15 de dezembro de 2013

Kafka en la orilla

"Un alma solitaria errando por la orilla donde rompen las olas del absurdo."

Eu continuo vagando por um mundo só meu esperando que teu barco encontre meu porto.  

26 de junho de 2013

Uma história que não tem adeus não tem fim


Um tanto de amor que não era amor. Por medo de te perder eu te afastei cada vez mais de mim. E veja só, estou enferma. Doente de amor, se isso é possível. Pareço um daqueles cachorros de rua que quando chutados voltam abanando o rabo como se aquilo fosse o maior gesto de afeto que tivessem o direito de receber. Se não é amor, consigo entender como eles se sentem. É como saber que alguém notou sua presença, mesmo que tenha se tornado algo desagradável. Pode parecer coisa de quem não tem amor-próprio. Não tiro a razão de quem pensa que não devemos aceitar que sejam cruéis conosco e mesmo assim permanecer ali. Mas aqui estou. Lutando por algo que já morreu, clamando pelo direito de dizer adeus. E descobrindo que não há limites para doer. Porque dói. Cada vez que você diz que tanto faz, e eu sei que lá no fundo, importa sim. Não é possível que não exista nada de bom aí dentro que consiga reconhecer que ainda restou algo bom entre nós. Algo que você, com toda essa crueldade inventada pra me afastar de ti, como uma criança que corre do bicho-papão, não vai conseguir tirar de mim. As boas lembranças. As memórias que guardei de quando te conheci. Uma outra pessoa, um homem que me fez acreditar que valia a pena continuar a acreditar no amor. O homem que agora me expulsa e me descarta como se fosse papel higiênico. Fui um belo de um tapa-buracos enquanto a indecisão te consumia. Pulei do abismo sozinha. Não escolhi você. Não existe uma razão ou lógica que me faça entender o porquê você. E pra onde foi o carinho? Como você consegue simplesmente? Deu descarga? Jogou no lixo? Como se faz pra descartar uma pessoa da minha vida? Por favor, ensina pra mim o segredo. Porque no fundo, eu também não te quero mais na minha vida, nem nos meus sonhos. Parada e pateta eu não sei como fazer parar de doer. Não sei como te deixar ir. Não sei como simplesmente virar as costas e seguir por aí como se nada tivesse acontecido. Pode parecer coisa de menina boba ou que assistiu a filmes demais, mas eu não sei colocar um ponto final enquanto não vivenciar esse ponto final. E isso significa olhar nos teus olhos uma última vez na minha vida e dizer obrigada. E te ver partir. E saber que é pra sempre. E pra nunca mais.

31 de maio de 2013

Quase amor VI

Comecei uma história na semana passada e me recuso a terminá-la desse jeito. Também porque uma parte dela foi vivida só na minha cabeça e não faria sentido não contar exatamente a verdade. A história bonita acabou. Falei algumas vezes, insistentemente, sobre a mesma pessoa. Eu me alimento e me enveneno de verdade. Eu não sei lidar com mentiras ou omissões. Quero saber de tudo, por mais que algumas partes me afetem mais do que imaginara. Não é fácil conviver com a verdade depois de algum tempo fantasiando um sentimento que nunca existiu. Se a gente não consegue controlar nossos sentimentos, que dirá o dos outros.

Não vou culpá-lo por não ter sentido o quanto eu senti por ti, o que ainda sinto. Embora, agora, comece a parar de remar contra a corrente. Eu só não entendo por que a verdade ficou escondida por tanto tempo. Você me disse que era óbvio, que eu sempre soube. Desculpe, eu não sou oráculo, não leio mentes e muito menos corações. E também nunca ouvi falar em "gosto de você às vezes". Isso deve ser pior do que odiar e eu não me submeto mais a um amor "às vezes". Enfim, aquele fio de esperança que sempre se esconde dentro da gente se perdeu. É mais fácil lidar com sentimentos que faltam do que com os que transbordam. Eu me declaro livre do teu amor. Dos teus abraços e olhares que me diziam outra coisa. Ou fui cega o bastante pra entender tudo errado. Pelo jeito, a tradução falhou e quem se machucou, mais um vez fui eu. Eu conheço todos os estágios de esquecimento, e tenho experiência suficiente pra saber que começou. 

