31 de maio de 2010

Segunda-feira blues

Tenho tido semanas estranhas, e talvez por isso não tenha escrito nada por aqui. Medo de ser diferente, ou de perceber através das minhas próprias palavras que tudo ficou diferente sim. Comecei a enxergar o mundo sob outra óptica, com outros valores... Sempre tive tantas certezas e de repente me vi entre a obsolescência e o desejo de consumo do novo. Consumi, consumi, enjoei. Como sempre acontece. Eu estou presa no passado, e não há nada que eu faça ou que alguém faça que mude isso. Acostumei com a presença de fantasmas e não sinto mais medo. Muita coisa foi mudando com o tempo e só o que se foi permaneceu intacto. Talvez visto com outro olhar, perfumado e lindo, como nunca foi. Acho que o problema sempre será esse: criar um passado que não existiu, um passado sem defeitos ou mágoas. Qualquer um gostaria de lembrar de algo tão bom assim... Não seria diferente comigo. Acordei em outro lugar, me senti a mesma pessoa. Acordei me procurando e não te encontrei. Talvez eu realmente tenha me perdido por aí. Quem sabe um dia eu me encontre de novo.

"Milhas e milhas eu fui percorrer
Por milhas eu não soube aonde ir
Às vezes não espero me encontrar
Talvez um dia eu te encontre por aí
Ah! eu sinto muito blues..."

21 de maio de 2010

Periférico, por Tati Bernardi

"Pareço um sapo cego dando uma linguada no ar, não vejo o inseto, mas sei que ele está lá. Molho o ar na espera de lamber sua coxa, a pele com menos pêlos atrás do seu joelho. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo perfeito e boquiaberto por causa da barriguinha. Quem sabe descobrir alguma sujeirinha ali no umbigo, um resto de algodão, um resto de salgadinho vagabundo, um resto de prazer. Eu te amava depois do banho, eu te amava indo trabalhar sujo de mim, eu te amava humano e eu te amava, sobretudo, alienígena e com sono de sentir a vida.
Sinto saudades de respirar o mais profundo possível, como já escrevi antes, perto de sua nuca. E descobrir novidades sem nome e sem solução. Sinto saudades de me perder tentando entender de que tanto você sorria, de que tanto você brilhava, de que tanto você se perdia e se escondia.
Peço licença ao meu ódio tão feio e tão infinito para te amar só mais uma vez. Quero te amar sozinha aqui, na minha casa nova, em minha quase nova vida. Quero esquecer todo o nada que você representa e dar contorno aos desenhos que não saem da minha cabeça. Nunca entendi seu coração, nunca entendi seus olhos, nunca entendi suas pernas, mas só por hoje queria poder lamber sua fumaça para que ela permanecesse mais, pesasse mais.
É libertador esquecer meu desejo de vingança, a vontade que tenho de explodir sua vida, o vício que tenho de passar mil vezes por dia, em pensamento, ao seu lado. E pisar em cima da sua inexistência e liberdade. Chega disso, só pelo tempo em que durarem estas letras e a música que coloco para reviver você, vou te amar mais esta vez. Vou me enganar mais uma vez, fingindo que te amo às vezes, como se não te amasse sempre.
Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como podia ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.
Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. Ainda assim, há meses, há séculos que se arrastam deixando tudo adulto demais, morto demais, simples demais, exato e triste demais, eu sinto sua falta com se tivesse perdido meu braço direito.
Esse amor periférico, ainda que não me deixe descoberto o peito, me descobre os buracos. Não são de suas palavras que sinto falta. Não é da sua voz meio burralda e do seu bocejo alto demais para me calar e me implorar menos sentimentos. Não é, tampouco, do seu abraço. Sua presença sempre deixou lacunas e friagens que zumbiam macabramente entre tantas frestas sem encaixe.
Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.
Sinto falta mesmo, para maior desespero e inconformismo do meu coração metido a profundo, de lamber suas coxas, a pele mais lisa atrás dos joelhos. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo, respirar sua nuca, engolir sua simplicidade, me rasgar com sua banalidade, calar sua estupidez, respirar seu ronco, tocar sua inexistência, espirrar com sua fumaça.
Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.
Simplesmente isso. Você, uma pessoa sem poesia, sem dor, sem assunto para agüentar o silêncio, sem alma para agüentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o tempo parasse. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza.
Sinto falta da raiva, disfarçada em desprezo, que você tinha em nunca me fazer feliz, sinto falta da certeza de que tudo estava errado, mas do corpo sem forças para fugir, sinto falta do cheiro de morte que carregávamos enquanto ainda era possível velar seu corpo ao meu lado, sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinto falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, de não dar conta, de não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me reter.
Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de lamber suas coxas, a pele lisa, o joelho, a nuca, o umbigo, a virilha, as sujeiras. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria."

