14 de dezembro de 2012

Depois da curva

Vinte e três anos e a ficha caiu: Eu não sei o que é amar. Eu nunca soube. Se amar é compartilhar, eu sempre estive longe disso. Desde o ciúme egoísta, daqueles que guardei pra mim até corroer cada pedacinho de esperança. Eu me anulei diversas vezes achando que isso sim era prova de amor. Hoje percebo que quando se esconde um pedaço do que você é, vocês, a soma, nunca serão inteiros. E também descobri que se entregar é realmente pular no abismo sem saber se o pára-quedas vai abrir ou se vai ter alguém lá embaixo pra te segurar nos braços. O pior que pode acontecer é se partir em mil pedaços no chão. Mas sabemos que quando a gente se recompõe, fica mais forte. Vinte e três anos pra perceber que é o fim do mundo todo dia da semana. Acho que amar é sim uma via de mão-dupla. É um sentimento muito grande pra ser ímpar. A unidade não é amor: É necessidade, vontade, paixão. Tudo menos a-m-o-r. Se eu já amei? Vale amar errado? Depois da primeira grande queda é inevitável andar com um colete salva-vidas. E sabemos que esses coletes nos protegem do afogamento, mas também não deixam a gente mergulhar e ver o que tem lá no fundo do oceano. É sempre metade, sempre uma parte, um pouco, algo que não tem nome nem significado no dicionário. Mas eu confesso: Mesmo sendo metade, do teu lado era como se fôssemos inteiros. Chega uma hora na vida que a gente já não escreve sobre uma pessoa só. São tantos os finais trágicos, as histórias sem pontos, as que nunca deveriam ter acontecido... E quando digo você, é só uma soma de todas as partes que esqueci ou perdi pelo caminho. E também aquelas que a distância e o tempo nos roubou. Egoísta que sou, não admito que se percam nas lembranças e por isso escrevo. Pra lembrar de cada beijo, cada adeus e cada fim sem explicação. É como uma gaveta com cartas que nunca chegaram em seu destino. É como se tudo tivesse sido mera ficção. Mas aconteceu. E acho que não me arrependo de nem um "eu te amo" que tenha proferido, mesmo não sabendo na verdade se era mesmo. O que me dói é ter escondido essas palavras de ti e ter te perdido sem lutar. Eu perdi. Você.

28 de agosto de 2012

Até parar de bater.

Dia desses, meu coração bateu tão fraquinho que quase parou. Era eu desistindo de tudo por achar que não suporto mais todos os dividendos que algumas escolhas trazem consigo. O amor em excesso que se torna cobrança, e um dia, impreterivelmente, vai se transformar em decepção plena. É amor? Egoísmo? Eu ainda não sei bem a distinção, mesmo que na maior parte do tempo seja admiração e carinho. Talvez o tempo tenha transformado em amor, desses eternos, sabe? Aquela força que vem de algum lugar e te impede de desistir, porque há muito mais a ser amado. Porque é teu destino. Uma missão, uma dádiva.

É impossível explicar alguns tipos de amor. Faz tão bem durante algumas horas, mas na maior parte delas é só saudade e mágoa e falta e espera... E por que continuar? Não faz sentido algum, a não ser pela felicidade que nada, nada, nada nesse mundo traz igual. O frio na espinha que aquele acorde provoca, a lágrima doída que umas notas reunidas insistem fazer cair. O não saber o que vai ser disso tudo amanhã.

E se acaba? Acho que só acaba, mas fica. Esse amor é do tipo que fica pra sempre. E passem dias, meses, anos, décadas, ainda vai estar lá pronto pra ser ouvido. É amor por música e por almas que nos tocam, amor por pessoas que não fazem ideia do quanto são especiais em nossas vidas. E que nos machucam justamente por não saberem.

Se vale a pena? Se tentei desistir tantas vezes e aqui estou eu falando sobre, deve valer a vida sim. Até que a morte nos separe. Até parar de bater.


6 de agosto de 2012

Notas de rodapé

Tudo o que tu tocas com as mãos vira cinzas. Tudo o que tu cantas com amor vira perfeição. E eu amo essa contradição de uma forma que não posso explicar. E nem preciso.

16 de junho de 2012

Quem vai querer uma pessoa assim, com a alma despedaçada? Que esqueceu de acreditar que existe amor? Quem vai querer alguém que chora por dentro enquanto sorri e finge que acredita na felicidade plena, na amizade, no amor puro? Ninguém quer uma pessoa nublada. Uma nuvem que chove o tempo todo, um poço de mágoas e de um passado que não fica pra trás nunca. Tal como um fim de tarde gris.