Também não entendo esse amor eterno por alguém enquanto dorme com outra. Não é bonito nem justo. A gente não pode pausar o amor e voltar pra casa como se nada tivesse acontecido. Isso se chama quebra de confiança e é muito pior do que costumam chamar de infidelidade. Não sei até que ponto sei das coisas, mas não me parece certo. Eu, que não amo ninguém, sinto-me no direito pleno de fazer o que bem entender. Enquanto houver homens como você, alguns corações solitários vão gozar de bons momentos juntos durante algum tempo. E depois voltam pra casa, sem culpa ou remorso. Eis o ser humano, nu. Demasiado humano.

24 de maio de 2013

Bolero, Tango e Bossa Nova

I

Não sei se podemos chamar essa de "uma história de amor". Houve mais desencontros que beijos ardentes em quartos escuros e vapor na janela. É a história de duas almas de mundos diferentes que um dia se esbarraram por aí e não conseguiram mais dizer adeus.

Ela, no auge de seus vinte e tantos anos e com a certeza de que deixar seu país era a única solução para todos os seus problemas. Tinha muitas equações não resolvidas por lá. Deixou amigos, o cachorro, os pais com lágrimas nos olhos e o irmão. E deixou o mar. Ela sempre amou o mar, mais até do que gente. Era parte dela. Seu nome era Mariana, assim mesmo, mar e Ana.

Mariana deixou um semestre da faculdade por terminar. A vontade de ir pra qualquer lugar em que pudesse ser Carolina, Sofia, Clara,  era maior que tudo. E lá foi ela, sozinha, imaginando e sonhando, sonhando, sonhando. Tinha certeza de que aquele tempo seria suficiente para conseguir tudo o que queria. Mas o tempo passou rápido demais. Parece que quando ela finalmente encontrava o que a fazia feliz, os ponteiros do relógio resolviam aumentar a velocidade sem trégua. Mari - como os amigos gostavam de chamá-la - não trouxe amor consigo. Estava decidida a dar um tempo nos amores impossíveis, nos trágicos, nos platônicos, e finalmente dar um descanso para o seu coração. Tinha lido uma vez que era preciso se amar primeiro, antes de querer compartilhar sua vida. Mas até então, não conseguira tal feito.

Mas eis que em seu caminho apareceu um jovem, magricela, mas esbelto. Ela tinha medo que suas pernas quebrassem enquanto andava. Era frágil demais para o corpo de um homem, pensava enquanto ele caminha em sua direção. Mas tinha uns olhos parecidos com ameixa, bem redondos e escuros. A voz era engraçada. Era grave e alta demais pra sair daquele gurizinho. Era a alma de homem dizendo a ela que tomasse cuidado com ele. Chamava-se Arturo. Era um nome um tanto estranho pra um homem de menos de 30 anos. Não sabe se pelo idioma que falava ou se por personalidade, mas parecia o cara mais engraçado do mundo. Um cavalheiro que não economizava esforços para ajudar as donzelas em perigo. Deve ter aprendido nos filmes. Ele tinha jeito de quem via todos os clássicos, mas também perdia algumas horas com os dramas hollywoodianos. Logo descobriu que seu coração tinha ficado longe, em algum continente perdido, talvez no fundo do Atlântico. Mas enquanto fitava seus movimentos ao abrir mais uma cerveja pensava: - Ele precisa ser meu. Não era exatamente um desejo ardente de posse, embora pudesse sentir ciúmes só de pensar nele andando de mãos dadas por aí com outra.

E a dúvida de quem seria essa mulher que havia lhe sequestrado o coração consumia seus dias de tédio. Dias em que ficava deitada na cama porque era só mais uma tarde de chuva. E como chovia! Mariana nunca gostou de chuva, era do sol, do verão, do mar. Nascera em uma ilha e não havia santo que a convencesse de que dias cinzas molhados mereciam seu esforço de levantar da cama. Mari esperou tempo demais, noites demais, festas, encontros, viagens. Esperou porque pela primeira vez queria fazer as coisas certas. Sem atropelos ou atitudes que a fizessem ruborizar ao amanhecer. Nunca dera sinal algum de que o queria. De que o desejava, mais que como um conhecido. Ela queria mesmo seu corpo em cima e debaixo do dela. Tinha pensamentos estranhos quando ele se aproximava, queria abraçá-lo ali mesmo, na frente de todo mundo e sem explicação. E seria um abraço tão forte que tinha medo de quebrar seus ossinhos tão frágeis. Mas se continha.

