19 de dezembro de 2010

Enfim dezembro



Enfim dezembro anuncia o fim do velho e o início do que é novo. É o olhar pra trás e a vontade de passado, mas de futuro também. É o divisor de águas: o fim de um ciclo e o início de outro. É um amor que acaba, e outro que começa. É o que terminou e tem uma nova chance de existir. É o paradoxo eterno, a linha tênue entre amor e ódio. Entre o que foi e o que será. Entre você e seu passado. Entre a luz e a escuridão. Entre o vazio e a alma. Enfim dezembro é assim, uma viagem entre os abismos e o adeus. Entre o perecível e o eterno. É o tempo que passa apressado enquanto a gente tenta encontrar um sentido. São os estilhaços da alma perdidos por aí. As dúvidas, os medos. É um álbum que fala de amor.

Entre teus dedos lembra o amor mais puro que conhecemos durante toda a vida: o de mãe e filho. É o tocar de dedos após o parto, é a luz da sala cirúrgica, são os raios de sol anunciando uma nova vida. É o eterno lar: o coração de mãe. É o porto seguro, é o maior amor do mundo. É pra onde a gente corre quando tem medo, é o que a gente tem mais medo de perder.

Além de mim fala do perder. Perder alguém, perder-se de si mesmo. Fala do esquecer, do fim. O final que nunca vem, as reticências eternas. É o amor que nunca morre, é o tentar enganar-se. “Era só apenas um grande amor” é a tentativa de fingir que dá pra seguir a vida sem um pedaço da alma. É de novo a luta entre o lembrar e o esquecer. Um relacionamento que morreu, mas um amor indestrutível. É tentar encontrar outra pessoa igual e nunca conseguir. É a busca pelos pontos finais, é o encontro com as vírgulas. É o tempo passando, o amor permanecendo, a esperança se esvaindo e a certeza de sempre estar lá quando uma parte da sua alma voltar. Se voltar...

A briga novamente entre o que se quer e o que se pode ter. Duas vezes dá a sensação de que só quem é louco ama de verdade. E questiona incessantemente: “quantas vezes você amou alguém com todo o seu coração?”. É uma provocação. Vale amar e ser louco? Vale continuar amando com o coração despedaçado? É possível evitar o amor? É o questionamento que permeia a vida de qualquer ser humano. O amor acontece mais de uma vez? Eu já amei? Duas vezes é a dúvida.

Sem você carrega uma mágoa. Um peso, a tentativa de enfrentar um temporal e a falha. Algo que acabou, mas não teve fim. Ficou pela metade. A revolta. Mas é também a conformação. A certeza de que foi único, de que seguir em frente sem aquele alguém é apenas remar contra a corrente. É respirar e esquecer como era suspirar pela vida. É o vazio escuro, o vácuo, a lágrima caída. São as tentativas e as derrotas.

Quando a chuva cai anuncia mais uma vez o fim. O fim sem o desfecho. O que ficou pela metade, a chuva que permanece trazendo lembranças. O silêncio ensurdecedor. As lágrimas que se confundem com as gotas da chuva. É a chuva que sempre vai cair, o amor que sempre vai existir, o fim. O sol que desaparece quando as nuvens se formam, é a loucura permitida, a insensatez. O medo do mesmo. O ciclo da vida. O fim da canção.

Nós. A clássica declaração de amor. Alguns acordes simples, o amor cru. A distância que faz esquecer, as imagens do passado, as velhas memórias, a nostalgia. A simplicidade do amor. As simplicidades da vida. A vontade de passado, a amnésia do presente. Quando dois eram um só. Quando um nome ao lado do outro era tudo.

Outra vez o amor. Porque ninguém cansa de tentar amar. As desculpas que não foram aceitas, o não se conformar. A autosabotagem de um relacionamento. A vontade insuportável de pôr pontos finais antes da hora. O amor se foi de novo. O coração permaneceu. Destroçado. Pronto pra amar mais uma vez.

A primavera que termina e o verão que chega. O ciclo de novo, a síntese do álbum. Dezembro fala do ano que passou de novo rápido demais. Da falta de tempo para as coisas simples. Do tempo que a gente perde tentando ser feliz, quando a felicidade tá aí, estampada todos os dias diante dos nossos olhos. A urgência que nos tira os momentos mais bonitos, das histórias mais banais. A perda de importância do ouvir. Fala também da necessidade de se estar com pessoas diferentes. De ser diferente, da física, do polo oposto que se atrai. Da balança do amor e do ódio. A diferença que une, a busca e a exigência da felicidade. Do direito que temos de chorar e de doer. De não estar sempre bem e ter de fingir. Dos sorrisos de plástico.

Quase. O que quase deu certo, o quase relacionamento, a quase felicidade, o quase sempre, o quase amor. O quase fim. A imperfeição do ser humano diante do amor. A partida, o até mais que se transformou no adeus. Ainda no primeiro minuto da canção, uma pausa. O silêncio. Como se a música terminasse ali. Como se o amor tivesse enfim acabado. Mas apenas quase. A canção continua. Inabalável. É o medo de perder, o medo novamente do final. É o céu cinzento, a solidão insuportável. É não se acostumar com o que quase deu certo. É não querer nem aceitar quases. É quase enlouquecer, quase desesperar, quase desistir. É a certeza de que o outro também não aceitou. É a espera eterna de quases e metades, e a certeza de que um dia será inteiro.

Ouvir A cura é ouvir uma súplica. É o desabafo, o pedido de ajuda, a carta de despedida. São todos os arrependimentos, a raiva do que se ama, as palavras duras de alguém que ama e que perdeu o sentido da vida. Os vícios. Alguém que olha pra trás e se culpa, que olha para o outro lado e vê um sorriso falso que ostenta o que não sente. O solo de guitarra melancólico é pra ser ouvido de olhos fechados, sozinho. A cura novamente é o fim. Um aqui, o outro lá. A separação é enfim, o adeus à dor. É o erro inevitável.

Ventura. O dicionário também se contradiz, ou se completa. Depende de como você vê. Ele define a palavra como destino, acaso. Mas também é risco, perigo. É o sonho tentando ser real. É alguém que ainda sonha. Que ainda tenta, que ainda acredita no amor. Mas que acorda e percebe que a vida real não espera. Que quem verdadeiramente ama está condenado a sofrer eternamente. A sofrer de amor.

Confiança traz paz. Mas também fala de fim e de meios. De quem não acredita, nos olhos abertos quando deveriam estar fechados. É o enxergar o que não existe e esquecer que as coisas mais bonitas são apenas sentidas, de olhos fechados. É o amor que morre junto com o fim da confiança.

Tão bem é o sussurro ao pé do ouvido. É a voz de choro, voz de fim. É a vontade de gritar e o medo de ouvirem. É não suportar ficar em silêncio, é não suportar fins. É a desculpa. É a voz baixinha de alguém que tenta falar e não ser ouvido. É a tentativa de cantar sem se ouvir. É a canção que mais se aproxima do silêncio. Ensurdecedora. É a dor que dói diferente em cada um, o querer bem ao que já não se tem. A doçura que ainda existe. A declaração de amor.


19 de novembro de 2010

frases banais das quais já me arrependi..


De vez em quando dá uma vontade de ter nascido de outro jeito que quase entro em crise existencial. Cansa ser assim, carente de tudo, orgulhosa demais, apegada ao passado e morta de medo do que vem por aí. Não vou chamar de covardia, mas a possibilidade de tornar as coisas sérias demais me apavora. Eu corro de qualquer tipo de relacionamento estável, mesmice, sono regulado, qualquer coisa que siga uma linearidade espanta minha alma. Eu sou capaz de pegar uma linha de ônibus diferente só pra causar um rompimento da rotina. Eu posso gostar de alguém, amar enlouquecidamente, mas só de pensar em um compromisso, no almoçar juntos todo dia, no cinema todos os domingos, no carinho a toda instante, desisto. Não levanto uma bandeira branca, não dou adeus, não sou tão clara ao ponto de acabar tudo. Eu desisto de nós sozinha. E quando um não suporta a ideia de estar junto, o amor vai morrendo, dos dois. Acho tão bonitinhos aqueles casais deitados no sofá comendo bolacha e tomando algum suco colorido, uns cafunés e uns papos transcedentais sobre a vida, a morte, o amor. Mas eu nunca me vi lá. Eu nunca me enxerguei na varanda da casa com cercas brancas, tomando um chá de maçã balançando na rede e esperando o príncipe encantado chegar galopando seu lindo cavalo branco. E o cachorro, um Golden Retriever, peludo, brilhando no sol, amigão, daqueles cachorros que a gente lembra por toda a vida. Eu não consigo me imaginar vivendo uma felicidade tão bonita. Eu não nasci pra estrelar filmes românticos e lindas histórias de amor. As minhas sempre doeram, do início ao fim. Ou fiz questão que não doessem abandonando o barco antes mesmo de ele partir. Por medo da ressaca eu me afasto e passo a garrafa de vinho pra qualquer uma que aceite uma aliança na mão e na alma. Aquela sim vai ser feliz pra sempre. Eu vivo pra mostrar aos outros o quanto pode ser bom, mas saio da história antes que me leiam por completo. Aí vem alguém e termina tudo por mim. De tantas vírgulas deixadas por aí, sobraram apenas casos desconexos e sem ponto final. Sou assim, reticências sem rumo, sem dono.