27 de maio de 2012

A manhã seguinte sempre chega

Por que eu tenho pavor de ficar no mesmo lugar? Talvez porque inércia atrofie o pensamento. É que mesmo parados, nós rodamos em volta de nosso próprio eixo, uma loucura eterna em 360º, sempre voltando ao mesmo lugar. E enquanto isso, o tempo vai passando e não passamos de filósofos do passado. Te desafio a falar sobre o futuro, esse sim, que dá medo, o amanhã que, sem exceção, todos temem. E não me venha com essa conversa de "viver intensamente sem pensar no amanhã" porque se isso fosse possível você estaria saltando de um avião agora, e sem pára-quedas. Pare e pense no que vai ser o teu amanhã que as dúvidas quanto ao dia seguinte existir começam a pairar sobre todos os teus sonhos e planos. Eu viajo o tempo todo tentando traçar rotas diferentes,  respirar ares de gente que não faz a mínima ideia de quem sou ou por que estou ali. E admito: é cômodo estar entre pessoas que não sabem de onde venho, por que motivo ou mesmo pra onde retornarei. A gente se sente livre pra ser. Ser qualquer pessoa, porque ninguém ali sabe realmente quem é você. E eu adoro esse meu coração turista. Sempre viajando de um lado ao outro, de Norte a Sul, do palpável ao desconhecido. E assim eu sigo, escrevendo minhas páginas por onde passo, deixando um pouco de mim em cada hotel, em cada pedaço de chão que passei. Talvez eu seja daquelas que querem deixar um pedacinho em cada lugar do mundo, um motivo pra que depois de partir desse plano, alguém ainda possa sorrir ao lembrar da nossa história. Acordei com vontade de sair daqui, de novo. Mas eu sei que, no final, a vontade de voltar é sempre maior. Passou, passou, passado. Eu quero saber do que vem pela frente, do próximo destino e da hora em que o bonde chamado desejo vai passar de novo por aqui. Talvez não passe de ilusão.

20 de maio de 2012

Palavras e silêncio

Ainda não consigo lembrar sem derramar uma lágrima. E quando A Flor tocou eu lembrei do dia em que você falou que iria me fazer viciar naqueles caras barbudos que eu dizia odiar. Aconteceu: hoje eu meio que te odeio, mas você cumpriu sua promessa. Eu amo aqueles caras barbudos, e se até eles voltaram, por que não você? E aquela frase fica ecoando na minha cabeça desde a noite gelada em que a ouvi ao vivo, bem de pertinho, tentando chegar o mais próximo possível da parte bonita do nosso passado. "Eu fiz de tudo pra você perceber que era eu". O que me conforta é saber que você não me esqueceu. E se está tentando isso, deixa pra lá. O que a gente foi não dá pra simplesmente jogar no lixo, apagar da nossa história. Eu desisti dessa balela de achar que serei superior ou mais feliz ignorando algumas páginas bonitas da minha vida. Está lá. Ninguém, nem o tempo, vai ser capaz de queimá-las. E eu sei que lá no fundo você sabe disso, mas prefere não arriscar nem perder as horas da madrugada pensando nisso. E se te culpo por alguma coisa hoje em dia é pelo teu silêncio. Por fechar a porta na minha cara e dizer "vai, segue teu caminho porque eu já não vou junto contigo". Eu segui, bem até demais. Sozinha. E de alguma forma, estou muito melhor do que pensei que um dia fosse estar. Viu? Até eu, fraquinha, chorona e toda apaixonada consegui. E a distância, pela primeira vez, foi a melhor coisa que nos aconteceu. Fica mais fácil superar a dor quando ela está a 465 km da gente. Quando ela não é um rosto no meio de uma multidão que aparece e desaparece conforme o destino e o acaso bem entendem. Eu nunca mais te vi. Nem sei mais quem tu és. E saiba de uma coisa: se hoje escrevo sobre nós é porque eu quero que doa cada vez menos. E quanto mais eu falar de ti, mais tua imagem vai esmaecer nas minhas lembranças. Fique bem onde estiveres e tente ser feliz de novo. Eu tô tentando. Com um amor que nunca coube em mim, até mais.

