14 de abril de 2013

Dos fins

Talvez essa dificuldade em deixar partir seja exatamente por só conseguir enxergar o passado como uma ótima canção.

Tudo começou quando, dentre tanta grosseria e machismo, ele usava palavras e gestos que conquistariam qualquer menininha que ainda acreditasse em príncipe encantado. Ela foi resistindo com o pensamento de que era só mais um garotinho querendo impressionar garotinhas em um país estranho. E ele mal sabia que tinha alguém o observando e sentindo um friozinho na barriga cada vez que os gestos eram pra ela. E quando o coração bate mais forte só porque alguém se aproxima é porque tem muito amor e dor pela frente. E ela sabia que depois de tantos sorrisos, ele fatalmente levaria uma parte dela, mas jamais levaria as belas lembranças que certamente deixaria após partir.

Ela esperou tempo demais pra dizer que o que tinham já não era o suficiente. Havia mais, e transbordava. E num outro país estranho decidiu que daquela noite não passaria. Ela matou um pouco do romantismo, mas permitiu que o algo mais que tanto esperara finalmente acontecesse. Entre o risco de ser só uma noite e tê-lo  por mais alguns meses, por que não tentar?

Ele era um cavalheiro, daqueles que parecem estar sempre um passo a frente, pra segurar a dama antes que ela caia. E sempre perguntava se estava tudo bem. Depois de uma semana, era um príncipe em sua bicicleta levando a princesinha para o castelo pra ver um dos fins de tarde mais bonitos que vira no tal país estranho. Era irônico como a vida podia fazer dois caminhos completamente diferentes se encontrarem pra brindar a vida com chocolate quente. Era frio lá fora, mas eles sabiam que ali, juntos, era seguro e mais quente que em qualquer lugar do mundo.

Passaram-se alguns dias e o passado bateu à porta. E acabou tudo em uma bela amizade que não resistiria muito tempo e, por força do destino, tornar-se-ia amor de novo. E voltou tudo a ser paixão, e beijos e abraços de quem sabe que a hora certa nunca vai chegar.

Ele era bom demais pra ser real. Era um daqueles caras que a gente vê em filmes, que faz tudo pela mocinha, e que quando erra, volta com aquele olhar que só ele sabe fazer e um punhado de chocolate nas mãos. Como resistir aos encantos de alguém do qual você jamais sentirá raiva? Ele tinha um escudo que jamais permitira um ser humano em sã consciência e detentor de um coração dizer adeus. Era difícil, mesmo quando ele simplesmente esquecia suas promessas, sentir raiva. Era como se ele fosse bom demais pra que ela sentisse alguma coisa que não amor.

E sempre houve um fator a mais nessa fórmula que ele evitava citar. Depois de algum tempo, não resistiram a suas fraquezas, ao seu passado. E de uma certa forma ele sempre desejou que desse tudo errado, porque assim voltaria ao seu destino, ao caminho que ele sempre desejou percorrer, com outra pessoa.

Não é fácil esquecer pessoas que fizeram bem quase o tempo todo. Pessoas que viam o mundo de uma forma linda. A Terra poderia estar desabando e se autodestruindo que ele diria: "calma, vai ficar tudo bem". Ele tinha essa mania tola de acreditar que o tempo curaria todas as feridas, que as tempestades passariam e que no fim, todas as feridas abertas com o tempo cicatrizariam. Às vezes ele duvidava de si, mas nunca deixava transparecer o medo. Era o príncipe que lutaria com todos que precisasse pra trazer a paz de volta.

Ela agradecia em silêncio, naquelas noites vazias em que apenas as lembranças habitavam seu quarto. Dizia obrigada por tudo o que ele ensinou. E que até do seu jeito calado enquanto deveria dizer a verdade, ela sentia saudade. Sentia falta do que já não mais teria de novo. E isso a machucava profundamente.


9 de abril de 2013

Strani amore


O problema nunca foi nosso prazo de validade. Tudo nesse mundo formado por átomos tem um fim e nem por isso morre por inanição no meio do caminho. O veneno de qualquer relação é sempre a mentira, ou a falta da verdade, como queira. O que tu costuma chamar de omissão eu chamo de silêncio, e sempre foi atestado de covardia calar pra evitar danos colaterais. Alguma coisa precisava ser dita, você me devia isso como o ser humano que eu pensava que você fosse. E você se foi. 

É uma pena ter gastado algumas folhas de papel tentando dizer o quanto tu foste importante pra mim nesses poucos meses que se passaram. O quanto o teu corpo me trazia paz e conforto. Eu abri mão de muitas coisas, embora você nem imagine, ou não se importe. Do tempo, de deixar outro entrar. E enquanto eu fazia planos sozinha, vi todos espalhados pelo chão do quarto desaparecendo a cada vez que tu trocavas a minha real presença pela companhia de quem nem estava ali. E não me venha falar que há um motivo maior pras escolhas que fazemos. Ou é amor ou não é. 

