. Vai carregando os restos que ficaram pelo chão, o restos do que você era... A linha a qual costumava seguir, já tortuosa e inquieta clama pela calmaria, mas ela não vem. Agora a tempestade fica mais forte, vem enfim, a chuva. A água que purifica e lava todo o mal acoplado a sua alma. Escorre o ódio, as lamentações, caem as lágrimas. Elas voltam queimando por onde passam, derretendo o que ainda era sólido. Enfim você está só. A linha acalma-se, e mesmo caída, sem forças pra lutar contra o vento, resiste. A tal linha de conduta já não faz mais tanto sentido, já não acompanha meu destino. Simples e banal o ciclo se repete. Tão previsível, tão lamentável. O quintal sujo, repleto de resíduos indesejáveis, então, incomoda. É feio, é sem graça, é démodé. E ninguém mais olha o que não é belo. Pisam, esmagam o que é fora do padrão, destroem o que é verdade. Já não sei se sou linha ou jardim, mas os espinhos e ervas daninhas maltrataram minhas flores. Não sinto mais perfume, não vejo mais cores. Meu quintal perdeu a cor, ficou assim, branco e preto, esquecido, farto de dor.

carnaval e canalhice


Enquanto uns pulam alegres o carnaval, eu escrevo. Eu também me perdi por sorrisos e abraços vazios, plumas e tantos brilhos que ofuscaram o que realmente importa. Mas enquanto tudo continua passando eu ainda penso. Toda aquela dualidade e o que permaneceu por algum mísero tempo estável retornam tomando conta de tudo. De repente, sou mais uma vez um ser humano que pensa por viver e que já deixou - e ainda deixa, embora inconscientemente - de viver pelo simples fato de não resistir a um caos mental. É como um vício que me consome a cada dia, e ao invés de matar, fortalece. O que parece frágil pode sim partir em pedaços, mas ao que envolve e a quem se aproxima, não a si mesmo. Forma-se uma barreira contra o que se repudia, e ao mesmo tempo, faz-se o que não se deve com quem não mereceria. O certo pelo incerto. E eu realmente anseio explanar alguns resquícios do que ainda atormenta. É o primeiro passo para tornar-me livre. Livre desse excesso de pudor, livre de hipocrisia. Talvez o carnaval seja uma forma de ser o que exatamente sou, com ou sem fantasia.

O carnaval é outro, a fantasia um pouco desgastada e já sem brilho, mas a essência permanece. Inquieta, imutável, ainda inocente e sedenta por liberdade. Só aceito o julgamento próprio, o que o baile pensa e canta em alto e bom tom já não interessa, soam como ruídos desagradáveis e acabam entrando em uma frequência inaudível. Surda ao que não merece virar melodia.
E em meio a tantas máscaras eu só quero continuar dançando.

19 de fevereiro de 2009

um hiato

"É uma espécie de compulsão inconsciente. Evita ficar sozinho. Como se a proximidade dos outros pudesse desviar a atenção de si mesmo."

18 de fevereiro de 2009

m o v i m e n t o



Há não mais que algumas noites passadas eu afirmei que estamos em constante movimento. Tudo move, o mundo move, movemos o mundo. Sempre somos movidos para algum lugar, situação ou mesmo à inércia. A teoria do caos - mesmo superficialmente analisada - comprova que pequenos atos contribuem para grandes oscilações. Direta ou indiretamente qualquer decisão tomada afeta o decorrer de tudo. É como se qualquer atitude errônea fosse a condenação sem os recursos para a redenção que lhe seriam direito. Uma reação inevitável e sempre pré-estabelecida, apta como resposta às ações (im)previsíveis do ser humano . Isso costuma me trazer um sentimento de impotência e incapacidade para agir. Penso tanto antes que termino por fazer tudo da pior maneira possível. É o preço que se paga por pensar demais, por ter valores demais. Ao fim, ou me abstenho ou ajo impulsivamente. Sinceramente não sei qual a pior conclusão. Mas o que sempre fica é a culpa. A culpa que ninguém me tira, a culpa contida e atestada. A mesma culpa que amendronta e que fornece toda a coragem necessária para cometer um enorme e novo erro. Antes novo que análogo ao que já foi. Admito: eu quero errar, vaguear, errar, viver e errar de novo. Quero aprender e me despir da inocência quanto ao ser humano que ainda consta intrínseca à minha alma. Quero movimento, impulso, quero aceleração; mas quero parar quando enfim estiver exausta de tantos giros e voltas que o mundo dá. Estou tonta e nauseada, porém confesso, eu ainda não quero (nem posso) cessar.

11 de fevereiro de 2009

everybody's changing

O tempo realmente me instiga. Todo esse emaranhado de aforismos, crônicas e anedotas e nunca há um consenso ou mesmo definição que o justifique. Nesta semana assisti a um filme que ao mesmo tempo que demonstra uma fantasia acaba convergindo para uma realidade dura e cruel que sempre acaba da mesma forma: em morte. Tudo tende a um fim, não importa a ordem cronológica, é inevitável. O curioso caso de Benjamin Button trata basicamente de uma vida que começaria com a quase-morte e terminaria com a quase-vida. Exatamente: não há escapatória, mesmo com o corpo de um bebê, uma alma velha necessita partir. O que se modifica é só a forma, o corpo. O que há lá fora também, mas não faz diferença pra você. Só o que importa é o que mudou aqui dentro. Não gostaria de escrever tantas frases-clichê, todavia, é realmente complicado não falar o que já foi citado sobre relógios, retratos e histórias. Eu só queria expurgar minha decepção com relação ao imutável que nos modifica. O tempo é sempre o mesmo, nós é que passamos e somos obrigados a dizermos adeus. Era só um filme.. Não imaginei que tivesse causado tamanho impacto sobre mim. Repito, não canso de divagar sobre o mesmo tema. Há sempre uma variação, mesmo que quase imperceptível. Nossa mente é uma eterna e falsa aliteração, pois, por mais que sempre emitamos as mesmas palavras os fins sonoros e conceitos jamais permanecem os mesmos.

**
"Para o que vale a pena, nada é muito tarde, ou no meu caso muito cedo – para ser quem você quer ser. Não há tempo limite; você para quando quiser. Você pode mudar, ou ficar igual – não há regras para isso. Nós podemos tirar o melhor ou o pior disso. Eu espero que você tire o melhor. Eu espero que você veja coisas que te deixem sobressaltada. Espero que você sinta coisas que nunca sentiu antes. Eu espero que você conheça pessoas com um ponto de vista diferente do seu. Eu espero que você viva uma vida que se orgulhe. Se você acha que não está acontecendo, eu espero que você tenha a força para recomeçar tudo de novo."
O curioso caso de Benjamin Button


**
"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"
Charles Chaplin


4 de fevereiro de 2009

abismo

Quando lava não seca
É que não vira pedra o que vem de seu vulcão
Rastro que fica, apaga
O que já estava espalhado pelo chão
Seu segundo é mais longo
Cabe nos traços da palma de minha mão
Suas frases de efeito
Que não revelam a verdadeira intenção
Você me jura que não vai prometer
E promete que não vai jurar o que sabe que não pode ser
Antes de ir embora
De sair pra rua
De tirar qualquer conclusão
Mesmo que demore e ninguém nos salve
Heróis nascem em overdose na televisão
Nada perto da arrebentação
Nada perto de mim se afogando no próprio veneno
E não é que o mundo é mesmo pequeno
Passos em falso na beira do abismo que há entre nós
E a impressão que fica
É da solidão é tão menor...