1 de fevereiro de 2013

Às vezes nunca


Às vezes a gente lê um livro muito bom e triste e acha genial. Mas muda de ideia quando se vê lá. O seu passado, presente e o amanhã grafados em umas páginas escritas por um cara que já morreu. E mesmo assim ele acerta cada passo da tua vida. Primeiro a gente se sente menos só no mundo, compreensão, sentimento de pertencimento. Não sou só eu. Mas essa segurança dura até o momento em que você se reconhece de novo, e de novo e de novo. Como se sua sentença de vida já estivesse decretada. E no meu caso, a sentença é ser feliz sozinha. E que, pelo amor de Deus, isso seja possível. Eu já tentei ser legal, já tentei ser amável, neurótica, desligada, já tentei eu te amo e só sexo. Nada funciona. Eu vim com defeito de fábrica e esqueceram de me chamar para o recall. O que dói foi eu ter sonhado tanto com um príncipe encantando e um dia até ter acreditado que existia. Muita fantasia acaba destruindo sonhos que poderiam se tornar reais. Amadureci bastante nesses tantos anos de idas e vindas. Chorei o suficiente e fui fraca por não sentir raiva quando deveria. Mas finalmente aprendi que não se forçam peças que não se encaixam. Que alguma hora, quando você menos espera, elas irão quebrar. É mais racional perceber a diferença antes e afastá-las. Pelo bem-estar da nação. Mas sempre fica aquele vazio, aquele silêncio depois que acaba a música. Acho que é tudo. Eu não preciso escrever mais nada porque o texto abaixo me decifrou, melhor do que eu faria. Um texto pra ser lido em absoluto silêncio e solidão.

Acho que o fato de ser só é inevitável, independe de fatos externos. Há pessoas que nascem para serem sós a vida inteira. Eu, por exemplo. Acho que mesmo que um dia case e tenha uns dez filhos (coisa que não me atrai nem um pouco, diga-se de passagem), ou mesmo que consiga encontrar a amizade que sonho e de cuja existência a cada dia mais e mais duvido acho que mesmo que aconteçam essas coisas, continuarei só. Claro que há a minha própria companhia, este diário, o livro que leio, as drogas que escrevo de vez em quando mas tudo como que circunscrito a um círculo completamente fechado. Freqüentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento. Mas nada posso fazer, estas coisas acontecem sem que a gente a procure. O melhor a fazer é deixar “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”, como disse o poeta. E mesmo assim, talvez eu continue a fazer as refeições sozinho durante toda a vida.”
Caio F. Abreu



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