Se você ouvisse
Às vozes que ouço à noite
Às vezes me assustam
Outras vezes me atraem

28 de outubro de 2010

rosie and me

Ignore o amor e ele vai te ignorar. Feche a porta na cara da felicidade e, veja só, ela vai embora sem dar adeus. A vida não quer saber se tu tens medo dela, ela acontece de qualquer jeito. É o teu tempo passando, és tu passando o tempo com os outros. Nos últimos meses tenho escolhido bem com quem quero gastar minhas risadas, meu mau humor matinal, minhas palavras de carinho, meu bom dia. Uma espécie de filtro que não deixa passar algumas impurezas, que não são de todo más, apenas não me permitem usar toda a minha capacidade de respiração. Eu sempre gostei muito de estar entre pessoas, gente, multidão, barulho. Mas confesso: tenho preferido duetos. E essa coisa de solidão não me satisfaz mais. No fundo, dá um medo tentar cantar uma música assim, tão sós. Parece que qualquer nota musical que a gente erre vai soar como um violino completamente desafinado. Mas eu gosto da melodia que a gente faz. E gosto mais ainda de não ter chegado ao refrão. Ainda. Gosto de escrever a letra devagar, sem pressa, sem o compromisso dos ajustes finais, porque no fim, é só o início. E eu sempre gostei do que ainda é metade.

13 de outubro de 2010

Ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez

Deixa fluir, vai navegando e mudando a direção conforme o vento. Eu até sei o caminho, só fico indecisa na hora de escolher qual deles não tem precipício. É uma tormenta ter amado tão cedo. De alguma forma eu sinto aqui dentro que nunca mais vou conseguir fluir. Deixar as coisas acontecerem, pular no escuro da piscina. Mesmo que eu esteja de colete salva-vidas, mesmo que com tubos de oxigênio infindáveis e o telefone do socorro mais próximo, o amor não é mais algo simples pra mim. Relacionamentos tornaram-se enigmas. Eu tento decifrar cada um. Milímetro por milímetro. Olhar, suspiros, negações e ausências. Eu quero encontrar sentido e, o pior, defeito em tudo. Estou sempre procurando um motivo pra fechar a portinha que dá direto no ponto fraco do meu coração. Eu cerquei minha alma com arame farpado. Algum dispositivo em mim não me permite mais gostar de alguém ao ponto de parar de racionalizar, de virar idiota, de agir como quem gosta, de não fazer sentido. O que busco agora são explicações para as coincidências e razões para apertar o botão de desistência. Uso qualquer motivo contra minha felicidade. Abuso dos recursos pra matar qualquer tentativa de amor, ou de paixão, ou de carinho. Insisto em um ódio irreal para afastar o que é bom pra mim. E eu não sei como farei um dia essa autosabotagem parar, esse extermínio de uma possível felicidade. Deve ser o medo de fazer tudo errado de novo. Ou de acertar dessa vez. O meu passado ainda é o maior exemplo de amor que eu tive na vida. Amor que sobrevive ao tempo, à indiferença, ao presente, ao aborto de uma relação que existiu e resistiu a distâncias e acenos de adeus. Um amor que eu insisto em carregar no peito, por onde quer que eu vá. Quem sabe um dia eu perca essas tuas lembranças pelo caminho e consiga começar algo novo. Deixar fluir. Dar uma chance pra mim de ser feliz pra sempre de novo. E que eu entenda que "não importa o quanto vai durar - é infinito agora".

22 de setembro de 2010

Do mestre, Caio

"Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei."

20 de setembro de 2010

Eliane Brum, a contadora de histórias

Vestida com um macacão jeans desbotado e calçando sapatinhos de boneca, Eliane Brum mostrou na 9ª Semana do Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que simplicidade e sensibilidade são características essenciais em um bom jornalista. A escritora, documentarista e jornalista, subiu ao palco um pouco nervosa, tremendo as mãos como se aquela fosse sua primeira vez em público. Como repórter, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo, por que estaria nervosa em frente a estudantes que ainda nem se formaram?
Enquanto virava as páginas com anotações que carregava em mãos para não esquecer nada – ela vive esquecendo – durante a palestra que mais parecia uma contação de estórias, o auditório a olhava atentamente. Aos poucos, os estudantes que ali estavam começaram a entrar no mundo de Eliane Brum, um mundo que era real, por mais parecido com um romance que pudesse ser. Eliane falava sobre o olhar e as pessoas invisíveis. Com tristeza na voz, ao mesmo tempo tão suave, ela abriu seu livro de histórias para cerca de 100 pares de olhos fixos em apenas um.
“O assassinato dos visíveis é uma matéria com direito à manchete, o dos visíveis vira estatística”. Jorge Luiz, o comedor de vidros de Porto Alegre, era desses fantasmas urbanos. Seu nome artístico era homem de aço, mas agora, o homem de aço chorava. A jornalista questionava: “que mundo era esse em que um homem comendo vidro não era mais espanto”? O comedor de vidro era só mais um no meio da multidão que descobrira a maior das dores, a da invisibilidade.
Já Eva Rodrigues, portadora de deficiências físicas desde bebê, sentia a dor daquilo que viam nela. “Eu não sou coitada”, bradava. A violência contra ela, segundo Eliane Brum, é não enxergarem tudo o que ela é. A jornalista observava Eva, que ao devolver o olhar, expunha a deformidade invisível nos outros.
O tempo passava e a plateia parecia pedir mais histórias. Os estudantes queriam mais verdade. Eliane atendia. Dessa vez, era o gaúcho do cavalo de pau. Vanderlei, rotulado como louco em um mundo em que é preciso catalogar, desfilava todos os anos com seu cabo de vassoura como se fosse o mais belo cavalo da Expointer do Rio Grande do Sul. E era. “Eu não tenho dinheiro para comprar o animal, então finjo que esse é meu cavalo e todos me deixam desfilar por aqui. Não é muito melhor assim?”, contava Vanderlei. Esse era o homem chamado de louco.
Ao falar de uma geração que morre antes dos 20 e dessas mães, as “mães de bandido”, que não tem nome, nem chance, nem nada, a escritora alerta para o olhar superficial da maioria das pessoas e da dor que sentem. “É uma inversão da lógica. É uma dor tão impossível que não tem nome. Elas não são viúvas nem órfãs. São mães que enterraram seus filhos”. Eliane Brum contou a história de uma dessas mães que começou a pagar o caixão de seu filho quando ele recebeu o primeiro tiro. Conclui dizendo como podemos alterar nosso olhar e o dos outros. “Ao desordenar o jeito dado de olhar, subverter o foco, é possível mudar o jeito de enxergar o mundo e de aproximar as pessoas”.
Eliane Brum queria que a plateia entendesse também a importância de escutar. O quanto é importante ouvir em uma época em que as pessoas não se entendem, e o quanto isso se torna muito mais grave quando não acontece no jornalismo. Ela tentava mostrar que o mundo é muito mais complexo do que aspas em série podem explicar. “Estamos em um lugar cheio de gestos, de cores, texturas, detalhes, sutilezas que a gente só enxerga pessoalmente”. Eliane Brum não usa telefone para entrevistar, ela estima pela precisão, pelo uso da palavra exata. “A gente tá dizendo para o leitor que estivemos em um lugar em que ele não pôde estar. O telefone não é eficiente ao ponto de nos transportar para o local do fato”, complementou.
A documentarista exemplificava histórias reais que podem ser contadas por perspectivas consideradas inusitadas. Por alguns minutos, o auditório foi transportado para Brasilândia, um distrito de São Paulo. Lá, os cachorros eram tratados como gente e refletiam a hierarquia com que os moradores conviviam. Eliane Brum contava a história de uma rua, a delicadeza apesar da brutalidade, por meio de cachorros, que lá, eram tratados como gente. Piti, o virgem; Fany, a ruiva e Requenguela, o príncipe. Personagens que representavam os moradores, o tráfico e os privilégios da Brasilândia.
O momento da palestra em que a jornalista encheu os olhos de lágrima foi quando contou sua experiência hospedada em um asilo muito antigo, que de acordo com ela, “reproduzia a sociedade lá fora”. Os hóspedes variavam de pessoas muito pobres a muito ricas, e sabiam que estavam ali porque ninguém mais queria ouvi-los. Mas o que mais deixou Eliane triste não foi a experiência, mas a reação dos idosos ao lerem a reportagem publicada. “Eu invadi o mundo deles, tinha a obrigação de contar para essas pessoas o que eu estava fazendo, por que estava ali, contar o que poderia acontecer quando a matéria fosse lida”. Ela admite que cometeu um grande erro e que qualquer falha é irreparável. Eliane ligou para a “Casa dos velhos” para se desculpar, mas até hoje, não teve coragem de voltar lá pessoalmente.
Nos momentos finais, a jornalista falou da morte. Da dificuldade em contar a história de alguém que jamais leria sua vida, de criar vínculo com quem sabia que iria perder. Eliane ressalta aqui, a importância de preservar a história com uma escuta extremamente cuidadosa, uma escuta que não interfere. “Só pude descobrir que ela falava apenas da vida porque nunca perguntei da morte”. No primeiro contato com a paciente com câncer terminal, Ailce de Oliveira Souza, a repórter pediu que contasse o que quisesse da sua vida.“Por onde as pessoas começam a contar uma história já é uma informação”, explicou Brum. Para ela, às vezes o silêncio é mais valioso e permite que contem mais.
Já sem papéis na mão e à vontade com o público, Eliane respondia às perguntas dos curiosos da plateia. E ensinava. Como aprender a enxergar? Pacientemente, a repórter pedia que os futuros jornalistas duvidassem. De tudo. Que atravessassem a rua e enxergassem os fatos por várias perspectivas. A autora de O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real deu uma lição de como fazer jornalismo. Entre seus últimos conselhos, estavam sair da zona de conforto, lutar contra a repetição, reinventar.
Ao ser questionada sobre a escolha do jornalismo como profissão, surpreendeu mais uma vez. “O jornalismo me deu a desculpa para entrar, perguntar e entender o que faz aquelas pessoas rirem, chorarem. Descobrir o que dá sentido à vida”. Por fim, sobre os prazeres da profissão, Eliane Brum foi direta. “O grande prazer em ser repórter é não saber o que vai acontecer quando virar a esquina”. Parece que o nervosismo no início era só o medo de esquecer mesmo.