Aos poucos, o cavalheiro foi transformando-se em só mais um cara normal. Sua boca beijou mais bocas do que ela pudera contar. E a cada noite era de um novo país. Não sabia as razões pra ter deixado sua amada pátria, mas deve ter sido para o aprendizado de novas línguas. Do jeito dele. Arrancando o pudor que restava das meninas que também deixaram sua terra natal com seus beijos aflitos de quem não sabe pra onde está indo, mas continua caminhando. E Mariana sempre ali, esperando sua vez. Sabia que conseguiria. Aprendera com o tempo que poderia ter o homem que desejasse, só precisava deixar as horas passarem. Embora não tivesse muitas doses de paciência em seu corpo, esperou. Até que uma noite, não sabe se por excesso de álcool no sangue ou se por uma combustão espontânea, puxou-o pela mão e o beijou. Sem pensar em nada. Simplesmente fez. Era geminiana, tinha dessas atitudes inexplicáveis às vezes. E dançaram, até cansar.

Mas a manhã seguinte sempre chega.

(Continua...)

2 de maio de 2013

Do Retrato de Dorian Gray


Voltei a reler "O Retrato de Dorian Gray". Eu sou dessas pessoas que aprecia tanto um livro que não precisa e nem sente vontade de best sellers. Hipster, alguém vai dizer. Detesto esse termo, acho uma tremenda bobagem e espero que um dia seja esquecido. A verdade é que meus autores preferidos estão mortos. Talvez um ou dois ainda respirem e exalem um ar jovial. Nunca parei pra pensar nisso, mas voltemos ao livro.

Parei em uma frase perdida em um dos primeiros capítulos, proferida por Lord Henry, um aristocrata cínico e hedonista, mas que me fez acordar novamente. Explico. O cara diz que os pequenos e simples prazeres são o último refúgio para a complexidade da vida. E ele tem toda a razão. Toda vez que fica tudo muito confuso, muito difícil de entender, quando parece não haver caminhos, a gente se volta aos nossos pequenos prazeres mundanos.

Chuva na janela, brisa assoviando enquanto tenta entrar no quarto sem medo de fazer alarde, filme repetido, andar descalço na grama, andar nu pela casa, dançar sozinho mesmo sem música, ouvir a mesma canção por cem vezes ininterruptas. Morango com açúcar, abacate com açúcar, ou simplesmente afundar o dedo na cobertura do bolo. Tudo com açúcar parece ficar bom. Raspar panela de brigadeiro, cortar carambola em estrelinhas. Olhar os carros passarem, as pessoas, o tempo... Tirar esmalte, pisar em folhas secas, andar, andar e andar por aí sem rumo. Ficar na cama fingindo que ainda tem sono e precisa dormir. Pura preguiça. Tomar aquele copo de água bem gelada depois de um banho de mar, tomar banho de chuva. Olhar pra luz, fechar os olhos e ver estrelas, galáxias! Olhar as nuvens.

Eu poderia ficar a vida inteira listando coisas que parecem bobas, clichês e banais. Mas pare pra pensar em quantas situações elas já te salvaram do tédio, da ira, da tristeza. A gente costuma não prestar atenção nessas coisas que estão dentro da gente, das quais a gente não vive sem, mas esquece de lembrar que pode ser nosso porto seguro. Quando as dúvidas, o "ser ou não ser" começarem a te tirar o ar, que tal voltar ao lugar onde tudo era simples? E a gente não precisa de uma máquina do tempo pra resgatar alguns prazeres infantis. Eles são completamente possíveis, palpáveis e realizáveis - tirando o banho de mar, para a minha tristeza - a qualquer instante.

Parece um desafio terrível ser feliz. E por ser tão simples, estar tão perto, a gente não enxerga. E ninguém pode nos ajudar a decifrar o que nossa alma necessita senão nós. Boa sorte.

14 de abril de 2013

Dos fins

Talvez essa dificuldade em deixar partir seja exatamente por só conseguir enxergar o passado como uma ótima canção.

Tudo começou quando, dentre tanta grosseria e machismo, ele usava palavras e gestos que conquistariam qualquer menininha que ainda acreditasse em príncipe encantado. Ela foi resistindo com o pensamento de que era só mais um garotinho querendo impressionar garotinhas em um país estranho. E ele mal sabia que tinha alguém o observando e sentindo um friozinho na barriga cada vez que os gestos eram pra ela. E quando o coração bate mais forte só porque alguém se aproxima é porque tem muito amor e dor pela frente. E ela sabia que depois de tantos sorrisos, ele fatalmente levaria uma parte dela, mas jamais levaria as belas lembranças que certamente deixaria após partir.

