10 de fevereiro de 2013

The shorter story

Nunca subestime sua capacidade de se apaixonar. Parece sinopse daqueles filmes hollywoodianos feitos pra mulherzinhas chorarem. Uma amizade que nasce, cresce, não chega a envelhecer e morre na metade do caminho. E sempre tem uma personagem que ama demais, e termina por chorar mais um amor perdido. Perdido não. Porque ela sempre descobre que tem mais. Que a fonte não esgota.

Tem aquele outro que ela jura ser só diversão e que no final se torna maior: e pior. Nesse caso, uma mentira contada muitas vezes só atesta a verdade. Transborda. Escancara que há pessoas que nasceram só coração, e que quando tentam agir racionalmente fazem pior do que o esperado. É surpreendente a capacidade de fazer merda quando se gosta e usa apenas o amor como verdade. O amor é meu Norte. E eu sempre carreguei a bússola comigo.

Também parece que já protagonizei uns quatro filmes com as cenas finais em estações rodoviárias. O mocinho indo embora sem uma lágrima caindo, a mocinha dando adeus com o coração em pedaços e guardando as lágrimas para o almoço ou qualquer próxima parada. E aquele relógio marcando a hora da partida. O tic-tac de cada segundo, o coração desritmando, quase uma sinfonia de despedida. A sinfonia acompanhada do maior e pior silêncio que pode existir: o último.

Eu coleciono dessas cenas tristes, dessas cenas gregas, desses dias de céu nublado, de chuva, de noite sem estrelas como uma criança coleciona um álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro. Com a diferença de que no outro ano tem álbum novo. Eu continuo com o mesmo, e até com um certo orgulho. Sempre fui de guardar lembranças. Afinal, de que é feita a vida senão lembrar o que foi e viver o que é? Existe passado e presente e ponto final.

E é nesse vai-e-vem, do álbum de figurinhas dos últimos 23 anos, que tenho me apoiado. Se é bom sentir tristeza? Talvez seja melhor que não sentir nada. Acho que nunca estive vazia, e se um dia conseguisse, enlouqueceria. Eu quero o máximo, o limite, o pra sempre até amanhã. Eu quero um amor que não conheço. Um amor fácil, amor simples, sem que doa. Eu só ainda não esbarrei com ele.

O filme do semestre? Algo como garota vai morar naquele país que as pessoas xingam ao invés de falar, conhece um amante de pimenta chamado "eu vou foder tua vida", se apaixona e descobre que o coração já tem dona, além da pimenta. Ele vai embora. Fim. O nome do filme? "Pimenta no cu nos olhos dos outros é refresco".

O Oscar vem aí e eu bem que merecia uma daquelas estatuetas douradas pelo papel "eu sou a melhor amiga que não quer ser amiga que um homem pode querer". Aplausos, por favor.








1 de fevereiro de 2013

Às vezes nunca


Às vezes a gente lê um livro muito bom e triste e acha genial. Mas muda de ideia quando se vê lá. O seu passado, presente e o amanhã grafados em umas páginas escritas por um cara que já morreu. E mesmo assim ele acerta cada passo da tua vida. Primeiro a gente se sente menos só no mundo, compreensão, sentimento de pertencimento. Não sou só eu. Mas essa segurança dura até o momento em que você se reconhece de novo, e de novo e de novo. Como se sua sentença de vida já estivesse decretada. E no meu caso, a sentença é ser feliz sozinha. E que, pelo amor de Deus, isso seja possível. Eu já tentei ser legal, já tentei ser amável, neurótica, desligada, já tentei eu te amo e só sexo. Nada funciona. Eu vim com defeito de fábrica e esqueceram de me chamar para o recall. O que dói foi eu ter sonhado tanto com um príncipe encantando e um dia até ter acreditado que existia. Muita fantasia acaba destruindo sonhos que poderiam se tornar reais. Amadureci bastante nesses tantos anos de idas e vindas. Chorei o suficiente e fui fraca por não sentir raiva quando deveria. Mas finalmente aprendi que não se forçam peças que não se encaixam. Que alguma hora, quando você menos espera, elas irão quebrar. É mais racional perceber a diferença antes e afastá-las. Pelo bem-estar da nação. Mas sempre fica aquele vazio, aquele silêncio depois que acaba a música. Acho que é tudo. Eu não preciso escrever mais nada porque o texto abaixo me decifrou, melhor do que eu faria. Um texto pra ser lido em absoluto silêncio e solidão.

Acho que o fato de ser só é inevitável, independe de fatos externos. Há pessoas que nascem para serem sós a vida inteira. Eu, por exemplo. Acho que mesmo que um dia case e tenha uns dez filhos (coisa que não me atrai nem um pouco, diga-se de passagem), ou mesmo que consiga encontrar a amizade que sonho e de cuja existência a cada dia mais e mais duvido acho que mesmo que aconteçam essas coisas, continuarei só. Claro que há a minha própria companhia, este diário, o livro que leio, as drogas que escrevo de vez em quando mas tudo como que circunscrito a um círculo completamente fechado. Freqüentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento. Mas nada posso fazer, estas coisas acontecem sem que a gente a procure. O melhor a fazer é deixar “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”, como disse o poeta. E mesmo assim, talvez eu continue a fazer as refeições sozinho durante toda a vida.”
Caio F. Abreu