4 de maio de 2012

Sinceramente

Eu não sei se consigo ser feliz plenamente em um mundo em que a sinceridade é vista pela maioria das pessoas como grosseria, ou ainda, pasmem: como sinônimo de fraqueza. Se a gente pudesse ser sincero desde pequeno diria que comeu sim comida de cachorro porque queria saber qual era o gosto, que ligou o carro porque gostava do barulho do motor, que roubou goiaba do vizinho porque fruta do pé e ainda por cima roubada é muito mais gostosa. Se a gente pudesse, diria lá pelos cinco anos para o primeiro amor da nossa vida que ele era a coisa mais importante que já existiu e que o cabelo bagunçado e cortado em forma de pinico e aquela remela insistente não seriam páreos para tanta paixão, em vez de chutá-lo, grudar chiclete no cabelo e chamá-lo de qualquer coisa que rimasse com o nome dele e o fizesse parecer um pateta. Se o mundo fosse fácil de ser vivido, a gente não teria vergonha de falar sobre orgasmo, Viagra, ejaculação precoce e todas aquelas coisas que só de imaginar pronunciar em público faz da gente um pimentão pronto pra se tornar invisível. Se todo mundo fosse sincero, meu amigo, não haveria ódio. Imagine por um segundo você falando tudo o que guardou ao ponto de quase explodir para aquela pessoa que você diz e pensa odiar e ela lhe respondendo que tudo bem, que você tem esse direito e que vai se afastar porque assim as duas permanecem felizes. Convenhamos: nem todo mundo nasceu pra ficar perto. E pensa como seria o contrário: dizer eu te amo toda vez que tivesse vontade. Sem medo de ser clichê ou motivo de piadas sádicas e de mau gosto. Talvez nem existissem mais piadas, porque elas são artifícios que o ser humano usa pra dizer o que pensa sem ser politicamente incorreto. Piada é a sinceridade à flor da pele. E que pudéssemos dizer o tempo inteiro como aquele cara é genial, como um amigo distante faz falta, como a gente queria que algumas pessoas simplesmente se importassem e sentissem saudades. Mas a gente não fala porque tem medo e vergonha de ser sincero. Explica como ser feliz em um mundo em que seja você sincero para o bem ou para o mal - se é que existe mesmo essa dualidade, mas deixa essa parte para os maniqueístas - você não está livre de preconceitos e julgamentos. Eu quero viver em um lugar em que possa dizer sim, não, amo e odeio com a mesma naturalidade com que respiro e meu coração bate todo santo dia. Porque não há nada pior que você aprisionar a espontaneidade de uma criança. Ela vai crescer um dia e esquecer junto com os brinquedos que não brinca mais e com o sapatinho que ficou pequeno todo resto de verdade que tinha dentro de si. E como diria Carpinejar, "a gafe é nossa rara chance de ser verdadeiro". Espero que o mundo não perca essa chance, porque se acontecer, viveremos, sinceramente, uma mentira.

Um comentário:

  1. E por alguma razão, sofro dos males de por no máximo de oportunidades que consigo, viver nesse teu mundo perfeito. Mesmo que me custe algo.

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