1 de novembro de 2011

De vermelho vive o coração

O evento estava marcado para oito da noite, mas às seis da tarde já chegavam convidados com no mínimo 50 anos. Balões vermelhos enfeitavam o salão, na verdade um galpão com patrocínios por todos os lados, de materiais para construção Bem Te Vi à Funerária Nosso Lar. Ao lado, o que parecia um barzinho com alguns velhos bêbados e barrigudos se revelou, no fim, algo chamado na região por “casa vermelha”.

Foram chegando cada vez mais pessoas ao salão, sempre em grupos. O relógio de no mínimo um metro de diâmetro pendurado na entrada marcava cerca de dez horas enquanto os 180 convidados se deleitavam com carnes vindas de espetos de todos os cantos. Garçons vestidos a caráter, feito pinguins, zanzavam de mesa em mesa. Cada uma com 12 pessoas sentadas e enfileiradas. A agilidade não era o forte dos moços de branco e preto. Nas idas e vindas das picanhas, maminhas e costelas o chão era banhado de gordura misturada ao sangue das que ainda estavam mal passadas. No centro do salão, mais comida. A mandioca cozida se desmanchava a cada colherada que tentava colocá-la no prato, na maioria das vezes sem sucesso. Teimosa, grudava na colher com medo de ser devorada. A salada de alface, tomate e cebola acabou tão rápido quanto o prato com cucas, levemente adocicadas e imprescindíveis nos churrascos da região. O município era Iporã do Oeste, cidadezinha de Santa Catarina com quase oito mil habitantes, a 790 quilômetros de Florianópolis.

Ao redor de qualquer mesa se ouvia uma mistura de português com alemão, ou só alemão e uns sons inidentificáveis. O ruído se misturava ao de uma bandinha alemã que entre uma música e outra agradecia aos convidados da região pela presença. O grupo alternava canções conhecidas com marchinhas típicas da Alemanha. Alguns casais se arriscavam a dançar no meio de todos os convidados. A maioria deles sem técnica nenhuma com damas que esbanjavam vestidos esvoaçantes e rodavam pelo salão inteiro, fazendo a alegria de boa parte dos espectadores. O chope era liberado a noite toda, e a cada barril esvaziado notavam-se sorrisos mais bobos e sinceros, gargalhadas mais altas e grupinhos fofocando, todos com copos e canecas na mão. Quando não estavam nas mãos, ficavam abandonados nas mesas com chope pela metade, sem dono. Um senhor de uns sessenta anos embriagava-se bebendo direto de uma jarra. Convidados de 18 aos 80 anos consumiram em poucas horas cinco barris de chope, somando 500 litros de álcool.

O aniversariante, Jacob José Butzge, completava naquela noite 90 anos. Dançou com a namorada, com amigas e com todos que participaram de uma dança típica: a polonesa. Um tipo de roda gigante em que os pares trocam durante a música que só acaba quando voltam ao par original.

Já passava da meia-noite quando uma mulher conhecida da família tentava tirar chope da máquina sem líquido algum. Nem espuma, nem nada. Insistente, começou a tomar ar. Bateu algumas vezes no barril, falou umas palavras em alemão e bebeu novamente a caneca cheia de nada. Crianças dormiam no colo dos pais e mães pelo salão e um casal brincava de pega-pega, enquanto quatro filhos do aniversariante mais o genro jogavam futevôlei no meio das mulheres impacientes.

A porta do galpão se fechou minutos depois de os donos do local recolherem bancos e mesas, sem camisa e com algumas barrigas bem salientes à mostra. O barzinho da luz vermelha continuava cheio, sem outdoor que o identificasse parecia bem conhecido dos homens da cidade. Às margens da BR, os últimos convidados deixaram a cidade do Grande Oeste sob chuva forte, granizo e neblina. Não se via quase nada a não ser uma faixa branca, faróis vindos da direção contrária e um barulho ensurdecedor de pedras caindo no teto do carro.

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