16 de agosto de 2010

Mundo mudo

Desafio. Tá aí uma palavra que me desperta um tesão gigante, capaz até de ganhar de uma panela de brigadeiro. Desde que eu era um projeto de gente, gostava de tudo o que nunca havia feito. Isso incluía queimar meus dedinhos no ferro de passar roupas, comer ração de cachorro e até experimentar as delícias da culinária baseada em areia e mato. Tudo que é novo me excita. O desconhecido sempre me pareceu eterno, sem fim, sabe? De vez em quando, arrisco tentar reexperimentar coisas que odeio. Mostarda, café com leite, nescau. Já tentei de tudo. Às vezes dá certo. Mas confesso que na maioria das tentativas é frustrante a ideia de que se não é mais novo, não tem graça nem qualquer chance de mudança. A mostarda será sempre aquela gosma amarela com cor de excremento de bebê. Quando não dá certo, eu parto para ações mais concretas e desafiadoras. Tipo? Pintar a unha de azul e achar normal. Escrever uma matéria sobre uma partida de futebol - forçada, mas nem por isso, com menos tesão -, acompanhar um processo durante meses esperando que se torne público, pegar ônibus diferentes só pra alterar o itinerário. Parece besta, mas considero qualquer tipo de mudança a final do campeonato mundial de qualquer esporte. Não importa. É extremamente difícil conhecer o novo, ou reconhecer o velho como a maior novidade do ano. Seres humanos são troféus de ouro pra quem gosta do desconhecido. Vejo por mim, que há 21 anos convivo comigo e não faço ideia de quem sou. Não falo em conhecer 123 pessoas por dia. Prefiro conhecer 123 vezes as mesmas pessoas todos os dias. Tem gente que supera expectativas e comete deslizes que fazem com que eu espatife com a cara no chão. Seres completamente mutáveis que se adaptam ao ambiente exterior a cada 123 segundos assustam. Eu fico apavorada com alienígenas. Não sou a pessoa mais normal do mundo, tenho manias estranhas e inconstâncias bem temerosas, às vezes. A diferença, é que eu tento não ferir as pessoas quando crescem espinhos. Bem diferente de algumas flores que andam por aí machucando qualquer espécime mais sensível que apareça.Um dia as pétalas macias e coloridas caem e morrem. Os espinhos ficam. As feridas também.

Derrubem velhos muros.
Construam novos ideais.

6 de agosto de 2010

fim do dia

Olhando esse pôr-do-sol que mais parece uma daquelas pinturas abstratas que a gente fica observando e não entende nada, pensei como eu falo mal do amor. Em anos escrevendo em blogs que já morreram ou se perderam pelo ciberespaço, nunca deixei subentendido que o amor era lindo. Nas entrelinhas, por trás de toda dor e lamúrias, eu acho sim o amor a coisa mais linda que pode acontecer na vida de um ser humano. O problema é que não consigo escrever a parte boa de nada. Como se o que fosse perfeito não merecesse minha atenção nem a de ninguém que tenta me ler por aqui. E não merece. Não nasci pra pensar sobre coisas boas nem pra descrever quão lindo é o céu todo colorido, os passarinhos cantando ou o som do mar. Eu gosto de falar da tempestade, da catástrofe, do que é intenso e dá medo. Gosto de incêndio e do fim do mundo. Não sou uma boa escritora. Não consigo falar de tudo, ou talvez não fale porque simplesmente me dou  o direito de não tentar. Nunca tive pretensão alguma com essas frases - clichês ou não - que ficam perdidas e que às vezes encontram alguém. Que bom que encontram, mas se sumirem eu também não me importo. Ficar apegada a textos já não faz mais sentido e nem parte de mim. O que é necessário ser lembrado fica aqui dentro, e não em meio às palavras. Não tenho foco, não penso no fim dos textos, no fim de nada. O céu já tá escurecendo e eu prefiro os faróis dos carros me cegando e todo esse barulho a poluição o escuro, e no fim silêncio. Silêncio silêncio silêncio e a tua voz ensurdecedora. Escrevi tudo isso pra concluir que ainda não te esqueci.

3 de agosto de 2010

Eu acho que...

Faz tanto tempo que eu já não sei como é não ter ninguém aqui dentro. Sobre o que eu vou escrever agora? Sobre o que eu vou sentir? Pra quem eu vou sofrer? Com quem eu vou sonhar? Tá certo que você sempre foi mais pesadelo que um conto de fadas, mas agora você saiu daqui pra sempre e não tô vendo nenhum outro príncipe encantado galopando no cavalo branco. Eu sei que preciso de um tempo vazia de tudo, mas cansa. Um dia e eu já cansei de não ser de ninguém. Ou de me sentir de alguém. Desculpa se decepcionei quem achou que agora eu daria um sorriso e seria feliz pra sempre. Não é que eu precise de alguém ou não me sinta completa, é que eu gosto do que acrescenta. Gosto quando transborda. Eu acho que nasci pra sofrer por amor e deixar tudo escrito por aí de uma forma mais bonita e dolorosa do que realmente foi. Essa mania de aumentar e diminuir. É que o extremo sempre foi mais verdadeiro e compreensível. Eu leio algumas páginas de um livro e não penso mais em ninguém. Eu ouço uma música e sei lá, parece um ruído qualquer que a gente ouve todos os dias em qualquer lugar. Parece que tudo virou qualquer coisa. Descobri que é tão bom ter motivos pra não esquecer. É quase como meditar eternamente. Viciei no que é latente, no que dói dói dói sem parar. É o costume da vida que não gira, mas que oscila de um lado pro outro sempre voltando pro mesmo lugar. Só que agora o mesmo lugar não tem mais você. Sou só eu. Indo e voltando de um lado pro outro. Variando variando e parando no mesmo lugar. Só que dessa vez a inércia foi desbancada pelo teu adeus e o meu amor que se foi. Desafiando todas as leis que regem meu modo de amar e ser amada, eu te deixei pra sempre. Só que a minha oscilação entrou num caos total, resistindo a qualquer força que tente fazer meu pêndulo parar.

‎"Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exata."