Deslizes

Ontem eu falava sobre você. Sobre as impossibilidades que sempre nos envolveram. Sobre o fechar dos olhos e a vontade de apagar lembranças. Eu lembro de tudo. Lembro de cada segundo que passamos juntos e separados. Das noites que te vi dormir, mesmo que de longe. Foi ali que eu tive certeza de que era você. Nunca tive certeza de quem era você. Saber que tinha te encontrado já bastava pra mim. Mas acho que nunca fui o bastante pra você. Talvez eu tenha tentado ser como você queria, tentei ser sua. Depois desses anos todos, concluo que na verdade nunca fomos um do outro. Havia liberdade demais pra chamar assim. Você tinha prazer em me chamar de sua, e embora eu tenha dedicado dias inteiros pra você, nunca te pertenci. E nessas idas e vindas, nas brigas sem motivos e nas vezes que nos calamos com medo de estragar tudo com palavras, eu te amei cada vez mais. Não dói o tempo todo. Não é um sofrimento que me faça mal ou me torne fraca. É uma pontinha de pra sempre que nunca vai embora, é um resquício do eu e você que ninguém nunca fez igual. Naquele teu sorriso sádico eu via doçura. Nas tuas atitudes pra que eu fosse embora, eu entendia alguns eu te amo e não quero mais te fazer chorar. Naquele seu ar de dono do mundo, eu via inocência de um menino que saiu de casa cedo demais. Eu sempre vi em ti o que tu nunca demonstraste. Eu sempre vi o pra sempre em uma história que parecia não durar mais que alguns megabytes. Eu vi amor onde tu enxergaste distância. Ainda te vejo no silêncio. Ainda sinto teu cheiro por aí. Mesmo que tenhas sumido, ainda estás aqui. E desse lugar que deixei pra ti, jamais conseguirás fugir.

6 de setembro de 2010

pra ser sincero


Eu me rendo. Às tuas lembranças, ao teu sorriso cínico que me completava, ao teu abraço que mesmo frio me aquecia, ao teu olhar de pena ou comiseração, nunca descobri... Me rendo ao fardo de esquecer de te esquecer. Tu é pra vida toda. Tu vai sempre ser uma lembrança de quando eu cresci, do que eu me tornei. Goste ou não disso. Uma música idiota, uma palavra de cinco letras são suficientes pra te resgatar em um filme rápido e silencioso. A nossa história, reduzida a segundos, perdeu a trilha sonora. Deve ser o medo de perder o que fomos pra simples canções. Sim, tu foi embora e não vai mais voltar. E não quer me ver voltar. Eu entendo, só nunca gostei de finais. Mas isso não muda nada. Tu foi o cara. Certo, errado, bom, mau, tu foi o cara. Se me amou ou não, se chorou com a minha partida ou se aquele aceno foi mais um gesto de vá embora que há mais pra mim por aí, não importa. Tu é o cara. Pra mim, tu vai sempre ser aquele gurizinho sarcástico que não se importava com nada, mas que por um segundo se importou comigo. Por alguns segundos quis meu bem pra sempre. Que por mal traçadas linhas me fez acreditar que seríamos e seremos pra sempre. Perto ou separados por oceanos. Tu estás aqui. E pra sempre. Aceite ou não, tu é pra sempre.

16 de agosto de 2010

Mundo mudo

Desafio. Tá aí uma palavra que me desperta um tesão gigante, capaz até de ganhar de uma panela de brigadeiro. Desde que eu era um projeto de gente, gostava de tudo o que nunca havia feito. Isso incluía queimar meus dedinhos no ferro de passar roupas, comer ração de cachorro e até experimentar as delícias da culinária baseada em areia e mato. Tudo que é novo me excita. O desconhecido sempre me pareceu eterno, sem fim, sabe? De vez em quando, arrisco tentar reexperimentar coisas que odeio. Mostarda, café com leite, nescau. Já tentei de tudo. Às vezes dá certo. Mas confesso que na maioria das tentativas é frustrante a ideia de que se não é mais novo, não tem graça nem qualquer chance de mudança. A mostarda será sempre aquela gosma amarela com cor de excremento de bebê. Quando não dá certo, eu parto para ações mais concretas e desafiadoras. Tipo? Pintar a unha de azul e achar normal. Escrever uma matéria sobre uma partida de futebol - forçada, mas nem por isso, com menos tesão -, acompanhar um processo durante meses esperando que se torne público, pegar ônibus diferentes só pra alterar o itinerário. Parece besta, mas considero qualquer tipo de mudança a final do campeonato mundial de qualquer esporte. Não importa. É extremamente difícil conhecer o novo, ou reconhecer o velho como a maior novidade do ano. Seres humanos são troféus de ouro pra quem gosta do desconhecido. Vejo por mim, que há 21 anos convivo comigo e não faço ideia de quem sou. Não falo em conhecer 123 pessoas por dia. Prefiro conhecer 123 vezes as mesmas pessoas todos os dias. Tem gente que supera expectativas e comete deslizes que fazem com que eu espatife com a cara no chão. Seres completamente mutáveis que se adaptam ao ambiente exterior a cada 123 segundos assustam. Eu fico apavorada com alienígenas. Não sou a pessoa mais normal do mundo, tenho manias estranhas e inconstâncias bem temerosas, às vezes. A diferença, é que eu tento não ferir as pessoas quando crescem espinhos. Bem diferente de algumas flores que andam por aí machucando qualquer espécime mais sensível que apareça.Um dia as pétalas macias e coloridas caem e morrem. Os espinhos ficam. As feridas também.

Derrubem velhos muros.
Construam novos ideais.

6 de agosto de 2010

fim do dia

Olhando esse pôr-do-sol que mais parece uma daquelas pinturas abstratas que a gente fica observando e não entende nada, pensei como eu falo mal do amor. Em anos escrevendo em blogs que já morreram ou se perderam pelo ciberespaço, nunca deixei subentendido que o amor era lindo. Nas entrelinhas, por trás de toda dor e lamúrias, eu acho sim o amor a coisa mais linda que pode acontecer na vida de um ser humano. O problema é que não consigo escrever a parte boa de nada. Como se o que fosse perfeito não merecesse minha atenção nem a de ninguém que tenta me ler por aqui. E não merece. Não nasci pra pensar sobre coisas boas nem pra descrever quão lindo é o céu todo colorido, os passarinhos cantando ou o som do mar. Eu gosto de falar da tempestade, da catástrofe, do que é intenso e dá medo. Gosto de incêndio e do fim do mundo. Não sou uma boa escritora. Não consigo falar de tudo, ou talvez não fale porque simplesmente me dou  o direito de não tentar. Nunca tive pretensão alguma com essas frases - clichês ou não - que ficam perdidas e que às vezes encontram alguém. Que bom que encontram, mas se sumirem eu também não me importo. Ficar apegada a textos já não faz mais sentido e nem parte de mim. O que é necessário ser lembrado fica aqui dentro, e não em meio às palavras. Não tenho foco, não penso no fim dos textos, no fim de nada. O céu já tá escurecendo e eu prefiro os faróis dos carros me cegando e todo esse barulho a poluição o escuro, e no fim silêncio. Silêncio silêncio silêncio e a tua voz ensurdecedora. Escrevi tudo isso pra concluir que ainda não te esqueci.

3 de agosto de 2010

Eu acho que...

Faz tanto tempo que eu já não sei como é não ter ninguém aqui dentro. Sobre o que eu vou escrever agora? Sobre o que eu vou sentir? Pra quem eu vou sofrer? Com quem eu vou sonhar? Tá certo que você sempre foi mais pesadelo que um conto de fadas, mas agora você saiu daqui pra sempre e não tô vendo nenhum outro príncipe encantado galopando no cavalo branco. Eu sei que preciso de um tempo vazia de tudo, mas cansa. Um dia e eu já cansei de não ser de ninguém. Ou de me sentir de alguém. Desculpa se decepcionei quem achou que agora eu daria um sorriso e seria feliz pra sempre. Não é que eu precise de alguém ou não me sinta completa, é que eu gosto do que acrescenta. Gosto quando transborda. Eu acho que nasci pra sofrer por amor e deixar tudo escrito por aí de uma forma mais bonita e dolorosa do que realmente foi. Essa mania de aumentar e diminuir. É que o extremo sempre foi mais verdadeiro e compreensível. Eu leio algumas páginas de um livro e não penso mais em ninguém. Eu ouço uma música e sei lá, parece um ruído qualquer que a gente ouve todos os dias em qualquer lugar. Parece que tudo virou qualquer coisa. Descobri que é tão bom ter motivos pra não esquecer. É quase como meditar eternamente. Viciei no que é latente, no que dói dói dói sem parar. É o costume da vida que não gira, mas que oscila de um lado pro outro sempre voltando pro mesmo lugar. Só que agora o mesmo lugar não tem mais você. Sou só eu. Indo e voltando de um lado pro outro. Variando variando e parando no mesmo lugar. Só que dessa vez a inércia foi desbancada pelo teu adeus e o meu amor que se foi. Desafiando todas as leis que regem meu modo de amar e ser amada, eu te deixei pra sempre. Só que a minha oscilação entrou num caos total, resistindo a qualquer força que tente fazer meu pêndulo parar.

