3 de abril de 2013

Vaidades que a terra há de comer

Texto de algum mês de 2011 para a disciplina de Redação V. Às vezes é bom voltar no tempo.

O ser humano é um bicho egoísta. A gente já nasce com aquele sentimento de que o mundo é nosso. Tudo é nosso, e só nosso. Primeiro são os brinquedos que a gente não quer emprestar, depois o melhor amigo, aí o ombro, o tempo, o dinheiro. Um dia a gente aprendeu com alguém mais velho que era preciso ser o melhor, vencer a gincana, torcer para um time que sempre ganha, receber elogios, ser promovido, inflar o ego e alcançar o pódio. Vaidades que a terra um dia há de comer, como diz a letra da música. Estamos o tempo todo competindo. Nossa espécie mata outros da mesma espécie por prazer, por amor, por ódio, por terra, por papel, por religião, por dinheiro ou por motivo algum. Tão racionais que somos, colaboramos a cada dia para o fim da nossa e das outras espécies. Somos predadores de nós mesmos. Ou seriam os tão brutos, sem racionalidade e malvados leopardos, gorilas, tubarões e crocodilos os responsáveis por todo esse desequilíbrio ambiental? Seres humanos são capazes de aprovar leis que privilegiam o fim das matas, dos rios, dos bichos. Taí, o novo (retrógrado) Código Florestal brasileiro. Só mais uma prova autenticada de quão burros – desculpem-me os animais por tamanha injúria – e imediatistas somos. Queremos progresso, futuro, evolução, tecnologia, rapidez, e esquecemos o que estamos fazendo agora. Mas e o depois? Aquecimento global, queimadas, poluição, extinção? Ah, nem estaremos mais aqui...

Enquanto isso, lá na Antártida, colônias de Pinguins-Imperadores formam verdadeiros círculos fechados para proteger seus ovos e superar temperaturas de -40 °C e ventos de 200 km/h. Os machos que ficam nas extremidades revezam o tempo inteiro com todos os pinguins da roda. Isso se chama cooperação. Bandos de pássaros migram juntos por todo o planeta como se tivessem ensaiado uma dança, completamente sincronizados. Achamos um espetáculo da natureza, algo digno de ser fotografado e admirado, para eles, é só uma questão de união e sobrevivência. Abelhas têm um sistema de cooperação invejável. Há uma hierarquia, há também a realeza, os nobres, os operários, mas no fim, todas ganham, todas produzem o doce e apreciável mel.

E, nós, humanos? Costumamos nos atropelar por aí. É a pressa de viver que acaba apressando a própria morte. E, de vez em quando, a de quem não tem nada a ver com isso. Antes de chamarmos alguém de mula, anta, vaca, cobra ou qualquer outra espécie animal, pensemos muito bem se, na verdade, não estamos fazendo um elogio ao invés de um xingamento.

Tom Shadyac, conhecido diretor de filmes de comédia estrelados por Jim Carrey, lançou um documentário chamado “I am”. É sua redenção, segundo ele mesmo, após ter ganhado muito dinheiro, realizado extravagâncias e um dia ter parado e simplesmente se perguntado: “O que há de errado com o mundo?” Ele admite que também permanece cheio de egoísmo, mas que luta todos os dias para superá-lo. Espelhando-se em Shadyac, às vezes, seria bom pensar que é muito mais gratificante um jogo de frescobol em que os dois cooperam mutuamente e ganham, do que um de tênis de mesa, em que há apenas um vencedor. Mas ainda estamos longe de deixar o senso comum pra trás e acreditar em uma nova forma de interação social.

Como diria o vocalista da banda Engenheiros do Hawaii, “chegamos ao fim do século, voltamos enfim ao início. Quando se anda em círculos nunca se é rápido o bastante”. Temos realmente todo o tempo do mundo?


O link para a publicação: http://issuu.com/luhsmile/docs/zero_revista/1

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