Ela esperou tempo demais pra dizer que o que tinham já não era o suficiente. Havia mais, e transbordava. E num outro país estranho decidiu que daquela noite não passaria. Ela matou um pouco do romantismo, mas permitiu que o algo mais que tanto esperara finalmente acontecesse. Entre o risco de ser só uma noite e tê-lo  por mais alguns meses, por que não tentar?

Ele era um cavalheiro, daqueles que parecem estar sempre um passo a frente, pra segurar a dama antes que ela caia. E sempre perguntava se estava tudo bem. Depois de uma semana, era um príncipe em sua bicicleta levando a princesinha para o castelo pra ver um dos fins de tarde mais bonitos que vira no tal país estranho. Era irônico como a vida podia fazer dois caminhos completamente diferentes se encontrarem pra brindar a vida com chocolate quente. Era frio lá fora, mas eles sabiam que ali, juntos, era seguro e mais quente que em qualquer lugar do mundo.

Passaram-se alguns dias e o passado bateu à porta. E acabou tudo em uma bela amizade que não resistiria muito tempo e, por força do destino, tornar-se-ia amor de novo. E voltou tudo a ser paixão, e beijos e abraços de quem sabe que a hora certa nunca vai chegar.

Ele era bom demais pra ser real. Era um daqueles caras que a gente vê em filmes, que faz tudo pela mocinha, e que quando erra, volta com aquele olhar que só ele sabe fazer e um punhado de chocolate nas mãos. Como resistir aos encantos de alguém do qual você jamais sentirá raiva? Ele tinha um escudo que jamais permitira um ser humano em sã consciência e detentor de um coração dizer adeus. Era difícil, mesmo quando ele simplesmente esquecia suas promessas, sentir raiva. Era como se ele fosse bom demais pra que ela sentisse alguma coisa que não amor.

E sempre houve um fator a mais nessa fórmula que ele evitava citar. Depois de algum tempo, não resistiram a suas fraquezas, ao seu passado. E de uma certa forma ele sempre desejou que desse tudo errado, porque assim voltaria ao seu destino, ao caminho que ele sempre desejou percorrer, com outra pessoa.

Não é fácil esquecer pessoas que fizeram bem quase o tempo todo. Pessoas que viam o mundo de uma forma linda. A Terra poderia estar desabando e se autodestruindo que ele diria: "calma, vai ficar tudo bem". Ele tinha essa mania tola de acreditar que o tempo curaria todas as feridas, que as tempestades passariam e que no fim, todas as feridas abertas com o tempo cicatrizariam. Às vezes ele duvidava de si, mas nunca deixava transparecer o medo. Era o príncipe que lutaria com todos que precisasse pra trazer a paz de volta.

Ela agradecia em silêncio, naquelas noites vazias em que apenas as lembranças habitavam seu quarto. Dizia obrigada por tudo o que ele ensinou. E que até do seu jeito calado enquanto deveria dizer a verdade, ela sentia saudade. Sentia falta do que já não mais teria de novo. E isso a machucava profundamente.


9 de abril de 2013

Strani amore


O problema nunca foi nosso prazo de validade. Tudo nesse mundo formado por átomos tem um fim e nem por isso morre por inanição no meio do caminho. O veneno de qualquer relação é sempre a mentira, ou a falta da verdade, como queira. O que tu costuma chamar de omissão eu chamo de silêncio, e sempre foi atestado de covardia calar pra evitar danos colaterais. Alguma coisa precisava ser dita, você me devia isso como o ser humano que eu pensava que você fosse. E você se foi. 

É uma pena ter gastado algumas folhas de papel tentando dizer o quanto tu foste importante pra mim nesses poucos meses que se passaram. O quanto o teu corpo me trazia paz e conforto. Eu abri mão de muitas coisas, embora você nem imagine, ou não se importe. Do tempo, de deixar outro entrar. E enquanto eu fazia planos sozinha, vi todos espalhados pelo chão do quarto desaparecendo a cada vez que tu trocavas a minha real presença pela companhia de quem nem estava ali. E não me venha falar que há um motivo maior pras escolhas que fazemos. Ou é amor ou não é. 

