31 de maio de 2013

Quase amor VI

Comecei uma história na semana passada e me recuso a terminá-la desse jeito. Também porque uma parte dela foi vivida só na minha cabeça e não faria sentido não contar exatamente a verdade. A história bonita acabou. Falei algumas vezes, insistentemente, sobre a mesma pessoa. Eu me alimento e me enveneno de verdade. Eu não sei lidar com mentiras ou omissões. Quero saber de tudo, por mais que algumas partes me afetem mais do que imaginara. Não é fácil conviver com a verdade depois de algum tempo fantasiando um sentimento que nunca existiu. Se a gente não consegue controlar nossos sentimentos, que dirá o dos outros.

Não vou culpá-lo por não ter sentido o quanto eu senti por ti, o que ainda sinto. Embora, agora, comece a parar de remar contra a corrente. Eu só não entendo por que a verdade ficou escondida por tanto tempo. Você me disse que era óbvio, que eu sempre soube. Desculpe, eu não sou oráculo, não leio mentes e muito menos corações. E também nunca ouvi falar em "gosto de você às vezes". Isso deve ser pior do que odiar e eu não me submeto mais a um amor "às vezes". Enfim, aquele fio de esperança que sempre se esconde dentro da gente se perdeu. É mais fácil lidar com sentimentos que faltam do que com os que transbordam. Eu me declaro livre do teu amor. Dos teus abraços e olhares que me diziam outra coisa. Ou fui cega o bastante pra entender tudo errado. Pelo jeito, a tradução falhou e quem se machucou, mais um vez fui eu. Eu conheço todos os estágios de esquecimento, e tenho experiência suficiente pra saber que começou. 

Também não entendo esse amor eterno por alguém enquanto dorme com outra. Não é bonito nem justo. A gente não pode pausar o amor e voltar pra casa como se nada tivesse acontecido. Isso se chama quebra de confiança e é muito pior do que costumam chamar de infidelidade. Não sei até que ponto sei das coisas, mas não me parece certo. Eu, que não amo ninguém, sinto-me no direito pleno de fazer o que bem entender. Enquanto houver homens como você, alguns corações solitários vão gozar de bons momentos juntos durante algum tempo. E depois voltam pra casa, sem culpa ou remorso. Eis o ser humano, nu. Demasiado humano.

24 de maio de 2013

Bolero, Tango e Bossa Nova

I

Não sei se podemos chamar essa de "uma história de amor". Houve mais desencontros que beijos ardentes em quartos escuros e vapor na janela. É a história de duas almas de mundos diferentes que um dia se esbarraram por aí e não conseguiram mais dizer adeus.

Ela, no auge de seus vinte e tantos anos e com a certeza de que deixar seu país era a única solução para todos os seus problemas. Tinha muitas equações não resolvidas por lá. Deixou amigos, o cachorro, os pais com lágrimas nos olhos e o irmão. E deixou o mar. Ela sempre amou o mar, mais até do que gente. Era parte dela. Seu nome era Mariana, assim mesmo, mar e Ana.

Mariana deixou um semestre da faculdade por terminar. A vontade de ir pra qualquer lugar em que pudesse ser Carolina, Sofia, Clara,  era maior que tudo. E lá foi ela, sozinha, imaginando e sonhando, sonhando, sonhando. Tinha certeza de que aquele tempo seria suficiente para conseguir tudo o que queria. Mas o tempo passou rápido demais. Parece que quando ela finalmente encontrava o que a fazia feliz, os ponteiros do relógio resolviam aumentar a velocidade sem trégua. Mari - como os amigos gostavam de chamá-la - não trouxe amor consigo. Estava decidida a dar um tempo nos amores impossíveis, nos trágicos, nos platônicos, e finalmente dar um descanso para o seu coração. Tinha lido uma vez que era preciso se amar primeiro, antes de querer compartilhar sua vida. Mas até então, não conseguira tal feito.

Mas eis que em seu caminho apareceu um jovem, magricela, mas esbelto. Ela tinha medo que suas pernas quebrassem enquanto andava. Era frágil demais para o corpo de um homem, pensava enquanto ele caminha em sua direção. Mas tinha uns olhos parecidos com ameixa, bem redondos e escuros. A voz era engraçada. Era grave e alta demais pra sair daquele gurizinho. Era a alma de homem dizendo a ela que tomasse cuidado com ele. Chamava-se Arturo. Era um nome um tanto estranho pra um homem de menos de 30 anos. Não sabe se pelo idioma que falava ou se por personalidade, mas parecia o cara mais engraçado do mundo. Um cavalheiro que não economizava esforços para ajudar as donzelas em perigo. Deve ter aprendido nos filmes. Ele tinha jeito de quem via todos os clássicos, mas também perdia algumas horas com os dramas hollywoodianos. Logo descobriu que seu coração tinha ficado longe, em algum continente perdido, talvez no fundo do Atlântico. Mas enquanto fitava seus movimentos ao abrir mais uma cerveja pensava: - Ele precisa ser meu. Não era exatamente um desejo ardente de posse, embora pudesse sentir ciúmes só de pensar nele andando de mãos dadas por aí com outra.

