10 de maio de 2012

Baile de Máscaras II


Ela acorda todos os dias e interpreta uma personagem que não ela. Uma personagem criada desde que deu seus primeiros passos e inventou um choro pra conseguir o que queria e descobriu que seu sorriso a fazia parecer alguém tão poderoso que tinha total dominância sobre aquela gente grande. Fez-se mulher do jeito que via nos filmes e lia nos romances com finais trágicos e, por isso, bonitos e inesquecíveis. Sai de seu quarto e é obrigada a viver e conviver com aquele eu que ela mesma construiu. Mas está cansada de ser a outra quando deveria ser ela mesma. O mundo espera que ela seja uma máscara, não uma alma. Mas ela acorda, e vive, e sobrevive e cansa também. A personagem precisa ser boa naquilo tudo todo o sempre. E precisa agir daquele modo, com aquelas roupas, aquele mesmo jeito de falar, o modo de pensar, as dúvidas, os anseios, os medos... E se de repente, fosse outra pessoa? Algum dia também cansaria. A crise existencial é cíclica, eterna. Porque de algum modo ela sabe que nunca vai descobrir seu eu-verdadeiro porque ele simplesmente não existe. Não há como a pedra ser pedra o tempo inteiro se alguém, ao vê-la, resolve chamá-la de papel. O ser humano acha que sabe quem é, que há uma exatidão e uma simetria naquilo que respira. Mas não há. É tudo caos, desordenamento, barulho, surdez. A gente não pode ser partido ao meio e depois continuar igual. Não existe metade. Ou a gente é completo ou vazio. Não há nada igual, nem réplicas, nem gêmeos, nem canções, nem palavras. E mesmo com tudo tão diferente, a gente ainda tem o sentimento de ser igual. E meu eu que me desculpe, mas a gente muda sim. O ser humano muda a cada dia. Muda seus personagens porque cansa de si. Procura algo no espelho - por companhia, talvez? - e não aguenta a mesmice de ser a mesma pessoa a vida inteira. Não muda pra melhor nem para pior. Muda pra suportar a si, não para os outros. Mas toda mudança um dia vira semelhança e a novidade já é passado quando a gente vira a esquina. Então ela acorda, olha seu reflexo no espelho e não sabe mais quem é. Se aquela que dormia, sozinha e tranquila, ou aquela que os outros vêem. E vai, segue o caminho com um aperto no peito de quem só tem certeza de duas coisas: que vive e que um dia vai morrer. Mas quem morre? Todas elas.

...

"Espinosa entendeu que todas as coisas querem preservar o seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página." Jorge Luis Borges

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