24 de junho de 2010

Learn to fly

É engraçado como a raiva deixa as pessoas, aparentemente, mais fortes. Aparentemente a gente vai levantar a bundinha da cama, arranjar alguma bandeira por aí e gritar bem alto: "independência ou morte"!!! Mas independência de quê? Trocar aquelas pernas que esquentavam os pés em cinco segundos por meias? Aquele corpo tão mas tão quente que parecia queimar de tanto amor por uma mantinha anti-alérgica comprada naquela loja em promoção? É amiga, amor não se encontra em liquidação. Não vende em banquinha de camelô. E independência a gente conquista, por nós mesmos. Não é alguém que aparece e nos tira a liberdade, é a gente que vai entrando no quartinho escuro e deixa o vento fechar a porta. Não estar mais com ele não é status de pessoa feliz, bem resolvida, livre e pronta pra percorrer os cinco continentes sem parar. As músicas que lembravam o quanto vocês se necessitavam vão continuar tocando e agora vão só lembrar "aquele desgraçado que um dia esqueceu de me amar". Perdoe. As pessoas um dia não sentem mais nada. Não há um ciclo lunar ou um feriado no calendário que corresponda às necessidades e conveniências dos dois. Um dia acaba. Aceite. Sentir raiva não vai te deixar mais forte, vai te fazer uma pessoa mais dura e injusta com o resto do mundo que não tinha nada a ver com isso. Esqueça. E lembre-se de não generalizar: não são todos iguais. Ao contrário do que você está pensando nesse momento. Se fossem todos cópias você não estaria chorando jogada no quarto ao som de Los Hermanos por mais um adeus não consentido. A graça da vida está em superar. Desafios, obstáculos, imperfeições, amores findados. Superar você mesmo e essa mania de achar que hoje é o fim do mundo. Não é. Até essa dor que parece maior que todas as galáxias que existem, que te corrói o corpo como se fosse um verme sedento por carne podre e abatida, que grita de dentro pra fora da alma, que faz o coração bater tão devagarzinho que parece que vai parar pra sempre, passa. Passa, e no fundo você sabe disso. Só precisa de uma semana de apocalipse pra ressurgir mais forte e soprando cinzas pra todos os lados. É a tempestade indo escurecer a vida de outros e o arco-íris surgindo junto com os passarinhos felizes (aqueles da branca de neve) e todo aquele faz de conta e promessas de final feliz. E lá vamos nós, voando por ares desconhecidos, planando, planando, até encontrarmos um novo porto e nos jogarmos lá de cima em um vôo suicida com escalas na paixão, no amor, e destino certo: o fim.


"Tenho uma parte que acredita em finais felizes.
Em beijo antes dos créditos, enquanto
outra acha que só se ama errado".

22 de junho de 2010

"E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu."

17 de junho de 2010

21 carnavais, 10 mil fantasias

Passaram-se 21 anos. E eu aqui. A mesma Jéssica de sempre, um pouco mais esperta, um pouco mais burra, inocente, sincera, talvez. Sinto que fui mudando pra voltar a ser o que era. Um ciclo que sempre volta para o início. Não tenho grandes ambições, não faço mais listas nem promessas. Não cumprí-las só me deixava com medo de não estar vivendo. A vida passava e eu sentia medo de deixá-la passar. Acho que finalmente entendi que passa. Não importa se estamos tristes ou soltando fogos de artifício, ela passa. Então eu choro e sorrio sem medo de estar perdendo tempo. Eu me deixo livre pra gritar ou pra sussurrar. Cansei de ficar me censurando. Se eu quero chorar, choro. E isso não significa que eu esteja mais sensível ou minha vida não esteja boa. Pelo contrário, a gente precisa surtar pra não enlouquecer. A gente precisa se permitir sentir. E se tem algo que eu faço mais que pensar é sentir. E eu sinto muito, blues. Meu único desejo é que eu possa viver muito, porque viver é o máximo que eu posso pedir. E a vida foi a melhor coisa que aconteceu comigo.