10 de maio de 2012

Baile de Máscaras II


Ela acorda todos os dias e interpreta uma personagem que não ela. Uma personagem criada desde que deu seus primeiros passos e inventou um choro pra conseguir o que queria e descobriu que seu sorriso a fazia parecer alguém tão poderoso que tinha total dominância sobre aquela gente grande. Fez-se mulher do jeito que via nos filmes e lia nos romances com finais trágicos e, por isso, bonitos e inesquecíveis. Sai de seu quarto e é obrigada a viver e conviver com aquele eu que ela mesma construiu. Mas está cansada de ser a outra quando deveria ser ela mesma. O mundo espera que ela seja uma máscara, não uma alma. Mas ela acorda, e vive, e sobrevive e cansa também. A personagem precisa ser boa naquilo tudo todo o sempre. E precisa agir daquele modo, com aquelas roupas, aquele mesmo jeito de falar, o modo de pensar, as dúvidas, os anseios, os medos... E se de repente, fosse outra pessoa? Algum dia também cansaria. A crise existencial é cíclica, eterna. Porque de algum modo ela sabe que nunca vai descobrir seu eu-verdadeiro porque ele simplesmente não existe. Não há como a pedra ser pedra o tempo inteiro se alguém, ao vê-la, resolve chamá-la de papel. O ser humano acha que sabe quem é, que há uma exatidão e uma simetria naquilo que respira. Mas não há. É tudo caos, desordenamento, barulho, surdez. A gente não pode ser partido ao meio e depois continuar igual. Não existe metade. Ou a gente é completo ou vazio. Não há nada igual, nem réplicas, nem gêmeos, nem canções, nem palavras. E mesmo com tudo tão diferente, a gente ainda tem o sentimento de ser igual. E meu eu que me desculpe, mas a gente muda sim. O ser humano muda a cada dia. Muda seus personagens porque cansa de si. Procura algo no espelho - por companhia, talvez? - e não aguenta a mesmice de ser a mesma pessoa a vida inteira. Não muda pra melhor nem para pior. Muda pra suportar a si, não para os outros. Mas toda mudança um dia vira semelhança e a novidade já é passado quando a gente vira a esquina. Então ela acorda, olha seu reflexo no espelho e não sabe mais quem é. Se aquela que dormia, sozinha e tranquila, ou aquela que os outros vêem. E vai, segue o caminho com um aperto no peito de quem só tem certeza de duas coisas: que vive e que um dia vai morrer. Mas quem morre? Todas elas.

...

"Espinosa entendeu que todas as coisas querem preservar o seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página." Jorge Luis Borges

4 de maio de 2012

Sinceramente

Eu não sei se consigo ser feliz plenamente em um mundo em que a sinceridade é vista pela maioria das pessoas como grosseria, ou ainda, pasmem: como sinônimo de fraqueza. Se a gente pudesse ser sincero desde pequeno diria que comeu sim comida de cachorro porque queria saber qual era o gosto, que ligou o carro porque gostava do barulho do motor, que roubou goiaba do vizinho porque fruta do pé e ainda por cima roubada é muito mais gostosa. Se a gente pudesse, diria lá pelos cinco anos para o primeiro amor da nossa vida que ele era a coisa mais importante que já existiu e que o cabelo bagunçado e cortado em forma de pinico e aquela remela insistente não seriam páreos para tanta paixão, em vez de chutá-lo, grudar chiclete no cabelo e chamá-lo de qualquer coisa que rimasse com o nome dele e o fizesse parecer um pateta. Se o mundo fosse fácil de ser vivido, a gente não teria vergonha de falar sobre orgasmo, Viagra, ejaculação precoce e todas aquelas coisas que só de imaginar pronunciar em público faz da gente um pimentão pronto pra se tornar invisível. Se todo mundo fosse sincero, meu amigo, não haveria ódio. Imagine por um segundo você falando tudo o que guardou ao ponto de quase explodir para aquela pessoa que você diz e pensa odiar e ela lhe respondendo que tudo bem, que você tem esse direito e que vai se afastar porque assim as duas permanecem felizes. Convenhamos: nem todo mundo nasceu pra ficar perto. E pensa como seria o contrário: dizer eu te amo toda vez que tivesse vontade. Sem medo de ser clichê ou motivo de piadas sádicas e de mau gosto. Talvez nem existissem mais piadas, porque elas são artifícios que o ser humano usa pra dizer o que pensa sem ser politicamente incorreto. Piada é a sinceridade à flor da pele. E que pudéssemos dizer o tempo inteiro como aquele cara é genial, como um amigo distante faz falta, como a gente queria que algumas pessoas simplesmente se importassem e sentissem saudades. Mas a gente não fala porque tem medo e vergonha de ser sincero. Explica como ser feliz em um mundo em que seja você sincero para o bem ou para o mal - se é que existe mesmo essa dualidade, mas deixa essa parte para os maniqueístas - você não está livre de preconceitos e julgamentos. Eu quero viver em um lugar em que possa dizer sim, não, amo e odeio com a mesma naturalidade com que respiro e meu coração bate todo santo dia. Porque não há nada pior que você aprisionar a espontaneidade de uma criança. Ela vai crescer um dia e esquecer junto com os brinquedos que não brinca mais e com o sapatinho que ficou pequeno todo resto de verdade que tinha dentro de si. E como diria Carpinejar, "a gafe é nossa rara chance de ser verdadeiro". Espero que o mundo não perca essa chance, porque se acontecer, viveremos, sinceramente, uma mentira.

