17 de novembro de 2011

my way

Um dia me perguntaram por que meu sorriso sempre foi de menina, mas meu olhar como o de quem já viveu um século e ainda pensa nos cem anos que ainda não viveu. Já me disseram que eu nunca fiz sentido, que sinto calor quando todos sentem frio, e que danço sob a maior tempestade em vez de abrir o guarda-chuva. E já duvidaram mais do que eu lembro das minhas palavras. Não sei se é desconfiança, descaso ou só necessidade de reafirmar minhas fraquezas. Enquanto eu bailava uma valsa sozinha ao som de Piano Bar, recolhia armaduras pelo caminho. Achei que fossem me proteger da ventania e dos destroços que voavam todas as vezes que senti que iria ficar. Mas armadura não desvia tempestade. É preciso procurar um abrigo capaz de nos fazer sonhar com dias de primavera. E eu nem gosto de flores. Ter o olhar de cem anos é enxergar a vida como se fosse acabar a qualquer instante. É fazer tudo, fazer nada. É querer conhecer todas as pessoas do mundo e amá-las como se partissem. Ao meio. É acreditar na alma do ser humano e duvidar dela logo depois. É amar sem pensar no por que e sem precisar falar o tempo todo. É respirar fundo toda vez que o sol nasce e ir a qualquer lugar sem medo de ficar sozinho. É ter medo de ficar pra sempre só. Abrir portas sabendo que alguém um dia vai fechá-las sem ao menos dizer adeus. E que a verdade dói. E que as feridas abertas jamais cicatrizam, no máximo deixam de doer até que alguém vai lá e tira a casquinha. E sangra pra sempre. Ter o sorriso de menina é dizer vem comigo pra sempre quando alguém diz nunca mais. É ter a inocência de acreditar que o mundo é bom e que nuvens são feitas de algodão doce. Até descobrir que elas também derretem. É acreditar em tudo o que falam e no que se sonha também. Ter sorrisos e olhares opostos é saber que amor não acaba, que adeus sempre vai ser até mais, mesmo que ninguém mais acredite nisso. A canção nunca se cansa. Aí você olha pra trás e lembra do que ficou pela metade, dos que partiram sem explicação, dos barcos sem rumo, dos sonhos que afundaram, dos planos e promessas. Das palavras desperdiçadas, dos quilômetros percorridos, dos sorrisos falsos e daqueles tímidos também. De tudo que tentou dizer e nunca conseguiu. Não há verdade onde há escuridão. Se a gente não enxerga, é como se não existisse. Até que o tempo dissolva o silêncio que deixou tudo pra depois. Uma pena o depois ser tarde demais. O amor não espera.

1 de novembro de 2011

De vermelho vive o coração

O evento estava marcado para oito da noite, mas às seis da tarde já chegavam convidados com no mínimo 50 anos. Balões vermelhos enfeitavam o salão, na verdade um galpão com patrocínios por todos os lados, de materiais para construção Bem Te Vi à Funerária Nosso Lar. Ao lado, o que parecia um barzinho com alguns velhos bêbados e barrigudos se revelou, no fim, algo chamado na região por “casa vermelha”.

Foram chegando cada vez mais pessoas ao salão, sempre em grupos. O relógio de no mínimo um metro de diâmetro pendurado na entrada marcava cerca de dez horas enquanto os 180 convidados se deleitavam com carnes vindas de espetos de todos os cantos. Garçons vestidos a caráter, feito pinguins, zanzavam de mesa em mesa. Cada uma com 12 pessoas sentadas e enfileiradas. A agilidade não era o forte dos moços de branco e preto. Nas idas e vindas das picanhas, maminhas e costelas o chão era banhado de gordura misturada ao sangue das que ainda estavam mal passadas. No centro do salão, mais comida. A mandioca cozida se desmanchava a cada colherada que tentava colocá-la no prato, na maioria das vezes sem sucesso. Teimosa, grudava na colher com medo de ser devorada. A salada de alface, tomate e cebola acabou tão rápido quanto o prato com cucas, levemente adocicadas e imprescindíveis nos churrascos da região. O município era Iporã do Oeste, cidadezinha de Santa Catarina com quase oito mil habitantes, a 790 quilômetros de Florianópolis.

Ao redor de qualquer mesa se ouvia uma mistura de português com alemão, ou só alemão e uns sons inidentificáveis. O ruído se misturava ao de uma bandinha alemã que entre uma música e outra agradecia aos convidados da região pela presença. O grupo alternava canções conhecidas com marchinhas típicas da Alemanha. Alguns casais se arriscavam a dançar no meio de todos os convidados. A maioria deles sem técnica nenhuma com damas que esbanjavam vestidos esvoaçantes e rodavam pelo salão inteiro, fazendo a alegria de boa parte dos espectadores. O chope era liberado a noite toda, e a cada barril esvaziado notavam-se sorrisos mais bobos e sinceros, gargalhadas mais altas e grupinhos fofocando, todos com copos e canecas na mão. Quando não estavam nas mãos, ficavam abandonados nas mesas com chope pela metade, sem dono. Um senhor de uns sessenta anos embriagava-se bebendo direto de uma jarra. Convidados de 18 aos 80 anos consumiram em poucas horas cinco barris de chope, somando 500 litros de álcool.

O aniversariante, Jacob José Butzge, completava naquela noite 90 anos. Dançou com a namorada, com amigas e com todos que participaram de uma dança típica: a polonesa. Um tipo de roda gigante em que os pares trocam durante a música que só acaba quando voltam ao par original.

Já passava da meia-noite quando uma mulher conhecida da família tentava tirar chope da máquina sem líquido algum. Nem espuma, nem nada. Insistente, começou a tomar ar. Bateu algumas vezes no barril, falou umas palavras em alemão e bebeu novamente a caneca cheia de nada. Crianças dormiam no colo dos pais e mães pelo salão e um casal brincava de pega-pega, enquanto quatro filhos do aniversariante mais o genro jogavam futevôlei no meio das mulheres impacientes.

A porta do galpão se fechou minutos depois de os donos do local recolherem bancos e mesas, sem camisa e com algumas barrigas bem salientes à mostra. O barzinho da luz vermelha continuava cheio, sem outdoor que o identificasse parecia bem conhecido dos homens da cidade. Às margens da BR, os últimos convidados deixaram a cidade do Grande Oeste sob chuva forte, granizo e neblina. Não se via quase nada a não ser uma faixa branca, faróis vindos da direção contrária e um barulho ensurdecedor de pedras caindo no teto do carro.