1 de maio de 2015

Ensaio do conto “O menino rico”, de S. Fitzgerald

2012

          Francis Scott Fitzgerald é lembrado hoje, principalmente, como o autor de “O Grande Gatsby”, embora tenha construído sua fama com o conto. Publicando em revistas de grande circulação de sua época, ele ganhou o dinheiro de que necessitava para sustentar-se enquanto escrevia os romances, que considerava a sua legítima produção literária. Destinadas a um público mais amplo, as histórias curtas coletadas em “24 Contos de F. Scott Fitzgerald” revelam um intérprete sensível da sociedade americana. Não um intérprete engajado, mas um escritor dos frenéticos anos 1920, que ele mesmo batizou de "a Era do Jazz".
            Filho de um antigo aristocrata e de uma rica herdeira nasceu em 24 de setembro de 1896, em Minnesota, nos Estados Unidos, em um lar irlandês de formação católica. Ele chegou a estudar durante algum tempo na Universidade de Princeton, mas não se formou. Este período, porém, o levou a se unir aos afortunados, a uma elite pela qual se apaixonaria irremediavelmente. Em 1920, casou-se com Zelda Fitzgerald. Ele e a esposa mergulham em um vertiginoso universo de prazeres, regado a muitas festas e viagens sem fim. Dedicou-se durante muito tempo às crônicas e ensaios, pois não tinha mais tempo de criar suas novelas, mas tornou-se famoso, na verdade, por seus romances e pelos contos curtos em que retrata o culto ao luxo e às excentricidades de uma geração perdida na era do Jazz nos EUA, os dourados anos 20.
            Foi ainda na década de 1920, que o autor publicou O Grande Gatsby, última grande obra antes do mergulho do escritor nos excessos e extravagâncias de sua nova vida, escrita na França, onde o casal residiu por algum tempo. Este estilo de vida, muito semelhante ao dos personagens do autor, tem um fim drástico em 1930, com a internação de Zelda em um hospício.
            Fitzgerald era ao mesmo tempo célebre por seu modo de vida, e ardente crítico deste culto às ilusões e às aparências. Este era o universo retratado em suas obras, das quais ele era simultaneamente o artífice e o protagonista implícito.
            Em seus últimos anos de existência, produzia roteiros para Hollywood, quase todos mutilados ou recusados. Doente, bebendo muito e cheio de dívidas, o escritor morreu aos 44 anos, de um ataque cardíaco, em Hollywood, berço dos sonhos norte-americanos, os quais ele representou como ninguém em sua obra e vivenciou amplamente em sua vida. Zelda morreu oito anos depois, em 1948, quando o hospital psiquiátrico em que estava internada se incendiou.
            O conto “O Menino Rico” (1926) utiliza um narrador externo à história para contar a história de um jovem nascido em berço de ouro e como ele responde ao amor, os relacionamentos e às questões financeiras e de status dentro de sua classe social. Passível de ser confundido com o próprio Fitzgerald, esse narrador estaria diante do seguinte dilema: como transformar uma pessoa em personagem, sem fazer dela uma caricatura grotesca? Daí as suas auto advertências, que acabam por levá-lo a um alvo ambicioso. Desconstruir as falsas imagens que os pobres têm dos ricos e estes de si mesmos. “A única maneira que tenho para descrever o jovem Anson Hunter é abordá-lo como se fosse um estrangeiro e teimar até alcançar meu ponto de vista. Se aceitar o ponto de vista dele, mesmo que por um segundo, estarei perdido – e nada terei a mostrar a não ser um filme grotesco”.
            Fitzgerald começa por descrever os ricos quase como se fossem uma raça separada - "eles são diferentes", explica o narrador: “No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós”. Fitzgerald faz a arte de caracterização parecer fácil. Ele molda seus personagens rapidamente, seus gestos, linguagem corporal e processos de pensamentos fluem suavemente. A maneira do escritor de inserir o narrador como um personagem atuando em vários pontos é impressionante. A história de Anson Hunter é contada a partir de um ponto de vista externo, onisciente, com a voz ao fundo de F. Scott Fitzgerald contando sua própria história sobre os amores e as perdas que ele experimentou em sua própria vida dramática. Como quando Anson se apaixona, onde há a nítida sensação de que Fitzgerald está contando sua vida íntima, com suas próprias fraquezas no amor e no alcoolismo que aconteceram em seu casamento com Zelda.
            Aqui, o protagonista é Anson Hunter, um bem-sucedido jovem nova-iorquino, que parece ter o mundo inteiro pela frente e pelas ruas pavimentadas de ouro. Anson Hunter cresce sabendo que as pessoas ao seu redor acham ele superior: Eles sabem que ele é rico apenas olhando para ele.
            A tensão da história começa imediatamente com o seu amor intermitente por Paula e o alcoolismo, que se encarregara de estragar tudo sempre. Anson é um homem que vive em mundos separados durante a brilhante e glamorosa década de 1920, quando tudo parece incrivelmente acessível: Casas grandes, carros vistosos, noites extravagantes na cidade. No entanto, suas histórias tomam um rumo, assim como o mercado acionário na crise de 29.