‎"Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exata."

31 de julho de 2010

Canção da Despedida


Nas últimas madrugadas eu fiquei paralisada. Com medo de escrever o que eu não sentia, de errar na hora de me entender. Fiquei sim, apavorada sem saber o que eu tô sentindo. É um amor e um ódio tão fortes e não consentidos que me deixam patética. Olhando pra cima, pra baixo, para os meus pés ou para um poste parado e idiota. Igualzinho à dona do par de olhos. Sem tempo pra me preparar eu me vi tão tão tão perto de ti, e tu fugindo de mim outra vez. Mas agora eu entendo, porque indo pra perto de ti foi a melhor forma que encontrei pra me perder de ti pra sempre. As ruas são diferentes, a cidade cresceu e aquela esquina é só mais uma esquina de uma cidade grande. Os taxis, os telefones públicos que nunca funcionaram, um ar de poluição de almas, sujeira, sujeira, sujeira e o amor não é mais puro. Ele esvaiu no ar sem que eu tivesse chance de dizer "vai, vai pra sempre, porque nós nunca fomos eternos, estávamos de passagem". Você sumiu de mim e ficou um vazio que eu não posso dizer que seja ruim. Mas quando falta algo, a gente pensa que falta tudo. De repente tanta gente não importa mais. Tanta gente importa tão pouquinho. Um nó na garganta que não desata, um ponto de interrogação gigante me esmagando a cada pensamento de "eu não te amo mais". Eu derramei algumas lágrimas por não mais que uns quatro minutos. Lágrimas de quatro anos. Acho que era o velório da gente. Um choro justificável de "nós nunca mais voltaremos nós". Nunca pensei num epitáfio pra nossa história, mas acho que seria algo como "nos amamos e fim", "nos amamos, enfim" ou "nos amamos no fim?". Eu acho que a gente sempre vai ser um ponto de interrogação. E na minha gramática, a interrogação pode ser sim ponto final. Eu parti do teu mundo com a alma mais leve, sem o que a gente aprendeu juntos, eu parti menos amor. Eu acordei, e de repente acabou. Durante o momento de um suspiro, deixei quatro anos da nossa (ou será só minha?) história morrerem asfixiados.

Foi um prazer te conhecer
Foi um prazer te amar.

18 de julho de 2010

blah blah blah

Achei que meu orgulho era grande, mas descobri que meu amor é muito maior. Eu não sei o que passa pela tua cabeça ou pelo teu coração, mas aqui você passa todos os dias. Praticamente até o ar que eu respiro por aqui lembra o seu, lá. Minhas palavras não foram capazes de te convencer que a gente ainda valia a pena. Eu tentei ser fraca o bastante pra te perdoar, mas no fundo, aqui dentro, o que mais nos aproxima é o ódio que ficou pelo que tu não fizeste. Era fácil dar as mãos quando tocava uma canção de amor. Mas foi quando nos vimos estrelando um filme de guerra que tu finalmente revelaste o que era. Eu não me apaixonaria por alguém assim. Mas eu me apaixonei. Ainda penso todos os dias. Fácil dizer pra esquecer. Pensando racionalmente é claro que faz sentido. É óbvio que não existem motivos pra ficar resgatando o passado. Acontece que lá no fundo eu não entendo que o passado não volta. E fico nessa ilusão idiota de que sei lá, por algum milagre divino você reapareça e resolva me receber de braços abertos com o sorriso de um cara apaixonado. Quão idiota e sonhador um ser humano pode ser, hein?! E mesmo não parecendo, eu tô feliz. Minha vida é realmente muito legal. Eu só não posso pensar em passado. Eu só não posso te ter no meu presente. E isso é tão triste.

14 de julho de 2010

Canção número 12

"Oiiii. Amiga, pintei as unhas de vermelho"
Tá, e daí? (deleta) Ai que lindo! Quer pegar quem? Qual a cor?
"Gabrielle! Vamos sair amanhã, lembra?"
Não quero sair mais... Tô com preguiça das pesssoas (deleta) Uhul!!! Vamos encher a cara e pegar geral!

...

Pois é, essa coisa estranha que chamam internet é um fenômeno muito estranho. Você vê uma foto feliz - a mais feliz do mundo - no avatar de alguém e acha que por isso a vida é bela e esse alguém é sim a pessoa mais feliz do mundo. Não. Eu estou chorando, enchendo baldes, tropeçando neles e derrubando toda a minha vida no chão. Eu estou DE-SA-BAN-DO. Entendeu? Eu sei que você não pôde ouvir minha voz pra ir se preparando, respirar fundo e perguntar com toda aquela sua doçura, o que houve. Também sei que não viu meus olhos fitando qualquer coisa que não fizesse sentido, só pra enganar e não deixar aquela lágrima insistente cair. É, não é sua culpa, nem minha.
Você não ouve minha respiração, você não sente meu cheiro, só lê. Lê aquelas palavras coloridas e acha que tá tudo bem. Eu sei que acontece com você também. Mas eu gosto de contato, de olhos nos olhos, olhos nas tuas mãos aflitas que sempre procuram um lugar pra repousar, olhos dentro da tua alma. Eu gosto de ouvir teu coração batendo. Da nossa energia que é só nossa.
Amigo, eu amo quando a gente simplesmente senta ao lado um do outro e respira. E quando você olha junto comigo pra lugar nenhum. Porque é lá que o presente acontece e acontece e acontece todos os dias e quase ninguém vê. Eu não gosto dessas janelas piscando feito letreiro de motel barato. Eu gosto do que ninguém enxerga, daquelas luzes que piscam e piscam sem parar quando a gente fecha os olhos. Eu gosto de amor e de amar. Eu cansei dessas janelinhas, porque elas não dizem nada. Queria poder ouvir de novo como teu coração batia quando eu ainda ouvia você dizer que me amava. Queria que aquele universo que piscava quando a gente cerrava os olhos preenchesse todo o espaço que você deixou quando eu parti.

"Eu não encontro nada que me dê motivo
outra vez pra procurar o que sobrou.
eu vivo condenado e sem saída
de um passado que parece não ter fim..."


12 de julho de 2010

de fé

"A amizade é um amor que nunca morre".

É mesmo, Mário Quintana? Ou o ser humano deturpou até o sentido dessa palavra? O dicionário é claro e objetivo: "Afeição recíproca entre dois entes". Recíproca, entendeu? O amor deve vir das duas partes, deve haver um fluxo e um contra-fluxo de consideração e confiança. Eu não sei se é apenas uma fase, mas eu sinto que fiz menos amizades nesses últimos anos do que pensava. Parece que as boas e poucas ainda são as mais antigas... Não consigo mais considerar alguém que conheço há um ano e meio um amigo. Até porque as situações que atestariam pra sempre como verdadeira a amizade nem puderam acontecer. Talvez eu tenha me precipitado demais. Tem gente que não liga pra dicionário, ainda menos pra Mário Quintana. Eu não vou exigir que sintam da mesma forma que eu. Mas também não exijam que eu os chame de amigos. Porque meu querido colega, amizade é algo forte, e é pra sempre. É tão, mas tão forte, que acredito ser junto com nossa família o pedaço mais importante de nossas vidas. Não vou ficar chateada se você não me considera o pedaço mais importante da sua vida, fica tranquilo. Mas não exija que o meu tempo e minha atenção sejam voltados pra você por tanto tempo. O resto da vida é muito, e eu não quero gastá-lo com quem não me quer por perto da mesma maneira que eu o quero. Amizade é conforto, além de tudo. E se a gente nem se diverte mais, se eu já não faço mais parte do seu dia triste, ou alegre, ou cinza, ou de verão, a gente não vale mais a pena. A nossa amizade era só um passatempo, uma conveniência para não se estar sozinho. E eu odeio conveniências. Desculpe se eu for cruel, ou simplesmente for te esquecendo. Acredite, você já me esqueceu há muito tempo. E o mais importante: esqueceu de nós. Um bom dia sincero me interessa. Sua falta de vontade de ficar ao meu lado já não faz falta e nem me completa. Pelo contrário, consome.


"Eu tenho muitos amigos, tenho discos e livros
mas quando eu mais preciso, eu só tenho você..."

