2 de maio de 2013

Do Retrato de Dorian Gray


Voltei a reler "O Retrato de Dorian Gray". Eu sou dessas pessoas que aprecia tanto um livro que não precisa e nem sente vontade de best sellers. Hipster, alguém vai dizer. Detesto esse termo, acho uma tremenda bobagem e espero que um dia seja esquecido. A verdade é que meus autores preferidos estão mortos. Talvez um ou dois ainda respirem e exalem um ar jovial. Nunca parei pra pensar nisso, mas voltemos ao livro.

Parei em uma frase perdida em um dos primeiros capítulos, proferida por Lord Henry, um aristocrata cínico e hedonista, mas que me fez acordar novamente. Explico. O cara diz que os pequenos e simples prazeres são o último refúgio para a complexidade da vida. E ele tem toda a razão. Toda vez que fica tudo muito confuso, muito difícil de entender, quando parece não haver caminhos, a gente se volta aos nossos pequenos prazeres mundanos.

Chuva na janela, brisa assoviando enquanto tenta entrar no quarto sem medo de fazer alarde, filme repetido, andar descalço na grama, andar nu pela casa, dançar sozinho mesmo sem música, ouvir a mesma canção por cem vezes ininterruptas. Morango com açúcar, abacate com açúcar, ou simplesmente afundar o dedo na cobertura do bolo. Tudo com açúcar parece ficar bom. Raspar panela de brigadeiro, cortar carambola em estrelinhas. Olhar os carros passarem, as pessoas, o tempo... Tirar esmalte, pisar em folhas secas, andar, andar e andar por aí sem rumo. Ficar na cama fingindo que ainda tem sono e precisa dormir. Pura preguiça. Tomar aquele copo de água bem gelada depois de um banho de mar, tomar banho de chuva. Olhar pra luz, fechar os olhos e ver estrelas, galáxias! Olhar as nuvens.

Eu poderia ficar a vida inteira listando coisas que parecem bobas, clichês e banais. Mas pare pra pensar em quantas situações elas já te salvaram do tédio, da ira, da tristeza. A gente costuma não prestar atenção nessas coisas que estão dentro da gente, das quais a gente não vive sem, mas esquece de lembrar que pode ser nosso porto seguro. Quando as dúvidas, o "ser ou não ser" começarem a te tirar o ar, que tal voltar ao lugar onde tudo era simples? E a gente não precisa de uma máquina do tempo pra resgatar alguns prazeres infantis. Eles são completamente possíveis, palpáveis e realizáveis - tirando o banho de mar, para a minha tristeza - a qualquer instante.

Parece um desafio terrível ser feliz. E por ser tão simples, estar tão perto, a gente não enxerga. E ninguém pode nos ajudar a decifrar o que nossa alma necessita senão nós. Boa sorte.

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