10 de maio de 2011

Sobre o espelho

Há três horas ouvindo a mesma canção. E, de alguma forma, tentando enjoar, cansar do mesmo. Ainda não aconteceu. Mas sabe o que alivia nessas horas? Já ter feito o que podia. Ter se deixado preencher, esvaziar. Ter deixado a alma transparecer, mesmo que uma vez, mesmo que por tão poucos minutos. Aparece aquela sensação de alívio. Sabe quando você sente muita sede e consegue depois de muito esforço um copo de água bem gelado? Mais ou menos assim. Alívio por ter tentado. Durante cada segundo de cada dia ter pensado em ti, ter fantasiado um futuro, um passado diferente. E até achar que existe a pessoa certa, mesmo que não seja só uma nesse universo. Mas ter acreditado sim que você, apesar de tantas discordâncias, era pra mim. Naquela manhã, naquele lugar. Eu já sabia. Eu sempre sei. Eu não preciso de tempo, preciso de um olhar. Essa é a vantagem - ou o a desgraça completa - de ser tão sensível à vida. O problema é que você não percebeu, e talvez eu nem seja pra você. É que o ser humano é egoísta mesmo e não aceita que o amor possa ser amor sem troca. Que não é o espelho que faz uma relação bonita ou duradoura, é quando ele quebra. São os reflexos em pedaços, que a gente vai juntando e tentando consertar de novo. Às vezes simplesmente não encaixa mais. Por menor que seja o fragmento faltando, era ele que nos refletia. E se perdemos isso, não há mais amor. Nem nós. Quem sabe um pouco de carinho, umas lembranças de como a gente era, das coisas bobas que hoje fazem parte da história que a gente, invariavelmente, escreveu. Real ou não, a gente sempre escreve. Ninguém quer que o era uma vez termine com e foram tristes para sempre. Se soubéssemos como acaba, de repente, nem começaríamos a escrever. Mas eu gosto de um drama, sei que você também. A vida fica mais grandiosa, os nossos vinte e poucos anos até parecem um século. São muitas lembranças de pouco tempo, mas são memórias que valem a pena. Um dia a gente disse que, se tivesse fim, teria sido muito bom do mesmo jeito. Pois acabou e eu ainda acho que poderia ter sido melhor. Mas eu cansei de juntar os pedaços do espelho e acho que me sinto confortável com meu reflexo sem o teu ao lado. De qualquer forma, se quiser aparecer de novo, estou por aí. Traz aquela parte que ficou faltando. Vai que a gente consegue refletir um futuro e dois sorrisos, juntos, de novo. No mesmo espelho, no mesmo lugar.

1 de maio de 2011

A manhã seguinte sempre chega

Aí ela acorda achando que fez tudo errado um dia e que não tem mais volta. Percebe que há culpa sim. Que errou e achou tudo normal. Se fosse normal não machucava. Entende que continua errando sempre igual e insistindo em amar só o que se perdeu. O velho amor pelas causas perdidas. E que valeria a pena ter sido mais amor e menos razão. Agora já não faz sentido. E acredita que por algum motivo ainda há algo por acontecer. Só não sabe se é o fechar das cortinas ou a música que a banda toca ao voltar ao palco. Ela não entende por que sempre perdoou erros e os seus foram sentenciados sem direito ao habeas corpus. Ela nem sabe direito o que fez e porquê. Ela só fez. Sempre acreditando que seria o melhor. Só não imaginava que não seria mais nada. Depois de muito tempo sentiu a mesma coisa, por outro alguém. Uma outra pessoa, num outro lugar. Um mesmo final sem sentido, daqueles banais. Sem beijo de despedida, sem última noite ou último olhar. Chorou nem sabe pelo que. Pelo fim, pelo meio ou pelo que nem aconteceu? E deseja, mais do que nunca. Ela ainda não escolheu uma música, nada especial. Só algumas canções com refrões clichês e um pouco de melancolia. Escreve pra esquecer mesmo. Pra esvaziar o sentido. Do discurso, do significado, do que chamam amor. Esvaziar tudo o que foi guardando de ti, como se fossem pecinhas de quebra-cabeças. Ela só não entendia que era preciso paciência e mais amor pra formar algo que fizesse sentido. Era só mais uma menina que não se entende e nem entende a vida. Só mais um ser humano procurando sentido em histórias que não têm lógica nem razão. Só acontecem. Só duas pessoas. Sós. Sozinha.