16 de junho de 2010

Ryszard Kapuściński

"Quiero subrayar esta idea: en nuestra profesion, el éxito se basa en mantener dos talleres. Es decir, en tener una doble vida, vivir en estado de esquizofrenia: ser un corresponsal de agencia - o un redactor de periódico - que cumple órdenes, y guardar, en algun pequeño lugar del corazón y de la mente, algo para sí, para la propia identidad, para las ambiciones personales".

14 de junho de 2010

Xadrez listrado branco e preto


Uma professora, no departamento de Jornalismo, que pede para o aluno seguir alguém e escrever uma crônica só pode ser inesquecível. Grande Aglair. Lá vai:

Até onde eu seguiria alguém? Até onde seria preciso acompanhar os passos de um ser humano pra que eu pudesse fazer parte da vida dele em silêncio? Meus passos aflitos e curtos me denunciavam. Lá estava ela, a escolhida. Entre idas e vindas, chegadas e partidas, eu encontrei a mulher desconhecida que faria parte da minha história, e que nunca saberia disso. Era boa a sensação de ser invisível, e, de alguma forma, ser sombra. Um casaco branco e preto, a primeira vista, não sabia se xadrez ou listrado. Mas, que diferença faria? Toda. Se fosse xadrez, ela seria meiga, apaixonada, acreditaria em príncipe encantado. Se fossem apenas listras, ela não teria porto, andaria pelo mundo a procura de ela nem sabe o que, só a procura de algo sem nada dentro. Caminhei apressada: era listrada. Eu sabia que o fim da nossa ligação estaria próximo, ela era daquelas que passam, não ficam. Ela queria o mundo e eu só precisava da sombra dela. Colocava os cabelos atrás das orelhas, aflita, apressada, com pressa de viver toda a sua vida em um minuto. Idade? Seu corpo denunciava uns 33 anos, mas ela tinha alma de menina errante. Tinha passos tortos e sinuosos. Linhas retas, pra ela, já bastavam as do casaco branco e preto. Era um sobretudo discreto, neutro, típico de quem quer passar sem ser notado. Mas os sapatos. Ah os sapatos!!! Eram cor de céu, cor de algodão doce. Eram cor de menina, cor de liberdade. Atravessamos a rua juntas. Entramos na farmácia juntas. Ainda me pergunto por que uma menina que quer o mundo precisaria de pincéis. Vai ver fosse pra pintar um arco-íris. O moço da loja disse que era o melhor pincel, fazia as sombras ficarem perfeitas. Mas onde já se viu sombra pintada, sombras perfeitas? Ela viu. Ela quis o arco-íris e eu só quis a imaginação dela. Éramos colegas. Só faltava uma coisa pra nos tornarmos amigas: que eu já não reparasse em nada. Foi aqui que começamos a nos perder. Ela subindo a rua, com o mesmo passo apressado, mas já nem tão aflito. Eu virando a esquina, descendo, descendo, descendo. Aos poucos a gente foi se afastando, não havia mais sombras. Sobravam a distância e a ausência. Sobrava eu e ela. Ela se foi, dona de si, sobretudo. Era o sobretudo branco e preto xadrez e listrado e todas as cores do mundo se despedindo, dizendo até mais. E só eu sabia que era adeus. Agora eu não tinha mais sombras pra seguir. Era a minha que me seguia. E isso me aflige. Essa perseguição enquanto há vida, de mim por mim, a perseguição de ser o que a gente quer, ou o que deveríamos ser. Às vezes eu só queria não me perseguir. Eu só queria me perder de mim e não sentir falta. Ou me sentir livre. Ou ser livre. Ou simplesmente sentir.


"Há mais de mil destinos na esquina
outras vidas esperando em cada esquina..."