Não há culpa no mundo que sustente um relacionamento. Culpa que anule o teu presente e te condene a um erro passado levando quem não tem nada a ver com isso a cumprir tua sentença. A gente não conserta as coisas mantendo um erro vivo o tempo todo. Às vezes, acho que é demasiada tua autocomiseração. Sim, porque tamanha culpa que tu insistes em expor ao mundo pode não passar de você sentindo pena de si, tentando se transformar em vítima de um crime que você sabe que cometeu. E eu tenho experiência o suficiente pra dizer em alto e bom tom que tu nunca vais conseguir tirar isso de dentro de ti. É tua sentença.

Não há atitudes certas ou erradas, existem consequências. E o que fica é a tua capacidade de suportá-las ou não. Eu te dei meu coração mesmo sabendo que uma hora levarias ele pra algum continente bem longe daqui. Mas a distância não é algo que machuque mais que tua indiferença. Teu descartar tão fácil, o melhor dos mundos nas tuas mãos e você como uma criança sem saber se quer bala ou chiclete.

Mas essa tua dúvida não te dá o direito de pedir pra que eu fique e ir embora sem avisar. Eu cansei das tuas migalhas, da tua surdez. Cansei de gritar por aí o quanto eu te queria. Eu perdi a voz. Perdi a vontade de ti. Abandonei a causa e meu costume de não usar pontos finais. Eu não sou forte o suficiente pra te deixar ir pra sempre. Confesso. Mas aos poucos o tempo vai passando, o vento sopra, a maré vira e nossos barcos se vão em direções diferentes. Pra nunca mais se encontrarem, porque eu sei que teu porto sempre foi em outro lugar.

3 de abril de 2013

Vaidades que a terra há de comer

Texto de algum mês de 2011 para a disciplina de Redação V. Às vezes é bom voltar no tempo.

O ser humano é um bicho egoísta. A gente já nasce com aquele sentimento de que o mundo é nosso. Tudo é nosso, e só nosso. Primeiro são os brinquedos que a gente não quer emprestar, depois o melhor amigo, aí o ombro, o tempo, o dinheiro. Um dia a gente aprendeu com alguém mais velho que era preciso ser o melhor, vencer a gincana, torcer para um time que sempre ganha, receber elogios, ser promovido, inflar o ego e alcançar o pódio. Vaidades que a terra um dia há de comer, como diz a letra da música. Estamos o tempo todo competindo. Nossa espécie mata outros da mesma espécie por prazer, por amor, por ódio, por terra, por papel, por religião, por dinheiro ou por motivo algum. Tão racionais que somos, colaboramos a cada dia para o fim da nossa e das outras espécies. Somos predadores de nós mesmos. Ou seriam os tão brutos, sem racionalidade e malvados leopardos, gorilas, tubarões e crocodilos os responsáveis por todo esse desequilíbrio ambiental? Seres humanos são capazes de aprovar leis que privilegiam o fim das matas, dos rios, dos bichos. Taí, o novo (retrógrado) Código Florestal brasileiro. Só mais uma prova autenticada de quão burros – desculpem-me os animais por tamanha injúria – e imediatistas somos. Queremos progresso, futuro, evolução, tecnologia, rapidez, e esquecemos o que estamos fazendo agora. Mas e o depois? Aquecimento global, queimadas, poluição, extinção? Ah, nem estaremos mais aqui...

Enquanto isso, lá na Antártida, colônias de Pinguins-Imperadores formam verdadeiros círculos fechados para proteger seus ovos e superar temperaturas de -40 °C e ventos de 200 km/h. Os machos que ficam nas extremidades revezam o tempo inteiro com todos os pinguins da roda. Isso se chama cooperação. Bandos de pássaros migram juntos por todo o planeta como se tivessem ensaiado uma dança, completamente sincronizados. Achamos um espetáculo da natureza, algo digno de ser fotografado e admirado, para eles, é só uma questão de união e sobrevivência. Abelhas têm um sistema de cooperação invejável. Há uma hierarquia, há também a realeza, os nobres, os operários, mas no fim, todas ganham, todas produzem o doce e apreciável mel.

E, nós, humanos? Costumamos nos atropelar por aí. É a pressa de viver que acaba apressando a própria morte. E, de vez em quando, a de quem não tem nada a ver com isso. Antes de chamarmos alguém de mula, anta, vaca, cobra ou qualquer outra espécie animal, pensemos muito bem se, na verdade, não estamos fazendo um elogio ao invés de um xingamento.