5 de julho de 2010

A vida é hoje

É normal querer estar entre pessoas só para ignorá-las? Sair de casa e ter o prazer de sentir que não precisa de nenhuma delas. Nenhuminha. Sentir-se completo o suficiente pra viver numa ilha deserta e ser feliz pra sempre. Normal almoçar sozinha e sentir o prazer de ouvir o som da própria mastigação, do arroz sendo habilmente destroçado em companhia de nada menos que você? Eu não sei o que o mundo considera normal, mas eu ando me bastando tanto comigo e achando as pessoas tão sem graça, tão sem nada... É uma fase em que observo os humanos agindo como animais e dou gargalhadas sem fim, sem som. Risos histéricos e piadas só minhas, porque se alguém ouvir perde toda a graça. Parece meio louco, mas eu tô adorando a minha companhia, a autossuficiência que eu tanto busquei, e que de repente, chegou. Eu ainda nem te esqueci e já sei viver sozinha. Veja só! Aquela guria que não conseguia respirar se estivesse sem companhia, que necessitava ouvir boa noite, ou tchau, ou um simples a gente se vê. Alguém que queria sempre mais, sempre soma e queria presença. Agora essa gritaria toda lá fora me irrita. A de dentro só me deixa com mais vontade de estar só.

"Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

24 de junho de 2010

Learn to fly

É engraçado como a raiva deixa as pessoas, aparentemente, mais fortes. Aparentemente a gente vai levantar a bundinha da cama, arranjar alguma bandeira por aí e gritar bem alto: "independência ou morte"!!! Mas independência de quê? Trocar aquelas pernas que esquentavam os pés em cinco segundos por meias? Aquele corpo tão mas tão quente que parecia queimar de tanto amor por uma mantinha anti-alérgica comprada naquela loja em promoção? É amiga, amor não se encontra em liquidação. Não vende em banquinha de camelô. E independência a gente conquista, por nós mesmos. Não é alguém que aparece e nos tira a liberdade, é a gente que vai entrando no quartinho escuro e deixa o vento fechar a porta. Não estar mais com ele não é status de pessoa feliz, bem resolvida, livre e pronta pra percorrer os cinco continentes sem parar. As músicas que lembravam o quanto vocês se necessitavam vão continuar tocando e agora vão só lembrar "aquele desgraçado que um dia esqueceu de me amar". Perdoe. As pessoas um dia não sentem mais nada. Não há um ciclo lunar ou um feriado no calendário que corresponda às necessidades e conveniências dos dois. Um dia acaba. Aceite. Sentir raiva não vai te deixar mais forte, vai te fazer uma pessoa mais dura e injusta com o resto do mundo que não tinha nada a ver com isso. Esqueça. E lembre-se de não generalizar: não são todos iguais. Ao contrário do que você está pensando nesse momento. Se fossem todos cópias você não estaria chorando jogada no quarto ao som de Los Hermanos por mais um adeus não consentido. A graça da vida está em superar. Desafios, obstáculos, imperfeições, amores findados. Superar você mesmo e essa mania de achar que hoje é o fim do mundo. Não é. Até essa dor que parece maior que todas as galáxias que existem, que te corrói o corpo como se fosse um verme sedento por carne podre e abatida, que grita de dentro pra fora da alma, que faz o coração bater tão devagarzinho que parece que vai parar pra sempre, passa. Passa, e no fundo você sabe disso. Só precisa de uma semana de apocalipse pra ressurgir mais forte e soprando cinzas pra todos os lados. É a tempestade indo escurecer a vida de outros e o arco-íris surgindo junto com os passarinhos felizes (aqueles da branca de neve) e todo aquele faz de conta e promessas de final feliz. E lá vamos nós, voando por ares desconhecidos, planando, planando, até encontrarmos um novo porto e nos jogarmos lá de cima em um vôo suicida com escalas na paixão, no amor, e destino certo: o fim.


"Tenho uma parte que acredita em finais felizes.
Em beijo antes dos créditos, enquanto
outra acha que só se ama errado".

22 de junho de 2010

"E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu."

17 de junho de 2010

21 carnavais, 10 mil fantasias

Passaram-se 21 anos. E eu aqui. A mesma Jéssica de sempre, um pouco mais esperta, um pouco mais burra, inocente, sincera, talvez. Sinto que fui mudando pra voltar a ser o que era. Um ciclo que sempre volta para o início. Não tenho grandes ambições, não faço mais listas nem promessas. Não cumprí-las só me deixava com medo de não estar vivendo. A vida passava e eu sentia medo de deixá-la passar. Acho que finalmente entendi que passa. Não importa se estamos tristes ou soltando fogos de artifício, ela passa. Então eu choro e sorrio sem medo de estar perdendo tempo. Eu me deixo livre pra gritar ou pra sussurrar. Cansei de ficar me censurando. Se eu quero chorar, choro. E isso não significa que eu esteja mais sensível ou minha vida não esteja boa. Pelo contrário, a gente precisa surtar pra não enlouquecer. A gente precisa se permitir sentir. E se tem algo que eu faço mais que pensar é sentir. E eu sinto muito, blues. Meu único desejo é que eu possa viver muito, porque viver é o máximo que eu posso pedir. E a vida foi a melhor coisa que aconteceu comigo.

16 de junho de 2010

Ryszard Kapuściński

"Quiero subrayar esta idea: en nuestra profesion, el éxito se basa en mantener dos talleres. Es decir, en tener una doble vida, vivir en estado de esquizofrenia: ser un corresponsal de agencia - o un redactor de periódico - que cumple órdenes, y guardar, en algun pequeño lugar del corazón y de la mente, algo para sí, para la propia identidad, para las ambiciones personales".

14 de junho de 2010

Xadrez listrado branco e preto


Uma professora, no departamento de Jornalismo, que pede para o aluno seguir alguém e escrever uma crônica só pode ser inesquecível. Grande Aglair. Lá vai:

Até onde eu seguiria alguém? Até onde seria preciso acompanhar os passos de um ser humano pra que eu pudesse fazer parte da vida dele em silêncio? Meus passos aflitos e curtos me denunciavam. Lá estava ela, a escolhida. Entre idas e vindas, chegadas e partidas, eu encontrei a mulher desconhecida que faria parte da minha história, e que nunca saberia disso. Era boa a sensação de ser invisível, e, de alguma forma, ser sombra. Um casaco branco e preto, a primeira vista, não sabia se xadrez ou listrado. Mas, que diferença faria? Toda. Se fosse xadrez, ela seria meiga, apaixonada, acreditaria em príncipe encantado. Se fossem apenas listras, ela não teria porto, andaria pelo mundo a procura de ela nem sabe o que, só a procura de algo sem nada dentro. Caminhei apressada: era listrada. Eu sabia que o fim da nossa ligação estaria próximo, ela era daquelas que passam, não ficam. Ela queria o mundo e eu só precisava da sombra dela. Colocava os cabelos atrás das orelhas, aflita, apressada, com pressa de viver toda a sua vida em um minuto. Idade? Seu corpo denunciava uns 33 anos, mas ela tinha alma de menina errante. Tinha passos tortos e sinuosos. Linhas retas, pra ela, já bastavam as do casaco branco e preto. Era um sobretudo discreto, neutro, típico de quem quer passar sem ser notado. Mas os sapatos. Ah os sapatos!!! Eram cor de céu, cor de algodão doce. Eram cor de menina, cor de liberdade. Atravessamos a rua juntas. Entramos na farmácia juntas. Ainda me pergunto por que uma menina que quer o mundo precisaria de pincéis. Vai ver fosse pra pintar um arco-íris. O moço da loja disse que era o melhor pincel, fazia as sombras ficarem perfeitas. Mas onde já se viu sombra pintada, sombras perfeitas? Ela viu. Ela quis o arco-íris e eu só quis a imaginação dela. Éramos colegas. Só faltava uma coisa pra nos tornarmos amigas: que eu já não reparasse em nada. Foi aqui que começamos a nos perder. Ela subindo a rua, com o mesmo passo apressado, mas já nem tão aflito. Eu virando a esquina, descendo, descendo, descendo. Aos poucos a gente foi se afastando, não havia mais sombras. Sobravam a distância e a ausência. Sobrava eu e ela. Ela se foi, dona de si, sobretudo. Era o sobretudo branco e preto xadrez e listrado e todas as cores do mundo se despedindo, dizendo até mais. E só eu sabia que era adeus. Agora eu não tinha mais sombras pra seguir. Era a minha que me seguia. E isso me aflige. Essa perseguição enquanto há vida, de mim por mim, a perseguição de ser o que a gente quer, ou o que deveríamos ser. Às vezes eu só queria não me perseguir. Eu só queria me perder de mim e não sentir falta. Ou me sentir livre. Ou ser livre. Ou simplesmente sentir.


"Há mais de mil destinos na esquina
outras vidas esperando em cada esquina..."