4 de abril de 2012

All These Things That I've Done

Tenho acordado esses dias sempre pensando em ti. Acho que faz algum tempo que eu não sonho contigo, então é estranho sentir minha respiração, ver a primeira luz do dia e teu rosto aparecer estampado na parede. Parece que alguém colou uma foto tua por ali, uma daquelas fotos bonitas, em preto e branco. Mas essa não dá pra rasgar, queimar, não é algo que se possa jogar no lixo. De alguma forma acho que tu ainda és muito importante pra mim. E talvez há mais de um ano o que a gente viveu antes, durante e, principalmente, o depois, fizeram de mim uma pessoa melhor hoje. É, nos conhecemos no momento errado. Eu querendo partir corações, você indiferente aos cacos dos que caíam por aí. E na época você não entendeu que quando eu dizia que não te queria, eu te queria mais que tudo o que já quis um dia. Evidências. Coisa de menina birrenta. Coisa de quem experimentou o amor há muito tempo e achou que não aconteceria de novo. E hoje você tem outra pessoa e está feliz. Tão feliz que até da amizade bonita que sobrou você esqueceu. Não te culpo por isso, é que quando a gente ama alguém parece que o resto das pessoas fica embaçado. Aquele monte de gente que você olhava hoje passa e você nem nota. Porque talvez tu estejas experimentando pela primeira vez o que é amor de verdade. Mas a gente só descobre realmente depois que acaba. É triste e até meio sádico por parte da vida. E então a gente fez a nossa parte, você me pediu pra ficar em silêncio, eu apaguei o que ainda havia de bom entre a gente. Hoje só o que existe é saudade. Tenho algo maior que saudade, o que eu sinto é uma palavra que ainda não inventaram, do único homem de verdade que conheci e um dia tive a coragem de chamar de infantil. Acho que pela primeira vez me entreguei, mesmo que escondida, a alguém que merecia esse amor. Que me mandava uma coisa tão boa de volta, talvez até sem saber. Obrigada por ter feito parte da minha vida e por me mostrar que ainda existe muito amor no mundo. Pena ter descoberto tarde demais. Queria te falar tudo isso, mas acho injusto. Você merece o que tem agora, e talvez eu também tenha merecido o que eu não tenho mais. Vai que um dia a gente se encontra por aí de novo. A vida é muito pra acreditar que realmente seja o final.

22 de março de 2012

Clarice


Uns tempos fora do ar, fora do horário comercial, fora do chão. Clarice resolveu que iria desaparecer. Sem mais explicações, sem fazer alarde. E evaporou, como éter. Andou por aí, cruzou fronteiras, deu oi pra quem não conhecia, disse adeus a quem amava e evaporou. Em algum lugar do mundo a alma de Clarice se desfez e se refez, e nem mesmo ela sabe onde. Ficou um pedaço em cada canto e demorou mais tempo pra se juntar do que levou se perdendo por aí. Clarice descobriu que as coisas quebram com mais facilidade do que se unem. E que leva tempo, às vezes a vida inteira pra refazer a colcha de retalhos. E esperou. Clarice sentada, cansada, esperou. Por alguma notícia, por algum adeus, por alguém que mereceria esperar. E o tempo passou, passou e passou mais um pouco. Mas Clarice continuou esperando. A alma desfeita, o tempo, o éter. E dizia adeus mais do que todos os olás que pronunciou na vida. Ela descobriu que as despedidas sempre serão mais frequentes e dolorosas que os encontros. E descobriu que algumas vezes não existe até logo, porque as pessoas passam e somem. Como sua alma que virara éter. E as almas se perdem e se refazem. Mas ninguém sabe onde. Clarice nunca mais ouviu falar de algumas. E sabe que no fundo, bem lá no fundo nem sente falta delas. Na verdade, talvez sinta falta de si mesma. E só. E Clarice descobriu que ninguém chamaria por ela, e ninguém procuraria, e ninguém lamentaria. Porque o tempo passa e carrega a areia, e esconde as pegadas. Aí as pessoas esquecem, e o mundo gira, e a vida passa, e o tempo passa, e todo o mundo passa. Menos Clarice, que permanece sentada, esperando, esperando. A alma se desfazendo, o sol se pondo, e o dia nascendo, e o vento soprando, e as pegadas sumindo, sumindo, sumindo...

24 de janeiro de 2012

Voz fugitiva

"Às vezes na tu'alma que adormece
Tanto e tão fundo, alguma voz escuto
De timbre emocional, claro, impoluto
Que uma voz bem amiga me parece.

E fico mudo a ouvi-la como a prece
De um meigo coração que está de luto
E livre, já, de todo o mal corruto,
Mesmo as afrontas mais cruéis esquece.

Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
Dessa voz singular o timbre puro,
As essências do céu maravilhosas.

Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
Mas tudo na tu'alma está calado,
No silêncio fatal das nebulosas."