Tom Shadyac, conhecido diretor de filmes de comédia estrelados por Jim Carrey, lançou um documentário chamado “I am”. É sua redenção, segundo ele mesmo, após ter ganhado muito dinheiro, realizado extravagâncias e um dia ter parado e simplesmente se perguntado: “O que há de errado com o mundo?” Ele admite que também permanece cheio de egoísmo, mas que luta todos os dias para superá-lo. Espelhando-se em Shadyac, às vezes, seria bom pensar que é muito mais gratificante um jogo de frescobol em que os dois cooperam mutuamente e ganham, do que um de tênis de mesa, em que há apenas um vencedor. Mas ainda estamos longe de deixar o senso comum pra trás e acreditar em uma nova forma de interação social.

Como diria o vocalista da banda Engenheiros do Hawaii, “chegamos ao fim do século, voltamos enfim ao início. Quando se anda em círculos nunca se é rápido o bastante”. Temos realmente todo o tempo do mundo?


O link para a publicação: http://issuu.com/luhsmile/docs/zero_revista/1

24 de março de 2013

Goodbye my lover

Pela primeira vez não sei o que sentir ao escrever. Se é raiva, amor, decepção, perda... Se tudo junto. É difícil dizer adeus ao que nem bem começou, ao que ainda não se descobriu o que é. E já foi. Assim, de repente, é passado.

Ninguém nunca aprende a decifrar completamente a própria alma, quem dirá a alheia. É um jogo de quebra-cabeça em que sempre faltam peças, é impossível enxergar o que realmente representa. A gente só imagina o que é aquilo ali. E de repente, vem alguém e bagunça tudo, todo o tempo que a gente perdeu juntando as pecinhas, separando uma por uma antes de começar a tentar encaixá-las. E parece impossível começar de novo, porque agora você já sabe que tem peças faltando, que nunca vai poder enxergar tudo pelo que vocês perderam tempo construindo. E quem nessa vida quer investir tempo em um projeto que não vai ter sucesso? Em um futuro sem sentido. Em molduras vazias.

É hora de crescer e guardar as peças dentro da caixa e depois deixar por ali. Se um dia alguém quiser abrir e começar tudo de novo, com paciência, compreensão e certeza de que não é o resultado final que faz desse jogo algo tão legal. Porque depois de montado ele fica ali, estático, sem graça, esquecido. O melhor de tudo foi o tempo investido no que ambos acreditavam ser o caminho certo, um jeito de aproveitar a vida enquanto desse, e nada mais que isso. E acabou o tempo.


22 de março de 2013

Obrigada, cara.

Ouvir "eu te amo" tão cedo pela primeira vez teve suas vantagens. Principalmente por não passar de uma grande e bela mentira. Qualquer menina de 15 anos deitaria a cabeça no travesseiro e pensaria com a convicção de quem já desvendou todos os mistérios da vida: encontrei meu príncipe encantado. Pena, mal sabia que era o sapo. Ter lidado com um ser humano, que hoje eu consigo enxergar que era podre por dentro, quase sem alma, tão egocêntrico que se atrapalhava pra dizer a simples frase de três palavras, porque pra ele era realmente difícil amar alguém além dele mesmo. Tão possessivo que imagino ter uma coleção valiosa em casa. Na parede, pedaços de corações inocentes pregados. Na estante, potes e mais potes de lágrimas sinceras.
A parte boa - sim, porque realmente existe - de ter lidado com um ser desses quando recém descobri o amor foi ter cacife pra lidar com qualquer um. Enfrentar o chefão antes de passar as fases mais fáceis pode não ser a ordem (crono)lógica da vida, mas foi pra mim a melhor forma de me tornar mulher. Eu bato no peito pra dizer: vem. É só mais um. Eu derrotei o chefão, salvei a princesa - nesse caso, algo como um autossalvamento na falta do super-herói que ainda não veio. É claro que um escudo não protege de umas tempestades mais fortes, mas é o que tenho e o que eu uso pra passar por elas no menor tempo possível. A gente vai crescendo e percebe que a pergunta "o que foi que eu fiz dessa vez" às vezes vem com uma resposta simples no rodapé: nada.
Já passou o tempo em que eu achava que o problema era sempre comigo. Acho que o maior de todos é exatamente eu não ter medo de quem chegue. Eu não tenho mais medo de amar um idiota. Eu não tenho medo de amar. Se for pra me atirar do abismo, depois de muitos anos entre o "to be or not to be" eu decidi sempre dizer sim. Porque eu tenho a certeza e a força de que na hora que precisar ser forte, eu vou ser. E que se for pra acabar, eu vou deixar partir. E isso assusta.
Então, meus sinceros agradecimentos ao primeiro e maior idiota da minha vida. Obrigada, cara. Você me ensinou que nada, nada nem ninguém serão piores que você. Boa sorte com sua coleção de horrores. E que tu encontres uma guria que te ensine a ser homem de verdade. Até nunca mais.

10 de fevereiro de 2013

The shorter story

Nunca subestime sua capacidade de se apaixonar. Parece sinopse daqueles filmes hollywoodianos feitos pra mulherzinhas chorarem. Uma amizade que nasce, cresce, não chega a envelhecer e morre na metade do caminho. E sempre tem uma personagem que ama demais, e termina por chorar mais um amor perdido. Perdido não. Porque ela sempre descobre que tem mais. Que a fonte não esgota.

Tem aquele outro que ela jura ser só diversão e que no final se torna maior: e pior. Nesse caso, uma mentira contada muitas vezes só atesta a verdade. Transborda. Escancara que há pessoas que nasceram só coração, e que quando tentam agir racionalmente fazem pior do que o esperado. É surpreendente a capacidade de fazer merda quando se gosta e usa apenas o amor como verdade. O amor é meu Norte. E eu sempre carreguei a bússola comigo.

Também parece que já protagonizei uns quatro filmes com as cenas finais em estações rodoviárias. O mocinho indo embora sem uma lágrima caindo, a mocinha dando adeus com o coração em pedaços e guardando as lágrimas para o almoço ou qualquer próxima parada. E aquele relógio marcando a hora da partida. O tic-tac de cada segundo, o coração desritmando, quase uma sinfonia de despedida. A sinfonia acompanhada do maior e pior silêncio que pode existir: o último.

Eu coleciono dessas cenas tristes, dessas cenas gregas, desses dias de céu nublado, de chuva, de noite sem estrelas como uma criança coleciona um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro. Com a diferença de que no outro ano tem álbum novo. Eu continuo com o mesmo, e até com um certo orgulho. Sempre fui de guardar lembranças. Afinal, de que é feita a vida senão lembrar o que foi e viver o que é? Existe passado e presente e ponto final.

E é nesse vai-e-vem, do álbum de figurinhas dos últimos 23 anos, que tenho me apoiado. Se é bom sentir tristeza? Talvez seja melhor que não sentir nada. Acho que nunca estive vazia, e se um dia conseguisse, enlouqueceria. Eu quero o máximo, o limite, o pra sempre até amanhã. Eu quero um amor que não conheço. Um amor fácil, amor simples, sem que doa. Eu só ainda não esbarrei com ele.

O filme do semestre? Algo como garota vai morar naquele país que as pessoas xingam ao invés de falar, conhece um amante de pimenta chamado "eu vou foder tua vida", se apaixona e descobre que o coração já tem dona, além da pimenta. Ele vai embora. Fim. O nome do filme? "Pimenta no cu nos olhos dos outros é refresco".

O Oscar vem aí e eu bem que merecia uma daquelas estatuetas douradas pelo papel "eu sou a melhor amiga que não quer ser amiga que um homem pode querer". Aplausos, por favor.








1 de fevereiro de 2013

Às vezes nunca


Às vezes a gente lê um livro muito bom e triste e acha genial. Mas muda de ideia quando se vê lá. O seu passado, presente e o amanhã grafados em umas páginas escritas por um cara que já morreu. E mesmo assim ele acerta cada passo da tua vida. Primeiro a gente se sente menos só no mundo, compreensão, sentimento de pertencimento. Não sou só eu. Mas essa segurança dura até o momento em que você se reconhece de novo, e de novo e de novo. Como se sua sentença de vida já estivesse decretada. E no meu caso, a sentença é ser feliz sozinha. E que, pelo amor de Deus, isso seja possível. Eu já tentei ser legal, já tentei ser amável, neurótica, desligada, já tentei eu te amo e só sexo. Nada funciona. Eu vim com defeito de fábrica e esqueceram de me chamar para o recall. O que dói foi eu ter sonhado tanto com um príncipe encantando e um dia até ter acreditado que existia. Muita fantasia acaba destruindo sonhos que poderiam se tornar reais. Amadureci bastante nesses tantos anos de idas e vindas. Chorei o suficiente e fui fraca por não sentir raiva quando deveria. Mas finalmente aprendi que não se forçam peças que não se encaixam. Que alguma hora, quando você menos espera, elas irão quebrar. É mais racional perceber a diferença antes e afastá-las. Pelo bem-estar da nação. Mas sempre fica aquele vazio, aquele silêncio depois que acaba a música. Acho que é tudo. Eu não preciso escrever mais nada porque o texto abaixo me decifrou, melhor do que eu faria. Um texto pra ser lido em absoluto silêncio e solidão.