10 de junho de 2010

de outros carnavais, com outras fantasias


Passaram-se 365 dias tão rápidos quanto a nossa história. Começou com muito e acabou sem nada. Faz um ano que tu te tornaste a pessoa mais especial que eu permiti que vasculhasse meu coração. Tu foste a única pessoa pra quem eu deixei minha alma exposta. Nunca vou entender por que sumiste, e se esse foi o melhor caminho. Sim, eu pedi que tu desapareceste da minha vida, mas nem assim era ódio. Eu só queria um tempo da tua presença, já que ela era mais real aqui dentro do que jamais fora. Ter de falar tudo nas entrelinhas só deixa o que escrevo com maior intensidade, com verdade e com tudo o que a gente foi. Jamais me conformei com esse terremoto e a falta da paz no final. Eu nunca imaginei que fosse sentir tanta falta. Não sei exatamente do que, mas eu sinto que foste a pessoa mais especial que já passou - e ficou - na minha vida. Não fizeste nada de especial pra isso, eu sei. Mas essas coisas a gente não escolhe, não é questão de pesar na balança, de medir, de catalogar, de definir. Acredito que o não saber sempre tornou tudo mais especial do que era. O não poder te transformou em tudo o que eu mais queria. O não ser só criou correntes cada vez mais tenras. Sempre foi difícil pensar em te esquecer. Ainda não descobri se dói mais apagar tudo ou reviver o que foi todos os dias. A nossa música nem nossa é mais, mas continua tocando. A porta ficou aberta, e eu confesso, tenho medo que outra pessoa tente entrar... Hoje sou cercada de muros e grades. Eu vivo em um campo de concentração onde vou guiando todos que chegam para a câmara de gás. Eu vou matando qualquer pedacinho de amor que tente nascer em mim. Eu sempre quis só aquele amor, eu sempre quis você. Eu perdi as chaves no meio do caminho, eu perdi o medo de que jamais fosse real. E se um dia a gente se encontrasse entre a Joaquina e o Morro das Pedras? Mas... E se a gente se perdesse? E se fosse tão longe e tão cansativo que a gente desistisse? Eu caminhei tanto tanto, eu atravessei meus medos, eu me vi perdida em um lugar desconhecido, eu me senti segura quando tu me deste a mão. Foi ali, há três anos, que eu me liguei pra sempre em ti. E se há algo que eu nunca vou perdoar é o teu silêncio. Eu nunca vou te perdoar por ter ido embora, por ter dito até mais sabendo que era adeus. Lembra da champanhe? Tu guardaste na estante e eu me embriaguei escondida. Era amor que eu tinha receio de mostrar, e mostrava. Mostrava enquanto estava escuro, enquanto tocava piano bar. Mas a música era alta demais, triste demais, verdadeira demais para o que éramos. Se a gente um dia foi algo, foi amor. Eu continuo sendo... Você simplesmente se foi. Hoje é brisa, é passado, é tempestade.

"Alguém que parte não volta..."

8 de junho de 2010

Outra vez

Um dia eu quis te entender, quis te julgar, te odiar, te esquecer. Mas aí eu cansei de ficar rodando em círculos, porque desse jeito nunca acabaria. Eu sabia que nunca fui entendida, sabia que eu era um ponto de interrogação, mas e nós? Éramos só reticências. Você? Eu nunca soube o que você foi. Talvez uma lembrança ou bem mais que isso. Às vezes eu paro de pensar nos poucos momentos bons e entendo porque nunca teria dado certo. E é muito mais que distância física. É distância de verdade mesmo. No fundo eu sei que a gente nunca se deixou tocar... Era a necessidade de sentir o vento batendo no peito. Só que agora o vento começou a congelar o coração. Agora não tem mais o que proteja. É nudez completa, é madrugada, é adeus. É o choro de luto pelo que a gente deixou morrer. É meu vestido preto e o teu coração de pedra. É uma carta que eu nunca enviei e aquela que jamais chegou. Foi o fim sem despedida. Foi um filme de guerra sem canção de amor.

"Ontem à noite, a noite tava fria
Tudo queimava, mais nada aquecia
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão"