27 de outubro de 2009

Éramos sós

Hoje tirei o dia para observar. Prestar atenção na peculiaridade das pessoas que passavam por mim. Certo. Não fui tão feliz na empreitada quanto achei que seria. A cada pessoa que eu decidia observar, eu esquecia de outra. Eu queria enxergar tudo de todas ao mesmo tempo. Queria entender por que elas eram assim naquele instante. Por que eu era o que era? Achava que através dos outros eu poderia me enxergar melhor. Não encontrei nada. Havia uma mulher que cambaleava, esquerda-direita, já sem forças, não sei se era a cachaça ou a velhice. Não senti pena. Continuando pela mesma rua encontrei uma criança. Minto. Ela me encontrou. Veio correndo em minha direção (imagino que tenha sido) e abraçou minhas pernas, como se precisasse de segurança, como se fosse do meu tamanho. Mas eu não vi se correu, se estava com medo ou simplesmente quis fazer gracinha. Nesse instante eu observava um pombo comendo restos de um calzone deixado pela metade. Pensei no porquê aquele calzone estava ali, nem inteiro, nem metade. Era resto. E a criança me olhou como quem se decepciona e seguiu seu caminho. Eu esqueci de esboçar um sorriso. Fiquei pensando em como pombos são nojentos, em como calzones são nojentos. Fiquei lembrando dos restos que deixei por aí. Restos de vida, restos de sonho, restos de lembrança. Cansada de andar, parei. Sentei em um degrauzinho qualquer, em uma esquina qualquer. Eu era qualquer uma, mais uma, outra. Decidi não observar mais nada. Foi então que me deparei com um velhinho, uns setenta anos com cara de cem. Mão no queixo, olhos aflitos. Ele chorava. Meu dia acabou ali. Ele chorava por sentir-se só. Chorava porque não sentei ao lado dele, esqueci de enxergá-lo. Ele não era nada, eu era só mais uma. No meio de toda aquela gente, indo, voltanto, correndo, gente desesperada, gente apaixonada, gente esquecida, éramos sós. Estávamos em companhia da solidão. Éramos companheiros, éramos só dois.

25 de outubro de 2009

Mais uma vez

Hoje talvez eu tenha encontrado algumas respostas bem importantes, mas que não vão mudar a minha vida, porque eu sei que não irei mudar. A minha dificuldade em seguir em frente se baseia principalmente na dificuldade em desatar os nós.

Primeiro: eu não consigo odiar ninguém.
Segundo: não odiando ninguém eu também não consigo esquecer.
Terceiro: se não esqueço de alguém, renego-me a deixar outra pessoa entrar.

No fim é sempre igual. Os seres humanos consideram isso fraqueza, e como tal, é geralmente utilizada pra fazer mal. É uma arma certeira. E dói. Pensei então em alguma solução para ao menos amenizar, deixar o ferimento menor. O segredo é fingir que não perdoei. Sim, porque eu sou capaz de perdoar atos que condenariam qualquer ser humano ao limbo das relações sociais e sentimentais. Não, eu não sou tão boa assim, nem tão santa. Eu simplesmente tenho facilidade em conjugar o verbo perdoar, ou sou masoquista. De qualquer forma, perdoar não significa ter de esquecer e me submeter a tudo outra vez. Vou seguir tentando, e talvez assim, minha tendência ao erro diminua um pouco e minha vida possa finalmente fluir. Quero um dia poder estar livre de fantasmas do passado.

"O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão."


21 de outubro de 2009

Algum devaneio


Ela quer que ele esteja lá, quer sua presença.
Quer passar e fingir indiferença, quer ausência.
Ela exala ódio, mas morre de amor.


11 de outubro de 2009

Mesmo sem

Continuo respirando mesmo sem. Sem esperança, sem tua presença aqui. Toda essa dor que tua ausência provoca é o que me faz te amar cada dia mais. Teu olhar de desprezo e culpa ferem minha alma como ácido forte. Cada instante que passa, te tenho passando em minha mente, passando e me deixando pra trás da tua vida. Eu sou o que se foi, passado, sou cena gravada em uma película qualquer e esquecida. Sou um filme que saiu de cartaz, cena repetida que o mundo cansou de assistir. Pra ti, talvez eu não seja mais que um sorriso qualquer, uma piada sem graça, uma foto em preto e branco. Mas saiba, ainda és o que me faz forte, mesmo que me enfraqueças. Suportar a solidão de não ter me dá o suporte que preciso pra resistir a tua indiferença quando estás perto. És o que me faz feliz, mesmo que arranques tantas lágrimas de mim, como se fossem nada. Elas se acumularam e viraram antídoto, remédio contra o teu riso falso e forçado, contra tua arrogância e mania de me subestimar. “És parte ainda do que me faz forte, e, pra ser honesto, só um pouquinho infeliz”.