            Sua real paixão, em meio as romances que viveu durante sua vida, foi Legendre Paula. Se é que podemos chamar o sentimento e o modo como Anson agia de paixão. Superficialmente, Paula não parece ser o tipo de menina por quem Anson sofreria tamanha dualidade de pensamentos entre o que é frágil e o que é sólido. Fitzgerald descreve Paula como uma garota "conservadora e bastante adequada." Anson é inteligente, gosta de aproveitar a vida: é um cínico – como ele mesmo afirma que a vida o tornou. No entanto, obcecado por Paula, não porque ela representa o dinheiro que ele quer, mas porque ela representa o sistema social que justifica sua existência. 
            Em seu mundo, ​​homens mais velhos (assim como seu tio Robert) detêm as rédeas do governo e de negócios, as mulheres castas e adequadas (como Paula e sua mãe) devem manter as regras de decoro e etiqueta. Até que tenha idade suficiente para assumir a máscara de masculinidade de mais velho responsável, playboys, como Anson só querem diversão. Isso é tudo que Anson pensa estar fazendo. Assim como ele vê em si mesmo a semente não desenvolvida de um futuro líder, ele vê em Paula o núcleo de uma futura mulher de sociedade. Definitivamente, considera que seriam um bom par.
            O que ele não percebe, porém, é que a sua riqueza tem dentro de si o poder de corrompê-lo, e que já começou o trabalho. Seu primeiro problema é que ele se vê como superior. Ele se comporta dessa maneira; Fitzgerald diz que “Anson aceitava sem reservas o mundo das altas finanças e das grandes extravagâncias, do divórcio e do esbanjamento, do esnobismo e do privilégio. Para a maioria de nós, a vida acaba num compromisso – mas foi num compromisso que a dele começou”.
            Anson não vê nenhuma razão para que, sendo jovem e rico, ele tem que jogar de acordo com as regras de qualquer outra pessoa. Se ele quer encher a cara debaixo da mesa, por que ele não teria o direito de fazer isso? E, independentemente de onde esteja ou com quem, quando ele está bêbado e age grosseiramente, por que ele deveria se desculpar por seu comportamento? Ele é rico, e os ricos fazem as regras. As pessoas devem simplesmente aceitar sua superioridade natural, independentemente de como ele se comporta. O narrador deixa isso muito claro no início da história: "Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós”.
            Parece muito difícil simpatizar com um personagem que mantém essas crenças e defende seus atos de forma tão sincera e natural, mas é o que fazemos, porque sentimos desde o inicio que ele é dirigido para um abismo. A triste história de um menino que tinha tudo e acaba com nada. 
            Seu primeiro erro está na sua incapacidade de se comprometer com Paula. O destino deu a Anson todas as oportunidades para levar Paula ao altar. Ao fazer isso, ele estaria afirmando a sua idade adulta, tomando seu lugar ao lado dos homens feitos e bem sucedidos de Nova York. Mas, fiel ao seu estatuto como um herói trágico, ele tenta constantemente desafiar o destino. O papel ordenado para ele é ser um herdeiro rico, responsável por negócios, um senhor de alguma mansão suburbana, o benfeitor de instituições de caridade, mas ele se recusa. Anson não quer crescer. Ele consegue um emprego entrando em uma corretora e mesmo quando ele sobe alguns degraus da escada corporativa, há ainda uma parte dele que é incapaz de desistir da farra colegial, e trata com indiferença as responsabilidades que o destino impôs sobre seus ombros. Paula vê "duas personalidades" alternadas dentro de Hunter. Ele poderia impressionar com a "sua presença forte e atraente", mas por outro lado era "bruto, bem humorado, irresponsável". Mesmo assim ele ainda acredita que pode controlar Paula e que eles vão se casar um dia.
