19 de dezembro de 2010

Enfim dezembro



Enfim dezembro anuncia o fim do velho e o início do que é novo. É o olhar pra trás e a vontade de passado, mas de futuro também. É o divisor de águas: o fim de um ciclo e o início de outro. É um amor que acaba, e outro que começa. É o que terminou e tem uma nova chance de existir. É o paradoxo eterno, a linha tênue entre amor e ódio. Entre o que foi e o que será. Entre você e seu passado. Entre a luz e a escuridão. Entre o vazio e a alma. Enfim dezembro é assim, uma viagem entre os abismos e o adeus. Entre o perecível e o eterno. É o tempo que passa apressado enquanto a gente tenta encontrar um sentido. São os estilhaços da alma perdidos por aí. As dúvidas, os medos. É um álbum que fala de amor.

Entre teus dedos lembra o amor mais puro que conhecemos durante toda a vida: o de mãe e filho. É o tocar de dedos após o parto, é a luz da sala cirúrgica, são os raios de sol anunciando uma nova vida. É o eterno lar: o coração de mãe. É o porto seguro, é o maior amor do mundo. É pra onde a gente corre quando tem medo, é o que a gente tem mais medo de perder.

Além de mim fala do perder. Perder alguém, perder-se de si mesmo. Fala do esquecer, do fim. O final que nunca vem, as reticências eternas. É o amor que nunca morre, é o tentar enganar-se. “Era só apenas um grande amor” é a tentativa de fingir que dá pra seguir a vida sem um pedaço da alma. É de novo a luta entre o lembrar e o esquecer. Um relacionamento que morreu, mas um amor indestrutível. É tentar encontrar outra pessoa igual e nunca conseguir. É a busca pelos pontos finais, é o encontro com as vírgulas. É o tempo passando, o amor permanecendo, a esperança se esvaindo e a certeza de sempre estar lá quando uma parte da sua alma voltar. Se voltar...

A briga novamente entre o que se quer e o que se pode ter. Duas vezes dá a sensação de que só quem é louco ama de verdade. E questiona incessantemente: “quantas vezes você amou alguém com todo o seu coração?”. É uma provocação. Vale amar e ser louco? Vale continuar amando com o coração despedaçado? É possível evitar o amor? É o questionamento que permeia a vida de qualquer ser humano. O amor acontece mais de uma vez? Eu já amei? Duas vezes é a dúvida.

Sem você carrega uma mágoa. Um peso, a tentativa de enfrentar um temporal e a falha. Algo que acabou, mas não teve fim. Ficou pela metade. A revolta. Mas é também a conformação. A certeza de que foi único, de que seguir em frente sem aquele alguém é apenas remar contra a corrente. É respirar e esquecer como era suspirar pela vida. É o vazio escuro, o vácuo, a lágrima caída. São as tentativas e as derrotas.

Quando a chuva cai anuncia mais uma vez o fim. O fim sem o desfecho. O que ficou pela metade, a chuva que permanece trazendo lembranças. O silêncio ensurdecedor. As lágrimas que se confundem com as gotas da chuva. É a chuva que sempre vai cair, o amor que sempre vai existir, o fim. O sol que desaparece quando as nuvens se formam, é a loucura permitida, a insensatez. O medo do mesmo. O ciclo da vida. O fim da canção.

Nós. A clássica declaração de amor. Alguns acordes simples, o amor cru. A distância que faz esquecer, as imagens do passado, as velhas memórias, a nostalgia. A simplicidade do amor. As simplicidades da vida. A vontade de passado, a amnésia do presente. Quando dois eram um só. Quando um nome ao lado do outro era tudo.

Outra vez o amor. Porque ninguém cansa de tentar amar. As desculpas que não foram aceitas, o não se conformar. A autosabotagem de um relacionamento. A vontade insuportável de pôr pontos finais antes da hora. O amor se foi de novo. O coração permaneceu. Destroçado. Pronto pra amar mais uma vez.

A primavera que termina e o verão que chega. O ciclo de novo, a síntese do álbum. Dezembro fala do ano que passou de novo rápido demais. Da falta de tempo para as coisas simples. Do tempo que a gente perde tentando ser feliz, quando a felicidade tá aí, estampada todos os dias diante dos nossos olhos. A urgência que nos tira os momentos mais bonitos, das histórias mais banais. A perda de importância do ouvir. Fala também da necessidade de se estar com pessoas diferentes. De ser diferente, da física, do polo oposto que se atrai. Da balança do amor e do ódio. A diferença que une, a busca e a exigência da felicidade. Do direito que temos de chorar e de doer. De não estar sempre bem e ter de fingir. Dos sorrisos de plástico.

Quase. O que quase deu certo, o quase relacionamento, a quase felicidade, o quase sempre, o quase amor. O quase fim. A imperfeição do ser humano diante do amor. A partida, o até mais que se transformou no adeus. Ainda no primeiro minuto da canção, uma pausa. O silêncio. Como se a música terminasse ali. Como se o amor tivesse enfim acabado. Mas apenas quase. A canção continua. Inabalável. É o medo de perder, o medo novamente do final. É o céu cinzento, a solidão insuportável. É não se acostumar com o que quase deu certo. É não querer nem aceitar quases. É quase enlouquecer, quase desesperar, quase desistir. É a certeza de que o outro também não aceitou. É a espera eterna de quases e metades, e a certeza de que um dia será inteiro.

Ouvir A cura é ouvir uma súplica. É o desabafo, o pedido de ajuda, a carta de despedida. São todos os arrependimentos, a raiva do que se ama, as palavras duras de alguém que ama e que perdeu o sentido da vida. Os vícios. Alguém que olha pra trás e se culpa, que olha para o outro lado e vê um sorriso falso que ostenta o que não sente. O solo de guitarra melancólico é pra ser ouvido de olhos fechados, sozinho. A cura novamente é o fim. Um aqui, o outro lá. A separação é enfim, o adeus à dor. É o erro inevitável.

Ventura. O dicionário também se contradiz, ou se completa. Depende de como você vê. Ele define a palavra como destino, acaso. Mas também é risco, perigo. É o sonho tentando ser real. É alguém que ainda sonha. Que ainda tenta, que ainda acredita no amor. Mas que acorda e percebe que a vida real não espera. Que quem verdadeiramente ama está condenado a sofrer eternamente. A sofrer de amor.

Confiança traz paz. Mas também fala de fim e de meios. De quem não acredita, nos olhos abertos quando deveriam estar fechados. É o enxergar o que não existe e esquecer que as coisas mais bonitas são apenas sentidas, de olhos fechados. É o amor que morre junto com o fim da confiança.

Tão bem é o sussurro ao pé do ouvido. É a voz de choro, voz de fim. É a vontade de gritar e o medo de ouvirem. É não suportar ficar em silêncio, é não suportar fins. É a desculpa. É a voz baixinha de alguém que tenta falar e não ser ouvido. É a tentativa de cantar sem se ouvir. É a canção que mais se aproxima do silêncio. Ensurdecedora. É a dor que dói diferente em cada um, o querer bem ao que já não se tem. A doçura que ainda existe. A declaração de amor.