10 de junho de 2010

de outros carnavais, com outras fantasias


Passaram-se 365 dias tão rápidos quanto a nossa história. Começou com muito e acabou sem nada. Faz um ano que tu te tornaste a pessoa mais especial que eu permiti que vasculhasse meu coração. Tu foste a única pessoa pra quem eu deixei minha alma exposta. Nunca vou entender por que sumiste, e se esse foi o melhor caminho. Sim, eu pedi que tu desapareceste da minha vida, mas nem assim era ódio. Eu só queria um tempo da tua presença, já que ela era mais real aqui dentro do que jamais fora. Ter de falar tudo nas entrelinhas só deixa o que escrevo com maior intensidade, com verdade e com tudo o que a gente foi. Jamais me conformei com esse terremoto e a falta da paz no final. Eu nunca imaginei que fosse sentir tanta falta. Não sei exatamente do que, mas eu sinto que foste a pessoa mais especial que já passou - e ficou - na minha vida. Não fizeste nada de especial pra isso, eu sei. Mas essas coisas a gente não escolhe, não é questão de pesar na balança, de medir, de catalogar, de definir. Acredito que o não saber sempre tornou tudo mais especial do que era. O não poder te transformou em tudo o que eu mais queria. O não ser só criou correntes cada vez mais tenras. Sempre foi difícil pensar em te esquecer. Ainda não descobri se dói mais apagar tudo ou reviver o que foi todos os dias. A nossa música nem nossa é mais, mas continua tocando. A porta ficou aberta, e eu confesso, tenho medo que outra pessoa tente entrar... Hoje sou cercada de muros e grades. Eu vivo em um campo de concentração onde vou guiando todos que chegam para a câmara de gás. Eu vou matando qualquer pedacinho de amor que tente nascer em mim. Eu sempre quis só aquele amor, eu sempre quis você. Eu perdi as chaves no meio do caminho, eu perdi o medo de que jamais fosse real. E se um dia a gente se encontrasse entre a Joaquina e o Morro das Pedras? Mas... E se a gente se perdesse? E se fosse tão longe e tão cansativo que a gente desistisse? Eu caminhei tanto tanto, eu atravessei meus medos, eu me vi perdida em um lugar desconhecido, eu me senti segura quando tu me deste a mão. Foi ali, há três anos, que eu me liguei pra sempre em ti. E se há algo que eu nunca vou perdoar é o teu silêncio. Eu nunca vou te perdoar por ter ido embora, por ter dito até mais sabendo que era adeus. Lembra da champanhe? Tu guardaste na estante e eu me embriaguei escondida. Era amor que eu tinha receio de mostrar, e mostrava. Mostrava enquanto estava escuro, enquanto tocava piano bar. Mas a música era alta demais, triste demais, verdadeira demais para o que éramos. Se a gente um dia foi algo, foi amor. Eu continuo sendo... Você simplesmente se foi. Hoje é brisa, é passado, é tempestade.

"Alguém que parte não volta..."

8 de junho de 2010

Outra vez

Um dia eu quis te entender, quis te julgar, te odiar, te esquecer. Mas aí eu cansei de ficar rodando em círculos, porque desse jeito nunca acabaria. Eu sabia que nunca fui entendida, sabia que eu era um ponto de interrogação, mas e nós? Éramos só reticências. Você? Eu nunca soube o que você foi. Talvez uma lembrança ou bem mais que isso. Às vezes eu paro de pensar nos poucos momentos bons e entendo porque nunca teria dado certo. E é muito mais que distância física. É distância de verdade mesmo. No fundo eu sei que a gente nunca se deixou tocar... Era a necessidade de sentir o vento batendo no peito. Só que agora o vento começou a congelar o coração. Agora não tem mais o que proteja. É nudez completa, é madrugada, é adeus. É o choro de luto pelo que a gente deixou morrer. É meu vestido preto e o teu coração de pedra. É uma carta que eu nunca enviei e aquela que jamais chegou. Foi o fim sem despedida. Foi um filme de guerra sem canção de amor.

"Ontem à noite, a noite tava fria
Tudo queimava, mais nada aquecia
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão"

31 de maio de 2010

Segunda-feira blues

Tenho tido semanas estranhas, e talvez por isso não tenha escrito nada por aqui. Medo de ser diferente, ou de perceber através das minhas próprias palavras que tudo ficou diferente sim. Comecei a enxergar o mundo sob outra óptica, com outros valores... Sempre tive tantas certezas e de repente me vi entre a obsolescência e o desejo de consumo do novo. Consumi, consumi, enjoei. Como sempre acontece. Eu estou presa no passado, e não há nada que eu faça ou que alguém faça que mude isso. Acostumei com a presença de fantasmas e não sinto mais medo. Muita coisa foi mudando com o tempo e só o que se foi permaneceu intacto. Talvez visto com outro olhar, perfumado e lindo, como nunca foi. Acho que o problema sempre será esse: criar um passado que não existiu, um passado sem defeitos ou mágoas. Qualquer um gostaria de lembrar de algo tão bom assim... Não seria diferente comigo. Acordei em outro lugar, me senti a mesma pessoa. Acordei me procurando e não te encontrei. Talvez eu realmente tenha me perdido por aí. Quem sabe um dia eu me encontre de novo.

"Milhas e milhas eu fui percorrer
Por milhas eu não soube aonde ir
Às vezes não espero me encontrar
Talvez um dia eu te encontre por aí
Ah! eu sinto muito blues..."

21 de maio de 2010

Periférico, por Tati Bernardi

"Pareço um sapo cego dando uma linguada no ar, não vejo o inseto, mas sei que ele está lá. Molho o ar na espera de lamber sua coxa, a pele com menos pêlos atrás do seu joelho. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo perfeito e boquiaberto por causa da barriguinha. Quem sabe descobrir alguma sujeirinha ali no umbigo, um resto de algodão, um resto de salgadinho vagabundo, um resto de prazer. Eu te amava depois do banho, eu te amava indo trabalhar sujo de mim, eu te amava humano e eu te amava, sobretudo, alienígena e com sono de sentir a vida.
Sinto saudades de respirar o mais profundo possível, como já escrevi antes, perto de sua nuca. E descobrir novidades sem nome e sem solução. Sinto saudades de me perder tentando entender de que tanto você sorria, de que tanto você brilhava, de que tanto você se perdia e se escondia.
Peço licença ao meu ódio tão feio e tão infinito para te amar só mais uma vez. Quero te amar sozinha aqui, na minha casa nova, em minha quase nova vida. Quero esquecer todo o nada que você representa e dar contorno aos desenhos que não saem da minha cabeça. Nunca entendi seu coração, nunca entendi seus olhos, nunca entendi suas pernas, mas só por hoje queria poder lamber sua fumaça para que ela permanecesse mais, pesasse mais.
É libertador esquecer meu desejo de vingança, a vontade que tenho de explodir sua vida, o vício que tenho de passar mil vezes por dia, em pensamento, ao seu lado. E pisar em cima da sua inexistência e liberdade. Chega disso, só pelo tempo em que durarem estas letras e a música que coloco para reviver você, vou te amar mais esta vez. Vou me enganar mais uma vez, fingindo que te amo às vezes, como se não te amasse sempre.
Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como podia ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.
Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. Ainda assim, há meses, há séculos que se arrastam deixando tudo adulto demais, morto demais, simples demais, exato e triste demais, eu sinto sua falta com se tivesse perdido meu braço direito.
Esse amor periférico, ainda que não me deixe descoberto o peito, me descobre os buracos. Não são de suas palavras que sinto falta. Não é da sua voz meio burralda e do seu bocejo alto demais para me calar e me implorar menos sentimentos. Não é, tampouco, do seu abraço. Sua presença sempre deixou lacunas e friagens que zumbiam macabramente entre tantas frestas sem encaixe.
Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.
Sinto falta mesmo, para maior desespero e inconformismo do meu coração metido a profundo, de lamber suas coxas, a pele mais lisa atrás dos joelhos. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo, respirar sua nuca, engolir sua simplicidade, me rasgar com sua banalidade, calar sua estupidez, respirar seu ronco, tocar sua inexistência, espirrar com sua fumaça.
Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.
Simplesmente isso. Você, uma pessoa sem poesia, sem dor, sem assunto para agüentar o silêncio, sem alma para agüentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o tempo parasse. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza.
Sinto falta da raiva, disfarçada em desprezo, que você tinha em nunca me fazer feliz, sinto falta da certeza de que tudo estava errado, mas do corpo sem forças para fugir, sinto falta do cheiro de morte que carregávamos enquanto ainda era possível velar seu corpo ao meu lado, sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinto falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, de não dar conta, de não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me reter.
Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de lamber suas coxas, a pele lisa, o joelho, a nuca, o umbigo, a virilha, as sujeiras. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria."

20 de maio de 2010

Nada, nada, nada importa

Sabe o que pensei hoje durante o dia inteiro? Por que é tão fácil falar do defeito dos outros e tão difícil admitir as qualidades? Por que o ser humano é tão promotor dos outros e tão justo consigo? É a velha história de julgar e esquecer que enquanto apontamos os erros alheios, esquecemos dos nossos. Tem gente por aí que sente tesão em destruir a obra de todo mundo, menos a sua. Eu sou uma pessoa que costumava ser extremista, aquelas "ou é oito ou oitenta", mas mudei. Mudei porque percebi que a vida não funciona assim. Que não há nada tão bom nem tão mau. São 360 ângulos diferentes, por que insistir que existe apenas um certo? O mundo precisa de mais elogios, menos críticas destrutivas, mais ajuda. O mundo precisa da gente, de seres, humanos. Falta compreensão. Estamos ficando duros e cruéis demais com a vida. Mas... E se a recíproca se tornar verdadeira?

Mais AMOR, por favor.

9 de maio de 2010

(in)diferença

Um dia desses eu li algo que falava de amor e ódio. E foi uma frase simples e bem direta que me fez pensar a semana inteira... Era mais ou menos assim: "O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença". Nunca algo fez tanto sentido pra mim, foi como se 20 anos da minha vida fossem explicados e finalmente as noites que passei chorando fizessem sentido. Tudo bem quando a gente ainda tem ressentimento por alguém ou por alguma situação, quando a gente sente raiva, amor, alegria, tédio ao ver alguém. O problema é quando já não se sente nada. E agora, com quem eu vou brigar? Com quem eu vou ficar implicando? É amigo, a indiferença é um prato que se come cru. Ser indiferente é simplesmente não ligar, é desprezo, é fazer do outro invisível, um fantasma. E não importa o quanto ele tente chamar atenção, é como se ele não estivesse lá. É a fase final do esquecimento. É a mudança definitiva, é o adeus pra sempre. Não conheço seres humanos que consigam conviver bem com esse sentimento. Quando estamos do outro lado é que percebemos o quanto dói. Machuca de verdade não ser mais nada para alguém. É como se não fôssemos mais nada pra nós mesmos, é um atestado de invisibilidade. E não há histeria que quebre esse pacto individual de silêncio. Não adianta mais gritar, querida, ele já não te ouve mais. É hora de partir.

