20 de setembro de 2010

Eliane Brum, a contadora de histórias

Vestida com um macacão jeans desbotado e calçando sapatinhos de boneca, Eliane Brum mostrou na 9ª Semana do Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que simplicidade e sensibilidade são características essenciais em um bom jornalista. A escritora, documentarista e jornalista, subiu ao palco um pouco nervosa, tremendo as mãos como se aquela fosse sua primeira vez em público. Como repórter, recebeu mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo, por que estaria nervosa em frente a estudantes que ainda nem se formaram?
Enquanto virava as páginas com anotações que carregava em mãos para não esquecer nada – ela vive esquecendo – durante a palestra que mais parecia uma contação de estórias, o auditório a olhava atentamente. Aos poucos, os estudantes que ali estavam começaram a entrar no mundo de Eliane Brum, um mundo que era real, por mais parecido com um romance que pudesse ser. Eliane falava sobre o olhar e as pessoas invisíveis. Com tristeza na voz, ao mesmo tempo tão suave, ela abriu seu livro de histórias para cerca de 100 pares de olhos fixos em apenas um.
“O assassinato dos visíveis é uma matéria com direito à manchete, o dos visíveis vira estatística”. Jorge Luiz, o comedor de vidros de Porto Alegre, era desses fantasmas urbanos. Seu nome artístico era homem de aço, mas agora, o homem de aço chorava. A jornalista questionava: “que mundo era esse em que um homem comendo vidro não era mais espanto”? O comedor de vidro era só mais um no meio da multidão que descobrira a maior das dores, a da invisibilidade.
Já Eva Rodrigues, portadora de deficiências físicas desde bebê, sentia a dor daquilo que viam nela. “Eu não sou coitada”, bradava. A violência contra ela, segundo Eliane Brum, é não enxergarem tudo o que ela é. A jornalista observava Eva, que ao devolver o olhar, expunha a deformidade invisível nos outros.
O tempo passava e a plateia parecia pedir mais histórias. Os estudantes queriam mais verdade. Eliane atendia. Dessa vez, era o gaúcho do cavalo de pau. Vanderlei, rotulado como louco em um mundo em que é preciso catalogar, desfilava todos os anos com seu cabo de vassoura como se fosse o mais belo cavalo da Expointer do Rio Grande do Sul. E era. “Eu não tenho dinheiro para comprar o animal, então finjo que esse é meu cavalo e todos me deixam desfilar por aqui. Não é muito melhor assim?”, contava Vanderlei. Esse era o homem chamado de louco.
Ao falar de uma geração que morre antes dos 20 e dessas mães, as “mães de bandido”, que não tem nome, nem chance, nem nada, a escritora alerta para o olhar superficial da maioria das pessoas e da dor que sentem. “É uma inversão da lógica. É uma dor tão impossível que não tem nome. Elas não são viúvas nem órfãs. São mães que enterraram seus filhos”. Eliane Brum contou a história de uma dessas mães que começou a pagar o caixão de seu filho quando ele recebeu o primeiro tiro. Conclui dizendo como podemos alterar nosso olhar e o dos outros. “Ao desordenar o jeito dado de olhar, subverter o foco, é possível mudar o jeito de enxergar o mundo e de aproximar as pessoas”.
Eliane Brum queria que a plateia entendesse também a importância de escutar. O quanto é importante ouvir em uma época em que as pessoas não se entendem, e o quanto isso se torna muito mais grave quando não acontece no jornalismo. Ela tentava mostrar que o mundo é muito mais complexo do que aspas em série podem explicar. “Estamos em um lugar cheio de gestos, de cores, texturas, detalhes, sutilezas que a gente só enxerga pessoalmente”. Eliane Brum não usa telefone para entrevistar, ela estima pela precisão, pelo uso da palavra exata. “A gente tá dizendo para o leitor que estivemos em um lugar em que ele não pôde estar. O telefone não é eficiente ao ponto de nos transportar para o local do fato”, complementou.
A documentarista exemplificava histórias reais que podem ser contadas por perspectivas consideradas inusitadas. Por alguns minutos, o auditório foi transportado para Brasilândia, um distrito de São Paulo. Lá, os cachorros eram tratados como gente e refletiam a hierarquia com que os moradores conviviam. Eliane Brum contava a história de uma rua, a delicadeza apesar da brutalidade, por meio de cachorros, que lá, eram tratados como gente. Piti, o virgem; Fany, a ruiva e Requenguela, o príncipe. Personagens que representavam os moradores, o tráfico e os privilégios da Brasilândia.
O momento da palestra em que a jornalista encheu os olhos de lágrima foi quando contou sua experiência hospedada em um asilo muito antigo, que de acordo com ela, “reproduzia a sociedade lá fora”. Os hóspedes variavam de pessoas muito pobres a muito ricas, e sabiam que estavam ali porque ninguém mais queria ouvi-los. Mas o que mais deixou Eliane triste não foi a experiência, mas a reação dos idosos ao lerem a reportagem publicada. “Eu invadi o mundo deles, tinha a obrigação de contar para essas pessoas o que eu estava fazendo, por que estava ali, contar o que poderia acontecer quando a matéria fosse lida”. Ela admite que cometeu um grande erro e que qualquer falha é irreparável. Eliane ligou para a “Casa dos velhos” para se desculpar, mas até hoje, não teve coragem de voltar lá pessoalmente.
Nos momentos finais, a jornalista falou da morte. Da dificuldade em contar a história de alguém que jamais leria sua vida, de criar vínculo com quem sabia que iria perder. Eliane ressalta aqui, a importância de preservar a história com uma escuta extremamente cuidadosa, uma escuta que não interfere. “Só pude descobrir que ela falava apenas da vida porque nunca perguntei da morte”. No primeiro contato com a paciente com câncer terminal, Ailce de Oliveira Souza, a repórter pediu que contasse o que quisesse da sua vida.“Por onde as pessoas começam a contar uma história já é uma informação”, explicou Brum. Para ela, às vezes o silêncio é mais valioso e permite que contem mais.
Já sem papéis na mão e à vontade com o público, Eliane respondia às perguntas dos curiosos da plateia. E ensinava. Como aprender a enxergar? Pacientemente, a repórter pedia que os futuros jornalistas duvidassem. De tudo. Que atravessassem a rua e enxergassem os fatos por várias perspectivas. A autora de O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real deu uma lição de como fazer jornalismo. Entre seus últimos conselhos, estavam sair da zona de conforto, lutar contra a repetição, reinventar.
Ao ser questionada sobre a escolha do jornalismo como profissão, surpreendeu mais uma vez. “O jornalismo me deu a desculpa para entrar, perguntar e entender o que faz aquelas pessoas rirem, chorarem. Descobrir o que dá sentido à vida”. Por fim, sobre os prazeres da profissão, Eliane Brum foi direta. “O grande prazer em ser repórter é não saber o que vai acontecer quando virar a esquina”. Parece que o nervosismo no início era só o medo de esquecer mesmo.

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