Não há culpa no mundo que sustente um relacionamento. Culpa que anule o teu presente e te condene a um erro passado levando quem não tem nada a ver com isso a cumprir tua sentença. A gente não conserta as coisas mantendo um erro vivo o tempo todo. Às vezes, acho que é demasiada tua autocomiseração. Sim, porque tamanha culpa que tu insistes em expor ao mundo pode não passar de você sentindo pena de si, tentando se transformar em vítima de um crime que você sabe que cometeu. E eu tenho experiência o suficiente pra dizer em alto e bom tom que tu nunca vais conseguir tirar isso de dentro de ti. É tua sentença.

Não há atitudes certas ou erradas, existem consequências. E o que fica é a tua capacidade de suportá-las ou não. Eu te dei meu coração mesmo sabendo que uma hora levarias ele pra algum continente bem longe daqui. Mas a distância não é algo que machuque mais que tua indiferença. Teu descartar tão fácil, o melhor dos mundos nas tuas mãos e você como uma criança sem saber se quer bala ou chiclete.

Mas essa tua dúvida não te dá o direito de pedir pra que eu fique e ir embora sem avisar. Eu cansei das tuas migalhas, da tua surdez. Cansei de gritar por aí o quanto eu te queria. Eu perdi a voz. Perdi a vontade de ti. Abandonei a causa e meu costume de não usar pontos finais. Eu não sou forte o suficiente pra te deixar ir pra sempre. Confesso. Mas aos poucos o tempo vai passando, o vento sopra, a maré vira e nossos barcos se vão em direções diferentes. Pra nunca mais se encontrarem, porque eu sei que teu porto sempre foi em outro lugar.

3 de abril de 2013

Vaidades que a terra há de comer

Texto de algum mês de 2011 para a disciplina de Redação V. Às vezes é bom voltar no tempo.

O ser humano é um bicho egoísta. A gente já nasce com aquele sentimento de que o mundo é nosso. Tudo é nosso, e só nosso. Primeiro são os brinquedos que a gente não quer emprestar, depois o melhor amigo, aí o ombro, o tempo, o dinheiro. Um dia a gente aprendeu com alguém mais velho que era preciso ser o melhor, vencer a gincana, torcer para um time que sempre ganha, receber elogios, ser promovido, inflar o ego e alcançar o pódio. Vaidades que a terra um dia há de comer, como diz a letra da música. Estamos o tempo todo competindo. Nossa espécie mata outros da mesma espécie por prazer, por amor, por ódio, por terra, por papel, por religião, por dinheiro ou por motivo algum. Tão racionais que somos, colaboramos a cada dia para o fim da nossa e das outras espécies. Somos predadores de nós mesmos. Ou seriam os tão brutos, sem racionalidade e malvados leopardos, gorilas, tubarões e crocodilos os responsáveis por todo esse desequilíbrio ambiental? Seres humanos são capazes de aprovar leis que privilegiam o fim das matas, dos rios, dos bichos. Taí, o novo (retrógrado) Código Florestal brasileiro. Só mais uma prova autenticada de quão burros – desculpem-me os animais por tamanha injúria – e imediatistas somos. Queremos progresso, futuro, evolução, tecnologia, rapidez, e esquecemos o que estamos fazendo agora. Mas e o depois? Aquecimento global, queimadas, poluição, extinção? Ah, nem estaremos mais aqui...

Enquanto isso, lá na Antártida, colônias de Pinguins-Imperadores formam verdadeiros círculos fechados para proteger seus ovos e superar temperaturas de -40 °C e ventos de 200 km/h. Os machos que ficam nas extremidades revezam o tempo inteiro com todos os pinguins da roda. Isso se chama cooperação. Bandos de pássaros migram juntos por todo o planeta como se tivessem ensaiado uma dança, completamente sincronizados. Achamos um espetáculo da natureza, algo digno de ser fotografado e admirado, para eles, é só uma questão de união e sobrevivência. Abelhas têm um sistema de cooperação invejável. Há uma hierarquia, há também a realeza, os nobres, os operários, mas no fim, todas ganham, todas produzem o doce e apreciável mel.

E, nós, humanos? Costumamos nos atropelar por aí. É a pressa de viver que acaba apressando a própria morte. E, de vez em quando, a de quem não tem nada a ver com isso. Antes de chamarmos alguém de mula, anta, vaca, cobra ou qualquer outra espécie animal, pensemos muito bem se, na verdade, não estamos fazendo um elogio ao invés de um xingamento.

Tom Shadyac, conhecido diretor de filmes de comédia estrelados por Jim Carrey, lançou um documentário chamado “I am”. É sua redenção, segundo ele mesmo, após ter ganhado muito dinheiro, realizado extravagâncias e um dia ter parado e simplesmente se perguntado: “O que há de errado com o mundo?” Ele admite que também permanece cheio de egoísmo, mas que luta todos os dias para superá-lo. Espelhando-se em Shadyac, às vezes, seria bom pensar que é muito mais gratificante um jogo de frescobol em que os dois cooperam mutuamente e ganham, do que um de tênis de mesa, em que há apenas um vencedor. Mas ainda estamos longe de deixar o senso comum pra trás e acreditar em uma nova forma de interação social.

Como diria o vocalista da banda Engenheiros do Hawaii, “chegamos ao fim do século, voltamos enfim ao início. Quando se anda em círculos nunca se é rápido o bastante”. Temos realmente todo o tempo do mundo?


O link para a publicação: http://issuu.com/luhsmile/docs/zero_revista/1