24 de maio de 2013

Bolero, Tango e Bossa Nova

I

Não sei se podemos chamar essa de "uma história de amor". Houve mais desencontros que beijos ardentes em quartos escuros e vapor na janela. É a história de duas almas de mundos diferentes que um dia se esbarraram por aí e não conseguiram mais dizer adeus.

Ela, no auge de seus vinte e tantos anos e com a certeza de que deixar seu país era a única solução para todos os seus problemas. Tinha muitas equações não resolvidas por lá. Deixou amigos, o cachorro, os pais com lágrimas nos olhos e o irmão. E deixou o mar. Ela sempre amou o mar, mais até do que gente. Era parte dela. Seu nome era Mariana, assim mesmo, mar e Ana.

Mariana deixou um semestre da faculdade por terminar. A vontade de ir pra qualquer lugar em que pudesse ser Carolina, Sofia, Clara,  era maior que tudo. E lá foi ela, sozinha, imaginando e sonhando, sonhando, sonhando. Tinha certeza de que aquele tempo seria suficiente para conseguir tudo o que queria. Mas o tempo passou rápido demais. Parece que quando ela finalmente encontrava o que a fazia feliz, os ponteiros do relógio resolviam aumentar a velocidade sem trégua. Mari - como os amigos gostavam de chamá-la - não trouxe amor consigo. Estava decidida a dar um tempo nos amores impossíveis, nos trágicos, nos platônicos, e finalmente dar um descanso para o seu coração. Tinha lido uma vez que era preciso se amar primeiro, antes de querer compartilhar sua vida. Mas até então, não conseguira tal feito.

Mas eis que em seu caminho apareceu um jovem, magricela, mas esbelto. Ela tinha medo que suas pernas quebrassem enquanto andava. Era frágil demais para o corpo de um homem, pensava enquanto ele caminha em sua direção. Mas tinha uns olhos parecidos com ameixa, bem redondos e escuros. A voz era engraçada. Era grave e alta demais pra sair daquele gurizinho. Era a alma de homem dizendo a ela que tomasse cuidado com ele. Chamava-se Arturo. Era um nome um tanto estranho pra um homem de menos de 30 anos. Não sabe se pelo idioma que falava ou se por personalidade, mas parecia o cara mais engraçado do mundo. Um cavalheiro que não economizava esforços para ajudar as donzelas em perigo. Deve ter aprendido nos filmes. Ele tinha jeito de quem via todos os clássicos, mas também perdia algumas horas com os dramas hollywoodianos. Logo descobriu que seu coração tinha ficado longe, em algum continente perdido, talvez no fundo do Atlântico. Mas enquanto fitava seus movimentos ao abrir mais uma cerveja pensava: - Ele precisa ser meu. Não era exatamente um desejo ardente de posse, embora pudesse sentir ciúmes só de pensar nele andando de mãos dadas por aí com outra.

E a dúvida de quem seria essa mulher que havia lhe sequestrado o coração consumia seus dias de tédio. Dias em que ficava deitada na cama porque era só mais uma tarde de chuva. E como chovia! Mariana nunca gostou de chuva, era do sol, do verão, do mar. Nascera em uma ilha e não havia santo que a convencesse de que dias cinzas molhados mereciam seu esforço de levantar da cama. Mari esperou tempo demais, noites demais, festas, encontros, viagens. Esperou porque pela primeira vez queria fazer as coisas certas. Sem atropelos ou atitudes que a fizessem ruborizar ao amanhecer. Nunca dera sinal algum de que o queria. De que o desejava, mais que como um conhecido. Ela queria mesmo seu corpo em cima e debaixo do dela. Tinha pensamentos estranhos quando ele se aproximava, queria abraçá-lo ali mesmo, na frente de todo mundo e sem explicação. E seria um abraço tão forte que tinha medo de quebrar seus ossinhos tão frágeis. Mas se continha.

Aos poucos, o cavalheiro foi transformando-se em só mais um cara normal. Sua boca beijou mais bocas do que ela pudera contar. E a cada noite era de um novo país. Não sabia as razões pra ter deixado sua amada pátria, mas deve ter sido para o aprendizado de novas línguas. Do jeito dele. Arrancando o pudor que restava das meninas que também deixaram sua terra natal com seus beijos aflitos de quem não sabe pra onde está indo, mas continua caminhando. E Mariana sempre ali, esperando sua vez. Sabia que conseguiria. Aprendera com o tempo que poderia ter o homem que desejasse, só precisava deixar as horas passarem. Embora não tivesse muitas doses de paciência em seu corpo, esperou. Até que uma noite, não sabe se por excesso de álcool no sangue ou se por uma combustão espontânea, puxou-o pela mão e o beijou. Sem pensar em nada. Simplesmente fez. Era geminiana, tinha dessas atitudes inexplicáveis às vezes. E dançaram, até cansar.

Mas a manhã seguinte sempre chega.

(Continua...)

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