14 de junho de 2010

Xadrez listrado branco e preto


Uma professora, no departamento de Jornalismo, que pede para o aluno seguir alguém e escrever uma crônica só pode ser inesquecível. Grande Aglair. Lá vai:

Até onde eu seguiria alguém? Até onde seria preciso acompanhar os passos de um ser humano pra que eu pudesse fazer parte da vida dele em silêncio? Meus passos aflitos e curtos me denunciavam. Lá estava ela, a escolhida. Entre idas e vindas, chegadas e partidas, eu encontrei a mulher desconhecida que faria parte da minha história, e que nunca saberia disso. Era boa a sensação de ser invisível, e, de alguma forma, ser sombra. Um casaco branco e preto, a primeira vista, não sabia se xadrez ou listrado. Mas, que diferença faria? Toda. Se fosse xadrez, ela seria meiga, apaixonada, acreditaria em príncipe encantado. Se fossem apenas listras, ela não teria porto, andaria pelo mundo a procura de ela nem sabe o que, só a procura de algo sem nada dentro. Caminhei apressada: era listrada. Eu sabia que o fim da nossa ligação estaria próximo, ela era daquelas que passam, não ficam. Ela queria o mundo e eu só precisava da sombra dela. Colocava os cabelos atrás das orelhas, aflita, apressada, com pressa de viver toda a sua vida em um minuto. Idade? Seu corpo denunciava uns 33 anos, mas ela tinha alma de menina errante. Tinha passos tortos e sinuosos. Linhas retas, pra ela, já bastavam as do casaco branco e preto. Era um sobretudo discreto, neutro, típico de quem quer passar sem ser notado. Mas os sapatos. Ah os sapatos!!! Eram cor de céu, cor de algodão doce. Eram cor de menina, cor de liberdade. Atravessamos a rua juntas. Entramos na farmácia juntas. Ainda me pergunto por que uma menina que quer o mundo precisaria de pincéis. Vai ver fosse pra pintar um arco-íris. O moço da loja disse que era o melhor pincel, fazia as sombras ficarem perfeitas. Mas onde já se viu sombra pintada, sombras perfeitas? Ela viu. Ela quis o arco-íris e eu só quis a imaginação dela. Éramos colegas. Só faltava uma coisa pra nos tornarmos amigas: que eu já não reparasse em nada. Foi aqui que começamos a nos perder. Ela subindo a rua, com o mesmo passo apressado, mas já nem tão aflito. Eu virando a esquina, descendo, descendo, descendo. Aos poucos a gente foi se afastando, não havia mais sombras. Sobravam a distância e a ausência. Sobrava eu e ela. Ela se foi, dona de si, sobretudo. Era o sobretudo branco e preto xadrez e listrado e todas as cores do mundo se despedindo, dizendo até mais. E só eu sabia que era adeus. Agora eu não tinha mais sombras pra seguir. Era a minha que me seguia. E isso me aflige. Essa perseguição enquanto há vida, de mim por mim, a perseguição de ser o que a gente quer, ou o que deveríamos ser. Às vezes eu só queria não me perseguir. Eu só queria me perder de mim e não sentir falta. Ou me sentir livre. Ou ser livre. Ou simplesmente sentir.


"Há mais de mil destinos na esquina
outras vidas esperando em cada esquina..."

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