"No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A GRANDE INDIFERENÇA, ou A grande ausência, ou A grande partida, ou a A grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.Não conseguiu. DESIMPORTOU-SE com aquilo."

7 de maio de 2010

"Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente..."

6 de maio de 2010

Cai a noite sem explicação...

Sinto saudade de escrever coisas boas. Vai ver faltem momentos realmente memoráveis. Ou eu simplesmente deixei de ver esse lado bonito da vida. Mas acho que o primeiro passo é admitir pra si que algo não tá legal. Tem peça faltando, tem gente sobrando, sentimentos transbordando. Tem coisa demais no lugar errado. Há poucas coisas das quais eu me orgulhe, há muitas das quais sinto falta. Preciso de muito de poucos... Esqueci como se gosta sem doer, como se gosta pouco. Esqueci que respirar é fácil, mas querer continuar pode ser uma tarefa árdua quando o ar está cheio de impurezas. Eu tô sem rumo, sem planos, sem sonhos ou ilusões. De tanto ser racional o tempo todo, agora choro por ser emotiva demais. Choro por levar tudo muito a sério, por ouvir palavras que machucam e não deveriam. Choro por ter pensado demais. É que depois de tantos questionamentos, viver não faz mais tanto sentido. Eu esqueci de viver enquanto ficava calculando as probabilidades de tudo dar errado. E deu. Me arrependo amargamente por não ter levado a sério coisas e pessoas que agora fazem falta. E falta a gente não preenche, falta é vazio, é cada vez mais oco. Eu nunca soube demonstrar amor. Eu só sei escrever. E tem muita gente cega por aí, o que abala profundamente o único meio em que sou transparente, onde sou inteira, não metade. É aqui que eu abro minha alma pra quem quiser ver. Eu nunca tive vergonha de sentir, mas eu sinto vergonha por não me permitir. E quando a gente não se permite, a gente fecha a porta. E com a porta fechada, ninguém entra.


Deixava aquela música invadir a sala
Pra preencher o espaço que você deixou
Quem sabe você volta
Até a música parar

4 de maio de 2010

5 anos...

"Se me virar do avesso quem sabe, mas está aí, tudo aquilo que um dia eu não vou dizer... Um modo que eu espero um dia não sentir. Eu cobri meu coração e joguei fora alguns dos meus sentimentos antes mesmo que eles trouxessem mais alguma dúvida. É esse o mais novo e bem elaborado kit de salvamento, criado logicamente por mim. E para evitar que venham citar o teor de ceticismo e frieza contida na estratégia eu apresento o outro lado da moeda. Todo o histórico vivido e que me fez chegar até aí. São algumas porções de passos em falso. São situações e mais situações de dedicação jogadas no lixo. Foram esperas, idas e vindas, traições, contas telefônicas, ciúmes, falhas, mentiras, paciência, prazos, calmantes, choro, tempo. Enfim, todo o cápitulo 8, intitulado "relacionamentos amorosos", da minha auto biografia. A minha doce tragédia que com muito esforço, hoje, não se cria mais aqui. As raízes foram arrancadas por calos muito bem desenvolvidos. Mesmo ciente da minha vulnerabilidade diante do acaso, do destino, do futuro eu tomo a minha dose diária de prevenção quando me desprendo das expectativas de um grande e verdadeiro amor. Eu deixo o tema aí disponível para os grandes romancistas e músicos, enquanto na trilha sonora da minha vida eu controlo cada verso ou tom. E se eu te falasse que a imagem no espelho não é a de uma pessoa amarga, você com certeza marcaria a opção "a", em que diz "afirmação falsa". Eu continuo a viver com paixão, no entanto com muito mais equilíbrio nessa nova composição. Eu continuo achando algumas pessoas interessantes, porém não fico mais idealizando a performance delas na minha vida. Eu continuo tendo a certeza de que quero dividir a minha velhice com alguém especial, mas até então eu acho perfeita a forma como me ajeito sozinha naquela cama de casal. A definição do que é o amor, hoje, pra mim, sofreu grandes trasnformações. Já não perco mais tanto tempo em prol dele e menos ainda engulo sapos, jacarés e até os grandes dinossauros pelo receio de ficar pra titia. Eu não me tornei um ser independente do calor, dos carinhos, daquilo que possa parecer romântico, eu simplesmente parei de agir com tanta devoção. Estou aí no campo. Exposta e aberta. Mas também atenta e com quantos pés no chão forem precisos, nem que pra isso eu precise utilizar os teus. Agora eu consigo trabalhar com a idéia de que as "coisas" podem e talvez até devam ter o seu tempo determinado. E que EU sim, preciso viver feliz pra sempre, até que a morte ME separe. Logo, não precisas desistir da idéia de tentar me seduzir. Mas cuidado para não se apaixonar. Você pode não fazer parte dos meus planos naquele momento. Esteja certo de que quer encarar. O relacionamento que tenho comigo mesma agora é algo inabalável. Você precisará de muita força. Boa sorte!"

26 de abril de 2010

Heartbreak Warfare

Antes que eu esqueça, um excerto do livro "A Feijoada que Derrubou o Governo", Joel Silveira, altamente recomendado.

"A guerra, como já disse, é cheia de truques, todos nojentos; e um dos mais nojentos é fazer com que alguém que com ela conviveu durante meses acabe sendo condicionado por ela. Por isso é que naqueles dias, véspera de voltar pra casa, eu sentia que não fora apenas a guerra que havia acabado mas também uma parte do que eu era antes de chegar à Itália. Por isso é que costumo dizer que cheguei à Itália com 26 anos e voltei com 40, embora lá só ficasse pouco mais de oito meses. Ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles quase nove meses perdi uma parte da minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve."

25 de abril de 2010

Morangos Mofados

"... que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando ..."

Uma luz que não produz sombra


Hoje foi um daqueles dias em que eu fiz tudo o que tinha de fazer, menos o que queria. É difícil conciliar as duas coisas sem causar grandes tremores. O mundo não está preparado pra isso, eu não estou, você nunca esteve, e talvez, nunca esteja. Essa questão de estar, de ser pra sempre também fica com um ponto de interrogação gigante no final. Mas no final do que, se a gente nunca se permitiu começar nada? Se o tempo foi passando, passaram certezas e dúvidas, e nem por isso nos rendemos. Mas exatamente a quê? A pular em um canto qualquer, na escuridão e no silêncio? E se os gritos de choro e desespero vierem depois? E se as lágrimas forem tantas que a gente não se permita nada além de nos afogarmos em nós mesmos? Sempre tivemos medo de tentar, porque na verdade, já sabíamos que amor era essa coisa mesmo. Nosso amor era dúvida eterna, era certeza de que havia aquele lance da melodia perfeita. Letra e música. E o medo de enjoar ou de a música arranhar nos fez apertar no botão de pausa tantas vezes que um dia ele estragou. Aí já era tarde pra tentar aquele que passa a música pra frente, ou pra uma repetição, quem sabe. A nossa música parou. Nós paramos. Mas o mundo continuou girando e nunca ligou pra esses detalhes. O tempo não quer saber se ficou assim, sem ponto final. Ele vai passando e carregando nossas lembranças do passado e do futuro que a gente merecia pra longe. Longe, aqui.

"Entre tanto amor,
entretanto, a dúvida..."

22 de abril de 2010

viu milhões de fotografias...



"Você já olhou para uma foto sua e viu um estranho no fundo ?

Te faz perguntar, quantos estranhos tem uma foto sua ?
Quantos momentos da vida dos outros nós fizemos parte ?
Ou se fomos parte da vida de alguém, quando os sonhos dessa pessoa se tornaram realidade.
Ou se estivemos lá, quando os sonhos delas morreram.
Nós continuamos a tentar nos aproximar ?
Como se fossemos destinados a estar lá.
Ou o tiro nos pegou de surpresa ?
Pense, podemos ser uma grande parte da vida de alguém...
...e nem saber."
- A maior parte da nossa vida, é uma série de imagens.
Elas passam pela gente como cidades numa estrada,
mas algumas vezes, um momento se congela, e algo acontece.
Nós sabemos que esse instante é mais do que uma imagem.
Sabemos que esse momento, e todas as partes dele..
Irão viver para sempre."

19 de abril de 2010

...

É com um aperto no peito de um tamanho que não dá pra explicar que vejo mais um colega partir. E não importa se falávamos vinte quatro horas por dia ou só olá. O que dói é nem poder dizer adeus. A morte ainda me assusta e me revolta. Por quê? Por que uma guria de 20 anos que estava vivendo a sua vida, planejando um futuro, agora não respira mais? E por que um cara com a vida ganha tirou a dela? Quem é responsável por tudo isso? Qual é o sentido de viver?
Fico confusa. Eu só precisava desabar. Só.