20 de maio de 2010

Nada, nada, nada importa

Sabe o que pensei hoje durante o dia inteiro? Por que é tão fácil falar do defeito dos outros e tão difícil admitir as qualidades? Por que o ser humano é tão promotor dos outros e tão justo consigo? É a velha história de julgar e esquecer que enquanto apontamos os erros alheios, esquecemos dos nossos. Tem gente por aí que sente tesão em destruir a obra de todo mundo, menos a sua. Eu sou uma pessoa que costumava ser extremista, aquelas "ou é oito ou oitenta", mas mudei. Mudei porque percebi que a vida não funciona assim. Que não há nada tão bom nem tão mau. São 360 ângulos diferentes, por que insistir que existe apenas um certo? O mundo precisa de mais elogios, menos críticas destrutivas, mais ajuda. O mundo precisa da gente, de seres, humanos. Falta compreensão. Estamos ficando duros e cruéis demais com a vida. Mas... E se a recíproca se tornar verdadeira?

Mais AMOR, por favor.

9 de maio de 2010

(in)diferença

Um dia desses eu li algo que falava de amor e ódio. E foi uma frase simples e bem direta que me fez pensar a semana inteira... Era mais ou menos assim: "O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença". Nunca algo fez tanto sentido pra mim, foi como se 20 anos da minha vida fossem explicados e finalmente as noites que passei chorando fizessem sentido. Tudo bem quando a gente ainda tem ressentimento por alguém ou por alguma situação, quando a gente sente raiva, amor, alegria, tédio ao ver alguém. O problema é quando já não se sente nada. E agora, com quem eu vou brigar? Com quem eu vou ficar implicando? É amigo, a indiferença é um prato que se come cru. Ser indiferente é simplesmente não ligar, é desprezo, é fazer do outro invisível, um fantasma. E não importa o quanto ele tente chamar atenção, é como se ele não estivesse lá. É a fase final do esquecimento. É a mudança definitiva, é o adeus pra sempre. Não conheço seres humanos que consigam conviver bem com esse sentimento. Quando estamos do outro lado é que percebemos o quanto dói. Machuca de verdade não ser mais nada para alguém. É como se não fôssemos mais nada pra nós mesmos, é um atestado de invisibilidade. E não há histeria que quebre esse pacto individual de silêncio. Não adianta mais gritar, querida, ele já não te ouve mais. É hora de partir.

"No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A GRANDE INDIFERENÇA, ou A grande ausência, ou A grande partida, ou a A grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.Não conseguiu. DESIMPORTOU-SE com aquilo."

7 de maio de 2010

"Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente..."

6 de maio de 2010

Cai a noite sem explicação...