Acho que o fato de ser só é inevitável, independe de fatos externos. Há pessoas que nascem para serem sós a vida inteira. Eu, por exemplo. Acho que mesmo que um dia case e tenha uns dez filhos (coisa que não me atrai nem um pouco, diga-se de passagem), ou mesmo que consiga encontrar a amizade que sonho e de cuja existência a cada dia mais e mais duvido acho que mesmo que aconteçam essas coisas, continuarei só. Claro que há a minha própria companhia, este diário, o livro que leio, as drogas que escrevo de vez em quando mas tudo como que circunscrito a um círculo completamente fechado. Freqüentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento. Mas nada posso fazer, estas coisas acontecem sem que a gente a procure. O melhor a fazer é deixar “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”, como disse o poeta. E mesmo assim, talvez eu continue a fazer as refeições sozinho durante toda a vida.”
Caio F. Abreu



28 de janeiro de 2013

Santa Maria

Ontem, acordei e pensei que seria mais um domingo. Café da manhã quase na hora do almoço, um pouco de tédio, monotonia, mais um domingo feliz. Logo que abri os olhos recebi uma mensagem do Brasil contando que uma boate no Sul havia queimado. E o pior: havia muita gente lá dentro. No começo, só mais uma notícia triste, algumas mortes e a vida continua. Mas o dia foi passando e um nó na garganta se fez. Um daqueles que a gente demora a engolir. Um aperto no peito. Fumaça, fumaça, escuridão. Por quê? Eu não conhecia ninguém lá, nem amigos, nem parentes. Uma conhecida de uma prima se foi. Como muitas vidas que tinham tudo pela frente. Tinham vontade, medos, persistência, sonhos. Sonhos iguais aos meus, sonhos de quem tem juventude na alma e pouco medo da morte. Basta ser humano e ter coração pra chorar com as famílias, que hoje, acordaram sem um pedaço da alma. Acordaram do que mais parece um pesadelo ou um final de um filme apelativo. Mas é real. Por incompetência, por descaso, por falta de amor ao próximo, por uma terrível fatalidade, famílias choram por quem nunca mais vai voltar. E é esse sentimento de perda, do nunca mais tocar, abraçar, ouvir a voz que mais dói. E que não passa. Eu tenho certeza que não passa. Eu não quero imaginar o que é a dor de perder um filho. Eu sei que algumas mães jamais conseguirão seguir suas vidas novamente com um sorriso sincero no rosto. E não há como pensar em todas as vezes que era eu lá. Meus amigos, felizes, comemorando a vida. Brindando os dias de faculdade, os dias de amizade. Brindando a juventude. Em lugares nem tão seguros assim. Mas a gente não liga. A gente é jovem e acha que é invencível. E só dá valor à vida quando a morte se aproxima ao ponto de ceifar quem amamos. São 232 vidas tiradas por uma falha humana. Não foi uma catástrofe da natureza, não foi intencional. E dói. Dói porque essas vidas têm rostos, essas vidas tinham um caminho a seguir. E aqui de longe, eu rezo. Rezei e continuo rezando pra que esses espíritos encontrem paz. Que suas famílias deixem com que se vão. E é preciso com que aconteça uma tragédia pra que os conselhos do pai e da mãe de que "esse lugar não parece seguro", "não volta pra casa tarde", "cuida com quem tu andas e cuide de quem tu andas", "presta atenção a tua volta, filha", se tornem as fortalezas mais preciosas. Que nunca foi demais ouvir seus pais, que a cara feia por escutar sempre as mesmas frases e perguntas se converta em um abraço forte de "eu também te amo". Porque quando chegar a hora - e a gente nunca sabe quando - o amor não tenha faltado. Meu Senhor, eu peço perdão por todas as vezes que perdi o amor pela vida. E obrigada por sempre me proteger. Obrigada, obrigada e obrigada por permitir com que eu continue meu caminho. E cuide das almas que não conseguiram o mesmo. Luz. Eu desejo luz sobre essas famílias, sobre essa nuvem de desespero e adeus que ficou. Morreu um pouco da juventude e da eternidade que existem em mim. Termino com as palavras que transmitiram um pouco do que cada ser humano com coração sentiu nesse último domingo:

"Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça." Carpinejar