E a dúvida de quem seria essa mulher que havia lhe sequestrado o coração consumia seus dias de tédio. Dias em que ficava deitada na cama porque era só mais uma tarde de chuva. E como chovia! Mariana nunca gostou de chuva, era do sol, do verão, do mar. Nascera em uma ilha e não havia santo que a convencesse de que dias cinzas molhados mereciam seu esforço de levantar da cama. Mari esperou tempo demais, noites demais, festas, encontros, viagens. Esperou porque pela primeira vez queria fazer as coisas certas. Sem atropelos ou atitudes que a fizessem ruborizar ao amanhecer. Nunca dera sinal algum de que o queria. De que o desejava, mais que como um conhecido. Ela queria mesmo seu corpo em cima e debaixo do dela. Tinha pensamentos estranhos quando ele se aproximava, queria abraçá-lo ali mesmo, na frente de todo mundo e sem explicação. E seria um abraço tão forte que tinha medo de quebrar seus ossinhos tão frágeis. Mas se continha.

Aos poucos, o cavalheiro foi transformando-se em só mais um cara normal. Sua boca beijou mais bocas do que ela pudera contar. E a cada noite era de um novo país. Não sabia as razões pra ter deixado sua amada pátria, mas deve ter sido para o aprendizado de novas línguas. Do jeito dele. Arrancando o pudor que restava das meninas que também deixaram sua terra natal com seus beijos aflitos de quem não sabe pra onde está indo, mas continua caminhando. E Mariana sempre ali, esperando sua vez. Sabia que conseguiria. Aprendera com o tempo que poderia ter o homem que desejasse, só precisava deixar as horas passarem. Embora não tivesse muitas doses de paciência em seu corpo, esperou. Até que uma noite, não sabe se por excesso de álcool no sangue ou se por uma combustão espontânea, puxou-o pela mão e o beijou. Sem pensar em nada. Simplesmente fez. Era geminiana, tinha dessas atitudes inexplicáveis às vezes. E dançaram, até cansar.

Mas a manhã seguinte sempre chega.

(Continua...)

2 de maio de 2013

Do Retrato de Dorian Gray


Voltei a reler "O Retrato de Dorian Gray". Eu sou dessas pessoas que aprecia tanto um livro que não precisa e nem sente vontade de best sellers. Hipster, alguém vai dizer. Detesto esse termo, acho uma tremenda bobagem e espero que um dia seja esquecido. A verdade é que meus autores preferidos estão mortos. Talvez um ou dois ainda respirem e exalem um ar jovial. Nunca parei pra pensar nisso, mas voltemos ao livro.

Parei em uma frase perdida em um dos primeiros capítulos, proferida por Lord Henry, um aristocrata cínico e hedonista, mas que me fez acordar novamente. Explico. O cara diz que os pequenos e simples prazeres são o último refúgio para a complexidade da vida. E ele tem toda a razão. Toda vez que fica tudo muito confuso, muito difícil de entender, quando parece não haver caminhos, a gente se volta aos nossos pequenos prazeres mundanos.

Chuva na janela, brisa assoviando enquanto tenta entrar no quarto sem medo de fazer alarde, filme repetido, andar descalço na grama, andar nu pela casa, dançar sozinho mesmo sem música, ouvir a mesma canção por cem vezes ininterruptas. Morango com açúcar, abacate com açúcar, ou simplesmente afundar o dedo na cobertura do bolo. Tudo com açúcar parece ficar bom. Raspar panela de brigadeiro, cortar carambola em estrelinhas. Olhar os carros passarem, as pessoas, o tempo... Tirar esmalte, pisar em folhas secas, andar, andar e andar por aí sem rumo. Ficar na cama fingindo que ainda tem sono e precisa dormir. Pura preguiça. Tomar aquele copo de água bem gelada depois de um banho de mar, tomar banho de chuva. Olhar pra luz, fechar os olhos e ver estrelas, galáxias! Olhar as nuvens.

Eu poderia ficar a vida inteira listando coisas que parecem bobas, clichês e banais. Mas pare pra pensar em quantas situações elas já te salvaram do tédio, da ira, da tristeza. A gente costuma não prestar atenção nessas coisas que estão dentro da gente, das quais a gente não vive sem, mas esquece de lembrar que pode ser nosso porto seguro. Quando as dúvidas, o "ser ou não ser" começarem a te tirar o ar, que tal voltar ao lugar onde tudo era simples? E a gente não precisa de uma máquina do tempo pra resgatar alguns prazeres infantis. Eles são completamente possíveis, palpáveis e realizáveis - tirando o banho de mar, para a minha tristeza - a qualquer instante.

Parece um desafio terrível ser feliz. E por ser tão simples, estar tão perto, a gente não enxerga. E ninguém pode nos ajudar a decifrar o que nossa alma necessita senão nós. Boa sorte.