Sinto saudade de escrever coisas boas. Vai ver faltem momentos realmente memoráveis. Ou eu simplesmente deixei de ver esse lado bonito da vida. Mas acho que o primeiro passo é admitir pra si que algo não tá legal. Tem peça faltando, tem gente sobrando, sentimentos transbordando. Tem coisa demais no lugar errado. Há poucas coisas das quais eu me orgulhe, há muitas das quais sinto falta. Preciso de muito de poucos... Esqueci como se gosta sem doer, como se gosta pouco. Esqueci que respirar é fácil, mas querer continuar pode ser uma tarefa árdua quando o ar está cheio de impurezas. Eu tô sem rumo, sem planos, sem sonhos ou ilusões. De tanto ser racional o tempo todo, agora choro por ser emotiva demais. Choro por levar tudo muito a sério, por ouvir palavras que machucam e não deveriam. Choro por ter pensado demais. É que depois de tantos questionamentos, viver não faz mais tanto sentido. Eu esqueci de viver enquanto ficava calculando as probabilidades de tudo dar errado. E deu. Me arrependo amargamente por não ter levado a sério coisas e pessoas que agora fazem falta. E falta a gente não preenche, falta é vazio, é cada vez mais oco. Eu nunca soube demonstrar amor. Eu só sei escrever. E tem muita gente cega por aí, o que abala profundamente o único meio em que sou transparente, onde sou inteira, não metade. É aqui que eu abro minha alma pra quem quiser ver. Eu nunca tive vergonha de sentir, mas eu sinto vergonha por não me permitir. E quando a gente não se permite, a gente fecha a porta. E com a porta fechada, ninguém entra.


Deixava aquela música invadir a sala
Pra preencher o espaço que você deixou
Quem sabe você volta
Até a música parar

4 de maio de 2010

5 anos...

"Se me virar do avesso quem sabe, mas está aí, tudo aquilo que um dia eu não vou dizer... Um modo que eu espero um dia não sentir. Eu cobri meu coração e joguei fora alguns dos meus sentimentos antes mesmo que eles trouxessem mais alguma dúvida. É esse o mais novo e bem elaborado kit de salvamento, criado logicamente por mim. E para evitar que venham citar o teor de ceticismo e frieza contida na estratégia eu apresento o outro lado da moeda. Todo o histórico vivido e que me fez chegar até aí. São algumas porções de passos em falso. São situações e mais situações de dedicação jogadas no lixo. Foram esperas, idas e vindas, traições, contas telefônicas, ciúmes, falhas, mentiras, paciência, prazos, calmantes, choro, tempo. Enfim, todo o cápitulo 8, intitulado "relacionamentos amorosos", da minha auto biografia. A minha doce tragédia que com muito esforço, hoje, não se cria mais aqui. As raízes foram arrancadas por calos muito bem desenvolvidos. Mesmo ciente da minha vulnerabilidade diante do acaso, do destino, do futuro eu tomo a minha dose diária de prevenção quando me desprendo das expectativas de um grande e verdadeiro amor. Eu deixo o tema aí disponível para os grandes romancistas e músicos, enquanto na trilha sonora da minha vida eu controlo cada verso ou tom. E se eu te falasse que a imagem no espelho não é a de uma pessoa amarga, você com certeza marcaria a opção "a", em que diz "afirmação falsa". Eu continuo a viver com paixão, no entanto com muito mais equilíbrio nessa nova composição. Eu continuo achando algumas pessoas interessantes, porém não fico mais idealizando a performance delas na minha vida. Eu continuo tendo a certeza de que quero dividir a minha velhice com alguém especial, mas até então eu acho perfeita a forma como me ajeito sozinha naquela cama de casal. A definição do que é o amor, hoje, pra mim, sofreu grandes trasnformações. Já não perco mais tanto tempo em prol dele e menos ainda engulo sapos, jacarés e até os grandes dinossauros pelo receio de ficar pra titia. Eu não me tornei um ser independente do calor, dos carinhos, daquilo que possa parecer romântico, eu simplesmente parei de agir com tanta devoção. Estou aí no campo. Exposta e aberta. Mas também atenta e com quantos pés no chão forem precisos, nem que pra isso eu precise utilizar os teus. Agora eu consigo trabalhar com a idéia de que as "coisas" podem e talvez até devam ter o seu tempo determinado. E que EU sim, preciso viver feliz pra sempre, até que a morte ME separe. Logo, não precisas desistir da idéia de tentar me seduzir. Mas cuidado para não se apaixonar. Você pode não fazer parte dos meus planos naquele momento. Esteja certo de que quer encarar. O relacionamento que tenho comigo mesma agora é algo inabalável. Você precisará de muita força. Boa sorte!"