22 de março de 2012

Clarice


Uns tempos fora do ar, fora do horário comercial, fora do chão. Clarice resolveu que iria desaparecer. Sem mais explicações, sem fazer alarde. E evaporou, como éter. Andou por aí, cruzou fronteiras, deu oi pra quem não conhecia, disse adeus a quem amava e evaporou. Em algum lugar do mundo a alma de Clarice se desfez e se refez, e nem mesmo ela sabe onde. Ficou um pedaço em cada canto e demorou mais tempo pra se juntar do que levou se perdendo por aí. Clarice descobriu que as coisas quebram com mais facilidade do que se unem. E que leva tempo, às vezes a vida inteira pra refazer a colcha de retalhos. E esperou. Clarice sentada, cansada, esperou. Por alguma notícia, por algum adeus, por alguém que mereceria esperar. E o tempo passou, passou e passou mais um pouco. Mas Clarice continuou esperando. A alma desfeita, o tempo, o éter. E dizia adeus mais do que todos os olás que pronunciou na vida. Ela descobriu que as despedidas sempre serão mais frequentes e dolorosas que os encontros. E descobriu que algumas vezes não existe até logo, porque as pessoas passam e somem. Como sua alma que virara éter. E as almas se perdem e se refazem. Mas ninguém sabe onde. Clarice nunca mais ouviu falar de algumas. E sabe que no fundo, bem lá no fundo nem sente falta delas. Na verdade, talvez sinta falta de si mesma. E só. E Clarice descobriu que ninguém chamaria por ela, e ninguém procuraria, e ninguém lamentaria. Porque o tempo passa e carrega a areia, e esconde as pegadas. Aí as pessoas esquecem, e o mundo gira, e a vida passa, e o tempo passa, e todo o mundo passa. Menos Clarice, que permanece sentada, esperando, esperando. A alma se desfazendo, o sol se pondo, e o dia nascendo, e o vento soprando, e as pegadas sumindo, sumindo, sumindo...

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