            O segundo erro está na autojustiça, condenando sua tia Edna por ter um caso fora do matrimônio. Anson, de todas as pessoas, deveria ser a última a condenar alguém por lapsos morais. Ele mesmo tinha acabado de terminar com Dolly Karger, a quem namorou durante todo o tempo sabendo que ela não significava nada para ele.  Ele não tinha o direito de ameaçar expor Edna e Cary, e torna-se diretamente responsável pelo suicídio de Cary. Anson nunca se sentiu culpado, já que pra ele a situação que provocou com suas ameaças de contar a verdade não eram capazes de levar uma pessoa a querer a morte.
            Seu terceiro erro foi acreditar que quando estivesse pronto, Paula o estaria esperando. Ele sente-se perturbado quando ouve que ela se casou com outra pessoa, mas, Anson vivia em um mundo caracterizado por "divórcio e dissipação", e parece sentir que Paula ainda fará parte de seu futuro. Basicamente, esse pensamento equivale a uma crença de que o destino está ao seu lado: Deve ser porque ele nasceu rico. 
            Mas a lição mais importante da vida de Anson é que para aqueles que muito se é dado, muito será pedido. Ele não parece perceber que o retorno é um processo ao longo da vida. Paula dá a Anson muitas oportunidades para reivindicar seu amor. Ela ainda lhe dá uma segunda chance quando se divorcia pela primeira vez. Anson - que certamente deveria ter sido maduro o suficiente para "crescer" até então - não faz nada, e Paula continua sua vida, casando-se com outra pessoa. Seu destino é selado quando ela o informa de que está feliz com sua nova vida. Ela se casou e está grávida. No fim, revela que ela nunca fora apaixonada por Hunter. Ele é ferido, mas ainda não consegue entender que tudo aconteceu devido aos seus próprios fracassos. Paula morre no parto. Ela viveu uma vida inteira no período em que Anson gastou tentando crescer, tentando passar de um menino rico a um homem. Hunter chora, e, em seguida, segue viagem a bordo de um navio, bebe seus coquetéis e já flerta uma garota atraente. 
            O narrador é capaz de ver falhas Hunter já que não é "como" ele. Quando eles estão de luto pela morte de Paula no cruzeiro, Hunter se distrai novamente por outra mulher. O narrador se resigna a ser abandonado por seu amigo, observando que Hunter precisa amar a si, mas também ser amado. “Acho que ele não era feliz a não ser que tivesse alguém apaixonado por ele, respondendo a seus sentimentos como se fosse um imã, ajudando-o a explicar a si mesmo, prometendo-lhe alguma coisa”.

            Fitzgerald, em um estilo todo próprio, oferece choques inesperados de sensibilidade e sabedoria, que parecem de alguma forma surpreendente.  Nessa representação trágica, mas precisa do outro lado do sonho americano, “O Menino Rico" é um dos contos mais comoventes de Fitzgerald.

Nenhum comentário:

Postar um comentário