22 de abril de 2009

these hard times

Por que você me faz andar sem rumo agora se não existe sentido pra nossa falta de destino?
Por que você me faz andar na contramão e ver em mim pedaços que eu nunca conheci?
O que eu preciso saber pra te ter comigo de novo?
Eu, por exemplo, tatuaria em mim todas as telas do mundo por um sorriso teu... sincero
Por que você me faz correr tanto se uma flor arrancada não sobrevive mais que alguns minutos?
Por que você me faz andar pra trás se o mundo pára e perde a graça quando te vejo assim partindo?
Nem a sede do teu corpo bebendo água em outro nem os teus desejos coloridos me fazem desistir e me calam a boca por um sorriso teu... sincero
Celebração do inútil desejo.

20 de abril de 2009

Meu desejo não mudou o fim.

O problema que alguns tem de pontuar as sentenças é terrível. Não conseguir usar ponto final, mas abusar das reticências estraga qualquer roteiro que tenha a pretensão de sucesso, mesmo que reservado. O mais fácil nem sempre é o fim premeditado. O ser humano gosta de mistérios, gosta da eterna dúvida e quando isso simplesmente esvai, sente-se vazio. O poder da interrogação é imensurável sobre a mente de quem usa a subjetividade como primeira opção. Repentinamente, o que possibilitava um milhão de questionamentos e devaneios, desaparece. Simplesmente desintegra no ar. A incerteza que afligia também confortava. E agora? Ficamos sem. É isso: ficamos sem. Mas sem o quê? Verdadeiramente eu não saberia responder. Fica sem rumo, sem direção, fica sem, sem graça. A motivação, o quebra-cabeças, o labirinto que outrora impusera dúvida não passa de mais uma figura completa e igual a todas as outras. O que era distinto e único virou só mais um número. Algumas pessoas fazem questão de ser apenas algarismos perdidos em meio a outros mais. Confesso que entristeço quando espero demais de alguém e percebo que era só mais um sete, ou um nove, ou quem sabe um zero passando, seguindo e sendo só isso em mais uma parte da minha história. Gosto do que faz diferença. Gosto do mau, do que é ácido, do que machuca mas não deixa de ser. Eu gosto de verdade, e só. Pena, a verdade é tão relativa... Ainda espero encontrar algo além de números, espero além de nomes guardar memórias de alguns momentos realmente únicos com pessoas únicas que vivem por buscarem juntas o sentido dessas verdades. Estou cansada de pessoas falsas que vivem mentiras o tempo todo. Não quero fazer parte de mais um baile de máscaras, pois a minha já perdi há algum tempo.
É tudo tão pessoal por aqui que me sinto a vontade para falar em mim, de mim e pra mim. Soa egoísta, mas eu falo a verdade e isso basta. É de verdade e eu ainda não consigo acreditar. Amanhã talvez. É, você não fica, você não marca.

Eu nunca fiz sentido.


18 de abril de 2009

ela partiu... ao meio

Depois de algum tempo sem tempo para retomar meus pensamentos e pô-los no lugar eu voltei. As semanas foram passando e eu percebi que a chave de tudo continua sendo o tempo.
E vou repetir a palavra quantas vezes mais forem necessárias para que fique evidente e óbvio que nossa vida gira em torno de um relógio. São trezentos e sessenta graus, iguais para todos. A velocidade com que são percorridos e a intensidade com que viram passado é o que define a vida que existiu. Eu tenho medo do meu relógio, os ponteiros parecem girar rápido demais. Vejo uma vida se passando, vejo os anos morrendo e meus sonhos cada vez mais distantes. É como se a maioria deles estivesse próxima aos trezentos e sessenta.. Sinto que os ponteiros não alcançarão os pontos certos enquanto ainda persistir nesses mesmos sonhos. A realidade tem esmagado meus devaneios e isso me deixa frustrada. Fico sem vontade de vida. Não é exagero, não é clichê. Simplesmente há fases em que o ponteiro avança de maneira abrupta, fases em que temos vontade de tirar as pilhas do relógio ou simplesmente quebrá-lo em pedaços.
E toda aquela racionalidade de que falava há algum tempo? Ela vai me deixando vazia... Eu sinto falta de sentir amor, de queimar de ódio, daquela agonia pertinente, daquele friozinho na barriga ao ver ou esperar alguém. Eu definitivamente tenho me sentido vazia dos outros. Talvez tenha me completado apenas de dúvidas, e por isso, não haja mais lugar para ninguém. A auto-suficiência é leviana. Não existe felicidade quando você simplesmente está só. Só de pensamentos, só nos sentimentos que lhe habitam. Preciso sentir de novo, algo que não tenha sentido - é possível ainda? - por alguém que ainda não conheça. Não suporto paixões passadas, elas já não possuem amor, nada digno, nada que eu ainda precise sentir. É tempo de esquecer os graus percorridos. Um ponteiro não volta, não retrocede. E que ótimo que seja assim. Quero saber como fazer para não tentar retornar. Eu vejo um futuro mas não consigo me desprender do que é passado. Esqueci de lhe esquecer. Esqueci de viver. Tenho esquecido quem sou. Já não me reconheço no espelho.
Eu preciso de um tempo de mim.

16 de abril de 2009

metade é amor, a outra, saudade.

(...) e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasse deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno, veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velhas trancadas em seus quartos (...) tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me tem alimentado ao longo deste tempo, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim, enquanto meus dentes penetrando nas veias da tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorado sobre isso que sou e penses quem sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, depois puxas a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste. no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui ao teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recompondo sozinho por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda (...) a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem mesmo sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminados por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que o teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter indevassáveis, até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoninhada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças,mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui ...
Caio F. Abreu