18 de abril de 2010

Bola na trave não altera o placar.


Junho quase aí e a Copa do Mundo chegando apressada. Esses eventos são praticamente um revival da minha infância. Futebol é um negócio bonito, né?! O que mais reuniria vinte pessoas, homens, mulheres, crianças, papagaio, cachorro e todas as bugigangas que acompanham partidas de futebol? Uma televisão, cerveja e churrasco. Às vezes parece que essa espera de quatro anos é tudo o que importa. As crianças correndo de um lado pro outro, a corneta barulhenta, os fogos. Ah, os fogos! Geralmente os gritos de gol são seguidos pelos seis, doze, dezoito tiros. Gritar gol é uma terapia. É o que importa, é o prêmio por tanta espera. O problema é quando o grito vem do outro lado. Copa do mundo é mais que rivalidade, não são times, são seleções. E seleções representam o que há de mais forte na nacionalidade de um país. É uma guerra bonita: os tiros são dos fogos de artifício, a disputa não é por território, é pela bola. E se no fim, um lado chora e o outro não, tudo bem. Foi só mais uma batalha, trocam os soldados, as táticas e formações de guerra, e fica tudo bem de novo. É o que dizem os hinos, que convenhamos, são mais executados em campeonatos e copas do que em quaisquer outros lugares. Copa do Mundo é isso: tudo junto numa coisa só. É um Teatro Mágico. Copa, verde, amarelo, azul, Brasil. Sou eu de novo, criança de novo, sou futebol. Quero ouvir muitos gritos e sussurros em frente à televisão. Eu quero gritar mais que ouvir, confesso. Berrar até não ter mais voz. Não ter mais o que gritar.

11 de abril de 2010

Promessas de fusão à frio


Uma mudança e vastos 14 km de distância dos meus pais. Movimento, diferença, falta. Foi por acaso que descobri - tarde ou cedo demais? - que o tamanho da distância não importa. Se não há presença, há falta. Eu, tão segura e autosuficiente que sou - ou que penso que sou - senti falta. Eu queria mais que tudo na vida ouvir aquele boa noite carregado de amor e de "filha, se cuida, tá?". Queria carinho de mãe, abraço de pai. Eu queria as piadas sem graça do meu irmão. Eu queria tudo que sempre tive, só por causa de 14 km. Nessas horas o mundo pára de girar. São os momentos em que a vida grita pra você sobre o que realmente importa. A felicidade clama por companhia, clama por amor puro. Mas a solidão sempre gostou muito de mim, e eu dela. A chuva cai, pára, e eu volto a ser a mesma. A mesma pessoa que esquece de dar o valor às coisas e pessoas certas. Eu prefiro continuar errando... Jogando amor a quem não quer, abraçando quem sempre vai embora, esperando que ele chegue de repente, perdido, sozinho. E eu sempre vou esperar a pessoa errada. E talvez o meu pra sempre não seja feliz, porque eu nunca estive completa... Eu nunca senti que seria feliz durante a eternidade. Eu queria sonhar com finais felizes, mas sempre fico só com a parte dos finais. E é claro, ainda acredito que não há término que não seja doloroso. Até o fim da dor, dói. E continua doendo.. 465, 14, 23, 7, 2005, e eu? O que faço com esse números?

"Se alguém já lhe deu a mão e não pediu mais nada em troca,
pense bem, pois é um dia especial..."

19 de março de 2010

Que seja doce.


E eu sei que enquanto eu tô aqui, parada e pateta, você está por aí, vivendo, esquecendo... Sei também que nossa música já nem toca mais, e quando toca, não é mais nossa. Entendo que já acabou tudo há algum tempo, mas pra você parece ter sido mais fácil aceitar o final. Acho até que foi conveniente demais... Não o culpo por esquecer de mim antes que eu soubesse que já não havia mais nada. Eu culpo o tempo que parece se arrastar desde então. E culpo a mim mesma pela falta de amor. Amor por mim. Eu sei que um dia, qualquer dia, daqui a 25 anos ou cinco meses - isso realmente não importa - a gente vai se esbarrar por alguma rua ou avenida e vai sorrir como se fosse a primeira vez. E talvez isso faça tudo ter valido a pena. Vai ver é esse o sentido...

Já passou,

Agora já passou
Mas foi tão triste que eu não quero nem lembrar
Ver você, ter você
E querer mais de nós dois não tem nada demais
E pensar
Você aparecer
Pela janela tão bonita de manhã
Vem pra mim e não vai mais
Me abraça, me abraça, me abraça
Por tudo que for...

7 de março de 2010

Fim do dia


Esses dias eu conheci uma guria que acreditava no amor. É estranho nesses tempos de cólera saber que há pessoas que ainda acreditam, que ainda amam de verdade. Ela me disse que o amor verdadeiro nunca acaba, que não se torna ódio. Se algo tão bonito conseguiu se tornar esse sentimento tão negativo, não era amor. No máximo uma paixão, uma ilusão de óptica. O ser humano se engana. Ela também me contou que só sabe que foi amor de verdade quando percebe que nunca acabou. Que apesar dos encontros e despedidas, dos beijos e dos ''eu te odeio'' falsos, permanece, indelével. É como um vírus encubado. Não faz mal, não mata. Até que quando desperta, arrasa. E não há antídoto que cure, a não ser o tempo. Muito tempo, uma dose no mínimo quatro vezes maior que a do veneno. Ela dizia que não era justo banalizarmos tanto o amor, nem pensarmos que ele acabou. Me contou que o amor não tinha nada a ver com o coração, não era físico, era questão de alma. Amor era a alma, e sempre foram coisas eternas. Achei muito bonito, então questionei o fato de todos terem alma e nem por isso amarem. Então ela me disse que todo o ser humano tem vida, mas nem por isso a aproveita como poderia. Entendi que temos tudo em nossas mãos, mas por medo, deixamos escorrer por nossos dedos, aos pouquinhos... Vamos ficando sem nada, vazios, ocos. Eu quero minha alma completa, cheia de amor. Mas eu quero amor puro, amor de verdade. Não sei se uma plaquinha de "procura-se amor verdadeiro" adiantaria. Ou sair por aí procurando, descartando, passeando de boca em boca. É uma coisa tão bonita que acho que amor não se procura, ele nos encontra. Ninguém me encontrou. Mas vamos lá, tenho uma vida inteira a minha frente. É muito tempo, e ainda tem muito amor perdido por aí.
E eu conheço essa guria mais do que ninguém. Eu só preciso aprender a amá-la mais do que qualquer coisa.

"Seu coração já bate devagar
está cansado de sofrer
por tanto tempo a esperar
aquele alguém aparecer..."

24 de fevereiro de 2010

Esoterriscos

Hoje me peguei pensando - e realmente pensando muito - sobre o que meu horóscopo dizia. Na verdade, horóscopos, porque eu confesso que sou viciada e olho quatro deles, no mínimo. Fica aí uma coisa que não consigo entender: como pode o universo conspirar para que aconteçam coisas parecidas às pessoas só porque são do signo de Gêmeos? Acreditar em Astrologia é a mesma coisa que tentar entender por que o microondas esquenta tão rápido, o que diabos é ressonância, e como assim essa coisa aí tem moléculas que se mexem? A gente não vê, mas precisa acreditar em algo. Eu me sinto patética por esperar a meia-noite só pra ler aquelas poucas linhas escritas por algum entendido no assunto (como eu posso acreditar em uma pessoa aleatória qualquer?) e me sentir completa. A raiva que sinto quando os servidores não atualizam os sites até às duas da manhã é indescritível. Agora vejamos: como eu, uma pessoa que pensa, acredita nessas coisas? E pior: aceita. É como se o que está escrito acontecesse porque eu fiz força para que assim fosse. Mas se tem algo mais divertido do que olhar o meu próprio horóscopo é olhar o dos outros. Tem coisa melhor do que acreditar que sabe como aquele cara vai agir amanhã, e depois, e depois? Acontece que tem. A melhor coisa ainda é não saber. A dúvida, a incerteza. Fico eu perdida entre astros e fatos, o que escrevem que pode acontecer e o que eu quero que se torne real. No fim, sai tudo diferente do planejado. Sabe por quê? Porque vida não se planeja, amor não se prevê. Porque a graça está em ter esse ponto de interrogação enorme em cima da própria cabeça, esse vazio e aperto no coração, os pontos de interrogação maiores ainda vagando ao redor dos seres humanos que passam por nós, que ficam em nós, que se deixam por aí, que se partem. O melhor da vida é sonhar. E eu tenho esquecido o que é isso. Simplesmente desaprendi como divagar sobre o que quero, sobre o que eu nem quero tanto mas quero e mereço experimentar, divagar só por divagar... E não há justificativa pra isso, porque quem não sonha vive de pesadelos, ou vive de nada. Eu esqueci que a melhor coisa que esse mundo pode oferecer tá dentro da gente: é amor. Amor de todas as formas, por tudo. E eu quero amar muito, amar muitos, amar pouco também. Eu ainda quero acreditar. Eu ainda quero sonhar em ter você e depois em te perder e te ter de novo.
Aos poucos, eu vou deixando de lado essas previsões de gente que nem me conhece e acha que pode falar comigo como se tivesse ouvido o meu primeiro choro... Aos poucos eu volto a acreditar em mim. No que eu quero que aconteça. Porque acima de tudo, a gente tem de querer. E eu quero, muito!


"se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor aguenta o caos
não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer"