
A quarta-feira começara como um dia que fica no meio: já se foram dois dias, faltam dois além dela para o fim de semana chegar. O trânsito de sempre, as centenas de sinaleiras na Beira Mar Norte, o sol se impondo no horizonte da baía, carros, carros, carros. Algumas motos, gente caminhando de um lado para o outro e caminhões barulhentos passando intercalados a mais carros. Era o dia 9 de novembro de 2011. Um show estava marcado há mais de quatro meses na cidade de Curitiba, no Paraná, para as 21h. Eduardo havia esperado cada dia passar como quem espera um filho.
Eduardo é um roqueiro que não alcança 1,40 metros de altura, mas já viveu 26 anos e tem a alma maior que a de muito gigante por aí. A banda que provocara insônia em Eduardo era o Pearl Jam. Um grupo de rock norte-americano de Seatlle que trouxe, junto com o Nirvana, as camisas de flanela e o grunge ao mundo. Formada nos anos 90, o Pearl Jam já vendeu cerca de 60 milhões de álbuns, e voltaria a Curitiba após seis anos do último show na cidade. Junto com Eduardo, estavam mais 20 pessoas. A excursão estava marcada para sair de Florianópolis rumo à capital paranaense às 9h30, mas alguns imprevistos impediram o micro-ônibus de partir em pontualidade inglesa.
“– Cara, minha carteira de motorista caiu no ralo!”
“– Iiiii... Veja com o motorista daquele outro ônibus se ele não tem nada que te ajude a pegá-la. Você não pode embarcar sem documentos, rapaz!”
“– Essas coisas só acontecem comigo! Obrigado, galera.”
E assim o micro partiu rumo ao show. Todos esperavam embarcar em um ônibus executivo com espaço para sentar, esticar as pernas, som, um filmezinho, mas o que viram foi o que apelidaram de “latão de sardinha”. Havia apenas um lugar vago, e ele ficara vazio ao lado de Eduardo. Um gigante de um metro e quarenta que havia conquistado dois lugares no ônibus. Os dois últimos, ao lado do banheiro e em cima da roda. Mas conseguira.
“– Depois acham que é preconceito. Porque o cara é baixinho não tem o direito de colocar as coisas dele no assento. Que coloque no bagageiro!”, falava indignado um verdadeiro gigante de 1,90 metros.
Eduardo não ouvira nada, estava em outra dimensão. Com seu discman já um pouco ultrapassado na Era do MP3, cantava sem produzir som algum. Balançava a cabeça de um lado para o outro, sempre olhando a paisagem que passava apressada do outro lado da janela. Tocavam músicas bem barulhentas, mas ninguém reclamou.
A viagem seguiu tranquilamente até a primeira parada: um restaurante daqueles de beira de estrada em que a comida é vendida a preço de ouro. Havia seis grandes ônibus e um micro estacionados na frente do local. No restaurante, nunca se vira tanta gente vestida de preto na mesma hora. Camisetas exaltando bandas que nem iriam tocar naquela noite, embora seus donos fossem assistir ao concerto da tal banda de Seatlle. Eduardo foi o último a descer do ônibus e precisava de ajuda pra quase tudo. O Buffet era variado, mas alto demais pra ele. Um funcionário do local se dispôs a fazer o prato do roqueiro. E que prato!
“– Pode colocar mais. Isso! Gosto muito de churrasco e esse daqui me disseram que é muito bom!”
Ninguém se atrasou, apenas o motorista que fumava calmamente sob a sombra de algumas árvores. Rumo a Curitiba, alguns passageiros dormiam, outros não paravam de falar um minuto. Mas ninguém reclamou.
Após cinco horas de viagem – uma hora a mais que a previsão – finalmente o grupo estava onde queria estar: bem próximo ao Estádio Vila Capanema, do time de futebol Paraná Clube. O dia estava muito quente, temperatura de 30º C com sensação térmica de quem terá longas horas de espera em uma fila em cima do asfalto sem árvores ou sombra. Eduardo? Estava com um sorriso no rosto, mas continuava isolado em seu mundo ouvindo o que chamava de “a melhor banda de rock alternativo de todos os tempos”. O grupo foi se dispersando e procurando a fila do setor para o qual havia comprado ingresso. Eram todos identificados com uma pulseirinha verde fluorescente, com telefones importantes caso alguém se perca no final do show.
Com apenas 15 minutos de atraso, Eddie Vedder e os outros integrantes do Pearl Jam subiram ao palco, frente a uma multidão de 27 mil pessoas. Gente de todas as idades, tamanhos, credos, religiões e fanatismo. E Eduardo estava lá, na área para deficientes, bem perto de seu ídolo. E continuava cantando música por música como se ainda estivesse em outro mundo. Apenas ele e o Pearl Jam. Ele e a música. Ele e sua mais confiável amiga e companheira de viagens e da vida. Foram quase duas horas e meia do velho e bom rock’n roll. Entre alguns dos momentos mais emocionantes da noite estavam os balões vermelhos e os amarelos que o pessoal da pista 1 (em frente ao palco e local mais caro) jogava para o alto enquanto a música era tocada com maestria pelo grupo de Seatlle. Em Alive, o que se ouvia era um coro de 27 mil vozes repetindo uníssonas “Ooooo, aaaaaa, ooooo I’m still alive”, arrepiando e emocionando até quem não sabia cantar a canção. E para completar, no fim da música o coral gritava “yeah” no ritmo dos riffs de guitarra e da bateria erguendo o braço pra cima demarcando o tempo da canção. De cima, a multidão parecia ser uma pessoa só.
Terminado o show, era hora de voltar pra casa. Eduardo foi o último a voltar para o micro-ônibus. Ele não queria estar novamente no mundo real. Preferia ficar sozinho no estádio, mesmo sem som e nem luzes no palco.
“– Foi um sonho. Ainda não acredito. Não acredito no que vi e ouvi. Não acredito!”
Repetia seguidamente para todos, em voz baixa. Ninguém respondeu. Dessa vez, o gigante voltou acompanhado, e o grandão de 1,90 metros se satisfez com dois bancos pra si. Eduardo não aceitou a pizza que o dono da excursão oferecia aos passageiros, já com cara de acabados e com o rosto vermelho queimado do sol de horas mais cedo. Tirou um de seus fones de ouvido para pedir um copo de água e logo os colocou de volta. Ele continuava balançando a cabeça de um lado pro outro, mas já não olhava pra fora. Era escuro, em torno de 2h da manhã, e já não se via nada. Eduardo fechou os olhos e pareceu viajar pra outra dimensão. Ele se recusava a voltar para o mundo real.
0 comentários:
Postar um comentário